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Ana Carla Abrão

Novo sistema financeiro

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13.06.2026 - 12:59:19

Há reformas que transformam setores, outras transformam a lógica de funcionamento desses setores. O Open Finance brasileiro pertence à segunda categoria.

Costumamos analisar o sistema de finanças abertas a partir de suas funcionalidades: compartilhamento de dados, iniciação de pagamentos, portabilidade de operações financeiras. Afinal trata-se de uma infraestrutura que viabiliza que tudo isso aconteça de forma rápida e segura. Mas sua relevância transcende a dimensão tecnológica.

Por alterar a dinâmica da relação entre consumidores de serviços financeiros e suas diversas instituições de crédito, pagamento, investimentos ou gestão financeira, gera inovação e produz efeitos sobre produtividade, crescimento econômico e inclusão financeira.

O sistema financeiro ocupa posição singular na nossa economia. Sua profundidade e eficiência afetam a capacidade de famílias consumirem, empresas investirem e empreendedores inovarem. Quando os serviços financeiros são restritos e o crédito é caro ou mal direcionado, a economia cresce menos e o bem-estar é menor.

Quando a concorrência é limitada, os incentivos à inovação diminuem e os ganhos de eficiência demoram a chegar ao consumidor.

Por décadas, uma das barreiras à competição no setor financeiro esteve associada à concentração de informações. O histórico financeiro dos clientes permanecia restrito à instituição que operacionalizava suas transações. O Open Finance altera essa lógica ao reconhecer que os dados pertencem ao cliente e viabilizar que pessoas e empresas compartilhem suas informações de forma segura e padronizada.

A competitividade passa a depender menos da posse exclusiva dos dados e mais da qualidade dos serviços, da conveniência e adequação das ofertas de produtos e da experiência do consumidor.

O Brasil construiu o maior ecossistema de finanças abertas do mundo. Milhões de cidadãos já consentiram com o compartilhamento de seus dados e centenas de instituições participam ativamente dessa infraestrutura. Em cobertura financeira, quase que a totalidade do Sistema Financeiro Nacional se encontra conectado bilateralmente via os trilhos de Open Finance, efetuando bilhões de chamadas diárias de compartilhamento de dados e/ou pagamentos.

Mais importante do que os números, porém, é o movimento que ele representa: redução das barreiras de entrada; inovação em produtos e serviços e ampliação do conjunto de escolhas para consumidores e empresas.

Mas o Open Finance brasileiro faz mais: ao implementar uma infraestrutura interoperável, resiliente e segura, Banco Central e mercado criaram uma plataforma de serviços que une informação padronizada a uma ampla rede de conexão, gerando infinitas possibilidades para o uso de inteligência artificial em transações financeiras — desde as mais corriqueiras até as mais sofisticadas.

Os efeitos econômicos dessa mudança tendem a ser significativos. A circulação de informações qualificadas melhora a avaliação de risco e reduz os custos de intermediação financeira. A potencialização dos efeitos do uso de inteligência artificial abre espaço para ganhos de produtividade.

Na dimensão social, inclusão financeira pode ir além da bancarização e finalmente significar acesso adequado a crédito, seguros, investimentos e meios de pagamentos.

Hoje o Brasil lidera essa transformação. Nenhum outro país conseguiu combinar uma infraestrutura instantânea de pagamentos como o Pix a um ecossistema de Open Finance de escala nacional. Essa combinação cria uma plataforma única para o desenvolvimento de novos modelos de negócio e para a expansão da economia digital.

O desafio daqui para frente não é mais tecnológico. É econômico e institucional e deve visar à continuidade do fomento à interoperabilidade, fortalecendo a confiança dos usuários, ampliando a educação financeira e preservando um ambiente regulatório que estimule inovação sem comprometer a segurança.

Essa é uma agenda de desenvolvimento que, por criar condições de maior eficiência econômica, contribui para enfrentar desafios persistentes do país: o baixo crescimento, a baixa produtividade e a exclusão financeira.

As grandes transformações raramente acontecem de forma abrupta. Elas começam com mudanças técnicas, cujos efeitos se acumulam no tempo. O Open Finance é uma dessas mudanças. Mas seu legado talvez não seja apenas transformar a forma como lidamos com serviços financeiros, mas ampliar a capacidade da economia brasileira de competir, inovar e crescer de forma mais inclusiva.

*Ana Carla Abrão é formada em Economia pela Universidade de Brasília e possui mestrado pela EPGE/FGV, além de um doutorado pela FEA USP

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por Ana Carla Abrão

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