Hector de Souza
Goiânia – As primeiras palavras ensinadas a uma criança costumam ser “papai” e “mamãe”. Mas, em algumas famílias, há quem também sussurre, desde cedo, o nome do clube do coração, principalmente quando um dos pais é obcecado pelo time. Não por acaso, muitas vezes a paixão por um clube pode ser definida perfeitamente como hereditária.
Quem nunca teve aquela figura paterna obcecada pelo time? Aquele pai que parece ter memória curta para tanta coisa, mas se lembra, nos mínimos detalhes, do gol mais importante da história do clube ou até daquele jogador aleatório que passou por lá. A paixão pelo futebol pode, sim, ser definida como uma herança, embora caiba ao time decidir se ela vai trazer paz ou aquela inevitável dor de cabeça.
E, entre os torcedores de plantão, quem nunca ouviu a famosa frase: “Esse aí é sofredor igual ao pai”? Dependendo da temporada, realmente sofre. Mas o fato é que ter alguém com quem torcer, reclamar e palpitar torna esses momentos inesquecíveis.
Mas e aí, onde tudo começou? Em que momento você se viu sentado no sofá ou na cadeira ao lado do pai, torcendo, visitando estádios ou comprando aquela camisa para combinar na hora do jogo? Para a estudante de Jornalismo Karini Castro, já formada em Letras, o pai teve influência direta na escolha do Vila Nova como clube do coração.
A relação de Karini com o Vila começou ainda na infância e foi construída recheada de muitas memórias. “Desde criancinha eu tinha as coisas do Vila e ia ao estádio junto com meu pai para ver os jogos. Tenho uma memória muito afetiva com o Serra Dourada. Lembro que, na infância, íamos muito ao Serra: eu, meu pai e meu avô (materno)”, recorda.
Algumas dessas lembranças permanecem especialmente vivas. Algumas partidas, conforme destaca, ficaram marcadas. “Eu tenho uma lembrança carinhosa de um jogo no Serra. A partida não valia nada, era entre Vila Nova e Santo André. O Vila ganhou de 3 a 1. Estávamos eu, meu pai, meu avô, minha mãe, meu irmão e até um amigo dele”, conta. Ela lembra que, para cada integrante da família, havia um motivo diferente para estar no estádio. “Minha mãe ia para comer amendoim, meu irmão e o amigo dele iam para comer picolé, e eu ficava lá torcendo junto com meu pai”, diz ao mencionar que outro detalhe também ficou marcado. “Meu avô levava o radinho dele para ouvir o jogo, mesmo estando no estádio. Lembro que estávamos indo embora e o Vila marcou o terceiro gol, e nós comemoramos todos lá embaixo”, relembra.
Mas nem só de vitórias são feitas as memórias de Karini quando o assunto é torcer pelo time do coração. Para ela, o mais importante sempre foi a companhia do pai. “Um outro jogo que eu não esqueço, e que também não valia muito, foi Vila e Grêmio. Ficou 0 a 0 e foi uma partida até recente, em 2022. Até hoje guardo a foto do ingresso”, diz. Ela conta que a experiência foi marcante justamente pela forma como aconteceu. “Esse jogo marcou porque eu queria muito ir, e a gente não sabia se ia dar certo. Foi em cima da hora. Meu pai falou: ‘vamos’, e a gente foi. Compramos o ingresso lá na porta. O jogo ficou 0 a 0, mas conseguimos assistir de pertinho na arquibancada”. No fim, o placar acabou sendo apenas um detalhe. “Esse jogo foi importante porque fui com meu pai, e eu queria muito ir”, conclui.

Karini e o pai (Foto: arquivo pessoal)
Karini com o pai no estádio do Vila e o ingresso do jogo contra o Grêmio. (Foto: Arquivo pessoal)Para Karini, o futebol não se resume resultado dentro de campo. É uma forma de fortalecer os laços familiares e criar lembranças. “Falo por experiência própria, porque todos os dias aqui em casa falamos sobre o Vila, damos uma olhada na tabela, quais são os próximos jogos, qual vamos conseguir ir. Assistimos até aos jogos dos adversários ou conversamos sobre como vão influenciar na posição do Vila.”
Segundo ela, esse convívio é o que torna a experiência tão marcante. “O futebol tem essa função de criar conexão, coisas que aconteceram na infância que você não esquece, mesmo não sendo uma partida extraordinária, mas traz uma memória que você passa junto e não consegue esquecer”, pontua.
Assim como Karini é apaixonada pelo Vila, o também estudante de Jornalismo Gustavo Gomes da Silva Telles, de 21 anos, tem o Atlético-GO como clube do coração. No caso dele, porém, a herança futebolística veio em dose dupla. É que além de compartilhar com o pai a paixão pelo Dragão Campineiro, os dois também torcem pelo Fluminense-RJ.
Segundo Gustavo, a ligação da família com o Atlético-GO é antiga e tem origem no bairro de Campinas, na capital goiana. “É uma coisa muito engraçada, porque tanto meu pai como a minha mãe são de Campinas, nasceram e foram criados lá, no bairro do Estádio Antônio Accioly, então sempre conviveram nas proximidades do estádio”, diz ao mencionar que a tradição atleticana atravessa gerações. “A família do meu pai é muito grande. Ele tinha cerca de quatorze irmãos, alguns já faleceram, mas todos eram atleticanos”, relata.
A identificação com o Fluminense surgiu mais tarde, ainda na juventude do pai. “Meu pai, quando era jovem, frequentava os cinemas da região, e as sessões de filme tinham propaganda esportiva… Algumas delas eram sobre o Fluminense, aquele da década de 70. Meu pai tem 67 anos, é de 1959, e viu aquele Flu que foi campeão. Ele acabou gostando do time e se tornou torcedor.”
Foi justamente essa convivência entre as duas paixões que acabou sendo passada para o filho. “Meu pai não tinha a oportunidade de ir ao Rio de Janeiro assistir aos jogos, mas tinha o contato com os jogos aqui com o Atlético. Então, ele acabou torcendo para o Fluminense de fora, mas sempre frequentando o estádio e indo aos jogos do Dragão, e acabou transmitindo a paixão pelos dois times para mim”, diz.

Gustavo conta que a paixão pelo Atlético-GO começou justamente no momento em que o pai o levou ao estádio pela primeira vez e, conforme pontua, a lembrança permanece viva. “Foi em um jogo do Atlético-GO contra o Guarani, no Serra Dourada, em 2010. Eu tinha cinco anos. Naquele momento, eu percebi que iria torcer e acompanhar esse time com ele.”
Mas o pai não foi o único responsável por despertar esse sentimento. “Meu ‘segundo pai’, João César, que é meu padrinho e irmão do meu pai, teve uma grande influência na escolha também. Acho que até mais que o meu pai. Afinal, foi ele que fez meu pai torcer para o Dragão. Meu pai tinha muitos irmãos, mas foi ele que o puxou para esse lado e, quando nasci, me levou também”, enfatiza.
Ao longo dos anos, pai e filho acumularam experiências ligadas ao mundo do futebol. “Um dos momentos mais marcantes que eu tenho foi em 2023 (Boca Juniors x Fluminense). A gente vibrou junto e sofreu também, a final da Libertadores, no Maracanã, com apoio da torcida, gol na prorrogação… Então foi um momento muito especial, o nosso time ganhou uma Libertadores de forma inédita”, comemora.
A paixão pelos dois clubes também levou os dois a conhecerem diversos estádios pelo país. “O próprio Antônio Accioly, Serra Dourada, Estádio Olímpico e até a estádios em outros lugares, como Almeidão, em João Pessoa, Mineirão (MG), Arena MRV (MG) e Arena Independência (MG)… Inclusive, na Arena Independência para ver jogos do Atlético como visitante. Já fui mais de cem vezes a estádios, e para ver jogos do Fluminense também.”

Entre tantas lembranças, uma tem um significado especial para universitário. “Um dos melhores momentos que eu já vi no estádio foi em um Atlético-GO e Fluminense, em 2022. Fiz meu pai ir para a torcida do Atlético. Ele queria ir na do Flu, mas fiz ele ir na do Dragão. Nesse jogo, o Fluminense abriu 2 a 0 e logo depois tomou a virada, e eu fiquei brincando com ele que o Atlético estava melhor”, relata.
No caso do contador Ricardo Alessandro Marinelli, de 40 anos, a paixão pelo futebol também atravessou gerações. O amor pelo Goiás Esporte Clube e pelo Palmeiras começou dentro de casa, influenciado pelo pai, Luiz Carlos, de 73 anos. Natural do interior de São Paulo, Luiz sempre foi palmeirense. Ainda jovem, acompanhava os jogos pelo rádio e pela televisão e, sempre que podia, ia a estádios da região onde morava para assistir às partidas de equipes locais, sem nunca deixar de acompanhar o Verdão. Além de torcedor, também cultivava o hábito de jogar futebol por diversão.

Ricardo e os filhos: Carlos e Gabriel (Foto: arquivo pessoal)
Quando Ricardo ainda era criança, a família se mudou para Goiânia. A adaptação à nova cidade também rendeu preferência pelo Goiás Esporte Clube. Sem abandonar o Palmeiras, pai e filho passaram a dividir a torcida pelos dois clubes. “Meu pai sempre foi apaixonado por futebol. Desde pequeno, cresci vendo ele acompanhar os jogos do Palmeiras e falando sobre o time. Quando viemos para Goiânia, foi muito natural começar a torcer também pelo Goiás. Acabamos criando esse carinho pelos dois clubes e vivendo isso juntos”, conta Ricardo.
Hoje, Ricardo vê a história se repetir com os próprios filhos, de 20 e 15 anos, que também herdaram a paixão pelo Goiás e pelo Palmeiras. “É muito bom perceber que essa tradição continua. Assim como aprendi a gostar de futebol com meu pai, meus filhos cresceram acompanhando os jogos comigo. O time muda de geração, os jogadores passam, mas o sentimento permanece. O futebol acaba unindo a família e criando memórias que ficam para sempre”, arremata.
Se, como diz o hino do Vila Nova, o Tigre não pode parar, a tradição de torcer também segue de geração em geração. Os pais fazem o possível para manter essa paixão viva. E, já que o Atlético-GO tem a força de um Dragão, eles transmitem essa garra das arquibancadas para os filhos. Afinal, se a torcida esmeraldina é Goiás até morrer, quando depende dos pais, essa paixão parece mesmo se tornar imortal.
