Quem quer realmente compreender um povo deve prestar atenção no que ele come. E não somente no que come, mas em como come e como o digere. Assim me parece ser o jogo entre cozinha e literatura.
Para mim, todo escritor é também cozinheiro. Encontra os melhores frutos do seu quintal [ou os rouba dos vizinhos]. Depois, prepara-os, com capricho renhido, e serve aos outros. A verdade é que ninguém cozinha para si mesmo, senão por falta de opção. Faz-se, quando se faz, para dar deleite e congregar.
Para partilhar sabores e construir esperanças, à espera de novos pratos. Cada texto tem gosto. Gosto da terra que lhe rende fartura. E não poderia ser de outro jeito, por lógica conveniente: o fruto não pode estar alheio à semente, à terra que o cativou, ao carinho da chuva mansa e ao sacrifício da colheita, para que não se perdesse por descaso. Também em Goiás [e, sobretudo, aqui], a literatura tem gosto.
No legado bem-querido e honesto dos muitos que a escreveram, recolhemos a abundância dos frutos da nossa terra. Doces e salgados. Azedos e até amargos [alguns muito amargos, como a vida em seus reveses]. Como disse o poeta: comer é preciso! E é preciso comer de tudo, refinar o gosto. Quem não come não cresce, dizia mamãe. E o dito nos cabe em todos os sentidos.
Coralina, das mãos tão prendadas, e os outros, os muitos. Até Bariani recomendou receitas! De bocada em bocada, sem o recato pudico dos que se afastam do prato sem estar saciados, fartemo-nos deste legado. Ontem e hoje, em pratos generosos, dos que foram e, por isso, nos são modelos de cozinhatura [a arte de cozinhar um texto].
Como disse, porém, não só importa o que se come, mas, igualmente, como. Alguns, livres da prisão que os encerrava, com bocadas largas e sem constrangimento, catam os pedaços com as mãos, metem-nos na boca e os engolem. Mandam para dentro, formam interior. Ou, como se diz, lambem o prato. Outros, com modos de melhor requinte. Devagarinho, um bocado de cada vez. Sabem que podem voltar à panela, refazer a porção, repetir. Têm estilo até para comer.
E há, enfim, os que lambiscam; os que chegam já fartos à mesa, cheios demais do que passaram comendo o dia inteiro, sem que comessem de fato. Ao fim e ao cabo, o que importa é comer. Nutrir-se, dar vida à vida, mesmo com preferências.
Ninguém come de tudo [ninguém, nem quem diz fazê-lo, mentindo sem se enrubescer]. Secretamente, todos carregamos nossas devoções. Gostos e desgostos, afinidades eletivas, abusos. E quando se desgosta é porque se comeu [e até fartou-se!]. Em literatura, Goiás não deixa ninguém morrer de fome.
Há, contudo, um problema que não posso ignorar. Em tempo de universalização generalizante, também se passa a generalizar o gosto. Sabores são importados. Alguns que bem comporiam os frutos da nossa terra. Outros nem tanto. Se o milho é versátil, nem tudo vai com pequi, ou com guariroba. Misturas estranhas. Substituições arbitrárias. Empurradas aos espíritos como comida enlatada aos corpos. Saciam sem nutrir; não se transmite os vínculos do passado ao futuro. Faz-se adoecer a memória e põe em risco a vida, que passa a sobre-viver.
Não há nada de mais terrível. Não há nada de mais perverso. Sobretudo aos mais jovens. Pois quem morre, com cada morte, é o povo todo. E o problema está na digestão. Quando se come [mesmo com pressa] boa comida da própria terra, salva-se, ao fim, sem contratempos estomacais.
Não se passa o mesmo com os enlatados [plastificados, condicionados, viralizados ou hypados]. O corpo reage, rejeita. Quer expelir, com toda a força que lhe resta. Nem sempre consegue. Nem sempre termina bem. A diferença, então, está na digestão. No que devém do ruminar silente do nosso espírito. Boa comida dá força ao trabalho. Transmuta-se em gestos construtores de [novos] mundos. Somos o que comemos. Nosso mundo também o é. Que ninguém morra de fome em terra de tanta fartura. Em Goiás, literatura tem gosto!
*José Reinaldo Martins Filho é professor da PUC Goiás. Atua nos PPGs em Ciências da Religião, do qual é atual coordenador, e em Letras. Autor de “Boiuna” (2025) e “A lenda do Pai-do-mato” (2025), ambos pela Mondru, e de “Antônio Poteiro: um místico luso-brasileiro”, pela editora da UCP, em Portugal (2025).
