Jales Naves
Especial para A Redação
Goiânia – O Instituto Histórico e Geográfico de Goiás foi a primeira instituição a ter sua sede no setor Sul, quando Goiânia dava os seus primeiros passos, e abrigou em seus espaços duas grandes instituições goianas: a Seção de Goiás da Ordem dos Advogados do Brasil, que ali funcionou durante cinco anos, e a Universidade Federal de Goiás, mais especificamente o seu Centro de Estudos Brasileiros (CEB), o primeiro criado no Brasil, “para estudar a realidade nacional em todos os seus domínios”. Num ato simbólico, o IHGG, cuja sede data de 1939, vai receber a UFG para comemorar os 64 anos de criação do CEB, que funcionou dois anos em espaços do Instituto, antes de ser fechado pelo regime militar, em 1964.
Entidade guardiã da história goiana e mais antiga instituição que funciona na Capital, o IHGG está abrigando simbolicamente essas instituições para rever o passado, fortalecer esse relacionamento e construir novos laços. A primeira que acolheu foi a Seccional da OAB, que funcionou de 1955 a 1959, e no dia 22 deste mês, às 9h, receberá a UFG, para recordar o abrigo dado ao CEB. Anteriormente, o Instituto recebeu a Assembleia Legislativa do Estado para comemorar os 130 anos de criação desse Poder.
Centro de estudos
O Centro de Estudos Brasileiros foi criado pela Resolução nº 12, de 09.02.1962, do Conselho Universitário. Seu primeiro diretor foi o professor Gilberto Mendonça Teles (Portaria nº 85, de 03.08.1962) e a sede provisória instalada no prédio do IHGG. O CEB surgiu para estudar a realidade nacional “em todos os seus domínios”, debatendo Goiás e o país em busca de solução adequada aos problemas goianos e nacionais.
Influíram substancialmente para sua criação os subsídios fornecidos do professor Agostinho da Silva, da Universidade de Brasília, onde coordenava o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses e colaborava com o Centro de Estudos Afro-Orientais, da Bahia, e com o Centro de Estudos Latino-Americanos, do Rio Grande do Sul. Sua intenção era que, nas Universidades Federais, fossem criados centros em que se apresentasse o Brasil, revelando a situação econômica, social, política e cultural do país.
O CEB instalou em 1963 os seus dois primeiros cursos, de Estudos Brasileiros e de Estudos Goianos, destinados a analisar e debater a realidade nacional e goiana. Foi criada a Biblioteca Reitor Colemar Natal e Silva, especializada, para a qual pediram a editoras e livrarias a doação de material didático, para criar uma dinâmica de estudos e investigações, em que professores e alunos se uniam na produção de trabalhos, e o espaço não se tornasse um mero depósito de livros preciosos e jornais, como muitos outros.
Em seu segundo ano de funcionamento, 1964, fez circular em fevereiro a primeira edição do “Cadernos de Estudos Brasileiros”, órgão oficial do CEB; e em 4 de março a secretária Myrthes de Lourdes Carrijo convocou os professores para reunião, às 19h30, na sede do CEB. Pauta: novo ano, aprovação de programas e outros assuntos. As aulas começaram no dia 20 desse mês.
Em agosto de 1964, como fizeram no ano anterior, os professores e alunos do Curso de Estudos Goianos visitaram o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Cachoeira Dourada, e, como resultado, realizaram seminário de estudos para dar uma visão econômico-social do empreendimento.
Nesse mês o reitor da UFG já era o professor José Martins D’Alvarez.
Em setembro de 1964, o diretor do CEB, Gilberto Mendonça Teles, encaminhou ao diretor da Imprensa Universitária da UFG, José Balduíno de Sousa, os originais do segundo número do “Cadernos de Estudos Brasileiros”, referente ao segundo semestre de 1963, para impressão.
Professores e disciplinas
Treze professores e disciplinas que lecionaram no Curso de Estudos Brasileiros em 1964, no CEB: Amália Hermano Teixeira, ‘História Política, Econômica e Social do Brasil’; Antônio Theodoro da Silva Neiva, ‘Antropologia Cultural do Brasil’; Bernardo Élis Fleury de Campos Curado, ‘Geografia Econômica e Humana do Brasil’; Domingos Félix de Sousa, ‘Cultura Brasileira’; Élder Rocha Lima, ‘História da Arte no Brasil’, que também lecionou em 1963; Genesi de Castro e Silva, ‘Cultura Francesa’, para todos os alunos, independente do curso; Gilberto Mendonça Teles, ‘Literatura Brasileira’; Joaquim de Assis Costa, ‘Estatística’; padre José Pereira de Maria, ‘Sociologia Brasileira’; Lena Castelo Branco Ferreira Costa, ‘História Política Contemporânea’, em dois semestres; Mário Carmo da Costa, ‘Cultura Inglesa’, para todos os alunos, independente do curso; Ruy Ferreira Brettas, ‘Instituições Jurídicas Brasileiras’; e Waldir Luís Costa, ‘Economia Brasileira’.
Seis professores que lecionaram no Curso de Estudos Goianos e as disciplinas, também em 1964: Antônio Geraldo Ramos Jubé, ‘História da Cultura Goiana’; César Ribeiro de Andrade, ‘Língua Portuguesa’; Horieste Gomes, ‘Geografia de Goiás’; Modesto Gomes da Silva, ‘História de Goiás’, e Vicenzo Falconi, ‘Economia de Goiás’.
Alunos
Trinta e oito alunos pagaram a taxa de inscrição, 1ª chamada: Vicentina Thereza Martins Velloso, Glória Aparecida Amaral, Marcel Félix Caixeta, Adalcino Ferreira Gomes, Fred Iano, Olímpio Dias Júnior, Divino Teixeira Chaves, Maurício Ferreira da Cunha, José Gomes Machado, Almira Cornélio Brom, José Cerqueira Leite, Antônio Rodrigues Silva, Paulo Augusto Curado, Bianor Ferreira Lima, João Adilberto Pereira Xavier, Wolmer Fernandes Valente, Olga Abrantes, Rubens Aquino Fleury. Élio José da Cunha, Gercílio Almeida Godinho, Célia Barbosa Modes, Waldomiro Azevedo Ferreira, José Victor Machado, Aldair Silveira Aires, Mirabeau Abrantes, Gercy José da Costa, Maria Aparecida Batista, Antônio Carlos, Otacílio Primo Zago, João Spirandelli, José Francisco Faria, Guilherme de Resende, Yara Aparecida Moreira, Isabel Guimarães Baiocchi, Derlivier Napoleão dos Santos, Antônio Carlos Trindade, Paulo Janer Taveira e Olinto Manso Ferreira Filho.
Trinta e oito pagaram a taxa de matrícula, 1ª chamada: Iracilda de Oliveira Reis, Pérola Campos, Elizabeth Hermano, Sebastião José César, Stella Dalva Leite, João Vaz dos Reis, Humberto do Nascimento Andrade, Osvaldo de Oliveira Vaz, Olímpio Dias Júnior, Valeriano Ribeiro Ferreira, José Cerqueira Netto, Luís de Lourdes Bernardes Curado, Gercy José da Costa, José Gomes Machado, Bianor Ferreira Lima, João Adilberto Pereira Xavier, Vicentina Teresa Martins Vellloso, Antônio Rodrigues da Silva, José Victor Machado, Maria Aparecida Batista, Antônio Carlos, Adalcino Ferreira Gomes, Antônio Carlos Trindade, Paulo Augusto Curado, Yara Aparecida Moreira Baciocchi, Célia Barbosa Modes, Divino Teixeira Chaves, Paulo Janer Taveira, Olinto Manso Pereira Filho, Marcel Félix Caixeta, Élio José da Cunha, Guilherme de Resende, Waldomiro Azevedo Ferreira, Wolmer Fernandes Valente, Wilma Azeredo Abrantes, Maurício Ferreira da Cunha, Nair Higina Froes e José Carlos de Almeida.
Dezoito pagaram a taxa de inscrição (2ª etapa): Antônio Graciano da Silva Netto, Alenor Alves da Silva, Otacílio Primo Zago, Edésio Leão de Sousa, José Félix de Sousa, Gilberto David, Albérico Rocha Lima, Goyá Teixeira, Luís Carlos Moraes, Nicola Limonge Filho, Wilma Azeredo Abrantes, Aridê Augusto de Brito, Érico de Sousa, José Francisco Faria, Sérgio Andrade de Carvalho, Pedro de Moraes Jardim, Jorge de Moraes Jardim e Gilson José de Carvalho.
Sete pagaram a taxa de matrícula (2ª chamada): Érico de Sousa, Edésio Leão de Sousa, Albérico Rocha Lima, José Félix de Sousa, Gilberto David, Graciano Antônio da Silva Netto e Mirabeau Abrantes.
Dezessete pagaram a taxa de matrícula do segundo ano do Curso de Estudos Brasileiros: Marilena Maldonado, Maria do Amparo Aguiar. Jean François Douliex, Welse Assis Gonçalves, Marivone Mattos, Ester Cardoso Pereira, Onelino Rodrigues, Lídia Polech, Manuel de Jesus Oliveira, José Carlos de Almeida, Sérgio Paulo Moreira, Cecília Brasão Costa, Glyce Louise Wiederecker, Marina Rodrigues Teixeira, Dalva Stella Rezende, Mari Nazaré Baiocchi e Eliane de Macedo Alves Pereira.
Quinze alunos pagaram a taxa de inscrição (2ª época): Manuel de Jesus Oliveira, Luís de Lourdes Bernardes Curado, Dalva Stella Rezende, Simonides Martins Resende, Onelino Rodrigues. Cecília Brasão Costa, José Mendonça Teles, Emílio Ferreira dos Santos, Humberto do Nascimento Andrade, Carlote Lino de Sousa, José Vaz de Oliveira, Sebastiana de Lélis Coelho, Marina Rodrigues Teixeira, José Carlos de Almeida e Mari Nazaré Baiocchi.

Efervescência política
A criação da Universidade Federal em Goiás em 18 de dezembro de 1960 foi fruto de um ambiente de efervescência política de estudantes e de docentes. Em sua concepção, há a criação do jornal universitário “4º Poder” e o momento simbólico da Semana de Planejamento de 1962, organizada pelo reitor Colemar Natal e Silva, que contou com a participação do antropólogo Darcy Ribeiro, do sociólogo Ernesto de Oliveira Júnior e do filósofo português Agostinho da Silva; Agostinho inspirou a criação do CEB na UFG, direcionado a pensar o Brasil e a região de Goiás. Os projetos foram interrompidos com o golpe civil-militar de 1964.
Além do fechamento do “4º Poder” em abril e do CEB no final do ano, as marcas evidentes da avidez do regime militar no controle da UFG começaram a ser expostas com a demissão de professores considerados comunistas, com a própria destituição em julho do reitor Colemar Natal e Silva e a gradativa institucionalização do sistema de vigilância, informação e repressão dentro do espaço universitário. A breve história do Centro de Estudos Brasileiros e os encaminhamentos pós-golpe na Escola de Engenharia servem de ponto de partida para ilustrar o clima que se instalou na universidade já no primeiro ano do governo militar.
Entre os fatos que contribuíram para inviabilizar a manutenção do CEB na UFG está a exoneração do professor Gilberto Mendonça Teles do cargo da direção, por meio do Ato Institucional nº 1. Mal imaginava o então diretor que sua visita espontânea ao coronel Danilo Darcy de Sá em um quartel militar desencadearia seu desligamento do CEB. O encontro foi motivado por um conselho do então professor de Literatura e Língua Portuguesa da UFG, Waldir Luiz Costa, que soube que o militar não tinha “uma visão boa” do Centro de Estudos. Ao final do tenso encontro, Gilberto Mendonça teve que assinar o seu depoimento. “Assinei sem ler. Estava nele o pedido de minha exoneração pelo AI-1”, lembra. Além do nome do diretor do CEB, o decreto de exoneração, de 8.10.1964 e assinado pelo presidente Castello Branco, também constava o do professor Éder Rocha Lima.
Assinado em 9.04.1964, o AI-1 foi o primeiro instrumento utilizado na universidade para a demissão de professores e funcionários, perseguição de alunos e constituição de um então incipiente sistema de vigilância. Entre os nomes de professores atingidos pelo Ato, Horieste Gomes cita o de Antônio Theodoro da Silva Neiva e Sérgio Paulo Moreyra; e a perseguição que sofreu o professor Ático Villas Boas Mote, diretor do Departamento de Educação e Cultura da UFG. “Ele foi preso e, a partir de então, mesmo sem ser desligado da universidade, passou a ser vigiado”, conta. Um dos fundadores da UFG, professor Orlando Ferreira de Castro também recorda o episódio. “Ele esteve preso um mês, logo depois do golpe, e começou a ser perseguido. Foi muito sacrificado pela ditadura”, afirma.
