Samuel Straioto
Goiânia – Partidos e federações de Goiás entram na fase decisiva de montagem das chapas proporcionais para 2026 sob a exigência da cota de gênero prevista na legislação eleitoral, que determina participação mínima de 30% e máxima de 70% de candidaturas de cada sexo nas disputas para deputado federal, deputado estadual e vereador. O processo segue o calendário definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE): as convenções partidárias ocorrem entre julho e agosto, com prazo até meados do mesmo mês para o registro das candidaturas na Justiça Eleitoral. Mais do que uma exigência burocrática, a regra busca corrigir uma desigualdade histórica que mantém as mulheres como minoria nos espaços de poder, ainda que representem a maior parte do eleitorado brasileiro.
O TSE também tem intensificado a fiscalização contra fraudes, como candidaturas femininas fictícias registradas apenas para cumprir o percentual exigido, sem campanha efetiva, prática que pode resultar em cassação de candidaturas, perda de mandatos e inelegibilidade.
Apesar de representarem 53% do eleitorado brasileiro, as mulheres ainda são minoria nos cargos eletivos do país: entre 2018 e 2024, a média de candidaturas femininas foi de 34%, das quais apenas 17% se elegeram, segundo o TSE. O patamar coloca o Brasil na 139ª posição em um ranking de 184 países sobre representação feminina no parlamento. É nesse cenário nacional de cota cumprida no papel, mas pouco traduzida em poder, que partidos em Goiás avançam na formação de suas chapas para 2026.
Os desafios da composição das chapas
Questionada pela reportagem do jornal A Redação sobre o principal desafio na montagem das chapas femininas para 2026, a presidente estadual do PSOL, Cíntia Dias, respondeu: “O principal desafio é garantir que a presença das mulheres nas chapas não seja tratada como uma exigência burocrática da legislação eleitoral, mas como parte real do projeto político do partido. A cota de gênero é uma conquista fundamental, mas ela não resolve sozinha o problema da desigualdade.”
Sobre a situação atual do partido, a dirigente afirmou à reportagem: “A nossa construção interna aponta para uma chapa que vai além da cota mínima de 30% exigida pela Justiça Eleitoral. No PSOL, conseguimos chegar a uma composição próxima de 50% de mulheres, o que demonstra um esforço político real de ampliar a participação feminina e não apenas cumprir a legislação.” A ressalva, segundo ela, está na federação com a Rede: como a aliada sinaliza cumprir apenas o percentual legal de 30%, o índice final da federação pode ficar abaixo do alcançado pelo PSOL isoladamente. “Para nós, a cota é o piso, não o teto”, resumiu Cíntia Dias.
Também em entrevista ao AR, a presidente estadual do PT, deputada federal Adriana Accorsi, seguiu raciocínio semelhante: “O debate sobre a presença e o protagonismo na política está no centro das reivindicações sobre os direitos das mulheres. Não dá mais pra fazer política sem nós e a sociedade brasileira tem a obrigação de reduzir desigualdades históricas cometidas contra as mulheres.” Questionada pela reportagem sobre a chapa petista para 2026, Accorsi respondeu: “Em Goiás, nossa chapa para 2026 está robusta e com importante participação das mulheres para as bancadas federal e estadual e trabalhamos para garantir pelo menos duas mulheres na chapa majoritária” — referência às disputas pelo Executivo estadual.
No PL, o reforço ao protagonismo feminino também tem sido pautado, ainda que por caminho distinto: a sigla tem usado atos públicos, como a recente posse da nova diretoria do PL Mulher em Goiânia, para associar a presença de mulheres na política a trajetórias individuais dentro do partido.
Espaços de direção, não só de candidatura
PT e PSOL convergem em um ponto: a presença feminina nas chapas eleitorais perde efetividade se não for acompanhada de espaço nas estruturas internas dos partidos. Cíntia Dias argumenta que, quando as mulheres ocupam apenas a posição de candidatas, sem participar da definição de estratégias, da distribuição de recursos e das decisões partidárias, a desigualdade de gênero permanece intacta dentro da própria organização política.
Adriana Accorsi cita um caminho semelhante adotado pelo PT em nível nacional. Segundo ela, o partido instituiu paridade de gênero nas direções e instâncias internas e criou a Secretaria Nacional de Mulheres, responsável por promover formações e campanhas voltadas à ocupação de espaços políticos por mulheres. A petista reforça que a sub-representação feminina no Legislativo e no Executivo brasileiros — hoje apenas cinco mulheres governam estados no país — não é só uma questão numérica, mas também afeta a agenda pública, ao dificultar o avanço de temas como saúde da mulher, direitos reprodutivos e combate à violência de gênero.

No PL, o tema aparece associado a uma trajetória individual de comando. A deputada federal Magda Mofatto, que já presidiu o próprio PL e outras legendas em Goiás, marca seu retorno à liderança política da sigla. “Eu nunca me afastei do PL. Por que eu digo do PL? Porque é o principal partido de direita e o maior partido de direita. Então, nunca me afastei”, afirma. Sua trajetória à frente de direções partidárias é citada, no contexto do PL Mulher, como exemplo de como a ocupação de postos de comando por mulheres reforça a necessidade de ampliar esses espaços dentro das estruturas partidárias.
Busca por candidatas competitivas
Encontrar mulheres dispostas a disputar — e com condições reais de competir — é outro ponto sensível na montagem das chapas. Ana Paula Rezende, que disputa a vice na chapa de Wilder Morais, relatou, durante a posse da nova diretoria da ala feminina do partido, em Goiânia, ter sido convidada a se candidatar diretamente por Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e presidente nacional do PL Mulher.
“Sou candidata porque a primeira-dama me telefonou e pediu que eu fosse candidata. Isso é lutar para que as mulheres ocupem mais espaço”, afirmou, dirigindo-se à presidente do PL Mulher. Rezende também destacou o acolhimento que encontrou na sigla: “Fiquei muito tocada quando cheguei aqui e vi o valor que vocês dão às mulheres. Eu não estava acostumada com isso”, disse.

Financiamento e violência política
Entre os principais entraves à permanência das mulheres na disputa eleitoral, dirigentes partidárias citam a falta de financiamento efetivo para campanhas competitivas e a violência política de gênero. À pergunta do jornal A Redação sobre esses obstáculos, Adriana Accorsi respondeu que “apesar das cotas de gênero, as mulheres ainda enfrentam muitas dificuldades para entrar na política e pleitear mais espaços de poder porque falta financiamento efetivo para campanhas competitivas e porque sofrem violência política de gênero, uma realidade cruel que afeta a grande maioria daquelas que se aventuram na vida pública. Temos testemunhado aqui no estado, por exemplo, os sucessivos ataques à nossa companheira Bia de Lima na Assembleia Legislativa de Goiás.”
Em resposta à mesma pergunta, Cíntia Dias reconheceu que o machismo estrutural também atravessa partidos de esquerda, ainda que de forma menos explícita: “É preciso dizer com honestidade: o PSOL não está fora do mundo da vida. O machismo é estrutural e também aparece na esquerda, muitas vezes de forma velada, sofisticada, disfarçada de divergência política ou de disputa interna. Mulheres que questionam, denunciam e enfrentam essas práticas frequentemente vivem situações de desgaste, adoecimento e isolamento”, afirmou a presidente do PSOL à reportagem.

Próximos passos até as convenções
Com o calendário eleitoral avançando, os partidos têm poucas semanas para fechar suas nominatas antes do período das convenções partidárias, etapa em que as candidaturas são oficializadas para o pleito de outubro. No PSOL, o ajuste final ainda depende da negociação com a Rede dentro da federação, o que pode alterar o percentual de mulheres na chapa conjunta. No PT, Accorsi afirma que o partido trabalha para consolidar a participação feminina na chapa majoritária e nas bancadas legislativas. Já no PL, a movimentação da ala feminina em atos públicos como o de Goiânia sinaliza a estratégia de associar o discurso de protagonismo das mulheres à força política das candidaturas da sigla.
A expectativa entre as três siglas é que, somente após as convenções, fique definido até que ponto o cumprimento da cota de gênero em Goiás avançará além do piso legal de 30% — patamar que, segundo dados do próprio TSE, ainda está distante de se traduzir em poder político equivalente para as mulheres.
