Há um velho sentimento no jogo político: quando o escândalo é grande e envolve muitas pessoas influentes tudo termina em pizza. A expressão agora encontrou guarida em definitivo nos corredores dos poderes da República. O caso do Banco Master, no entanto, não é apenas mais uma história de corrupção e blindagem. É, talvez, a primeira vez em que o forno da pizza está aceso dentro do próprio Supremo Tribunal Federal (STF), onde se serve o banquete diante de um constrangedor espetáculo de autodefesa.
A cena é digna de um roteiro de tragédia grega com toques de farsa. O ministro Gilmar Mendes, decano da Corte, reconhecido, inclusive por este pequeno escriba, pela sua proeminente liderança, inteligência e sabedoria jurídica, escolheu o programa Roda Viva, da TV Cultura, como palco para desferir críticas a seu colega André Mendonça, relator do inquérito que investiga as fraudes do Banco Master. Chamou de “erro crasso” a atuação de Mendonça ao receber advogados do banqueiro Daniel Vorcaro para tratar de uma possível delação. A lei, argumentou o decano, não permite que o juiz participe das tratativas entre o Ministério Público e o delator.
O problema, como notaram juristas ouvidos pela imprensa, é que o artigo 36 da Lei Orgânica da Magistratura (Loman) veda ao magistrado “manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento”. Ao tecer críticas públicas a um colega sobre um caso em andamento, Gilmar Mendes não apenas afrontou a norma como forneceu munição para que a defesa de Vorcaro alegue nulidades no futuro. A pizza, como diz a colunista do jornal Folha de S.Paulo Lygia Maria, está no forno.
Entretanto o banquete não se limita ao aspecto processual. A turnê midiática do ministro, que já concedeu ao menos uma dúzia de entrevistas nos últimos meses, tem um objetivo declarado: melhorar a imagem do STF. O resultado, no entanto, parece ser o oposto. Ao matar o mensageiro e atribuir à imprensa a culpa pela impopularidade da Corte, Gilmar Mendes revela uma cegueira proposital e seletiva. A queda de confiança dos brasileiros no Supremo, como bem observou a colunista, decorre de abusos cometidos pela própria Corte, como o inquérito das fake news, e das relações questionáveis de alguns de seus membros com o banqueiro Daniel Vorcaro, entre outras questões.
A tentativa de desqualificar o trabalho do colega de Corte André Mendonça ecoa a estratégia usada contra a Lava Jato — e o próprio Gilmar Mendes faz a comparação. O problema é que, como alertam ministros nos bastidores, Mendonça não é Sérgio Moro. O relator tem maioria na Segunda Turma, com o apoio de Luiz Fux e Nunes Marques, e é visto por aliados como um magistrado técnico, que não abriria flancos para questionamentos futuros. Na votação que manteve as prisões do pai e do primo de Daniel Vorcaro, Gilmar Mendes ficou isolado.
A divisão titânica e exposta no STF, portanto, não é apenas de opiniões, mas de forças. De um lado, o grupo de Gilmar, que conta com Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin. Do outro, Mendonça, respaldado por Fux, Nunes Marques, Cármen Lúcia e o presidente Edson Fachin. Dias Toffoli, impedido por seus negócios no resort Tayayá, transita perdido entre os dois lados. O embate, que já expôs a Corte ao ridículo, promete se aprofundar — especialmente se avançar a proposta de um imprescindível código de conduta para ministros, que o presidente Fachin tenta emplacar.
E o que diz o banqueiro Daniel Vorcaro, figura central desse enredo? Ele busca uma terceira tentativa de delação premiada, após duas propostas terem sido rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República sob a alegação de que não traziam elementos novos. A expectativa é que a nova tentativa apresente informações mais relevantes. Resta saber se o cardápio servirá para alimentar a justiça ou apenas para engordar ainda mais a fatia de poder dos envolvidos.
A pergunta que fica, e que dá título a esta reflexão, é inevitável: mais uma pizza? O forno está aceso, os ingredientes estão sobre a mesa — ministros em rota de colisão, um bombástico banqueiro em busca de salvação e uma opinião pública cansada de ver o mesmo espetáculo se repetir. A diferença é que agora, pela primeira vez, a cozinha onde se prepara o banquete fica dentro do próprio templo. E o cheiro de queimado, que antes vinha de fora, agora parece vir de dentro.
- EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO é advogado. Pastor Evangélico. Delegado de Polícia Veterano. Mestre e especialista em Direito Público, Segurança e Políticas Públicas. Escritor de 25 livros publicados, entre os quais destaca: O Vácuo do Poder — Colapso Institucional e Ascensão do Crime Organizado no Brasil (Conexão Editora/2026).