Ludymila Siqueira
Goiânia – Acostumado a percorrer as estradas brasileiras a bordo de um caminhão munck, Woton Machado, de 38 anos, acreditava que aquele trabalho era sua única chance de mudar de vida. Desde muito jovem, atuou em uma empresa de locação de caminhões para obras, passando meses longe de casa. Quando retornava ao lar em Aparecida de Goiânia, era recebido com alegria pela família, especialmente pela mãe, que aguardava ansiosamente sua chegada. Foram anos nessa rotina, com carteira assinada. Solteiro e satisfeito com a própria trajetória, não imaginava que tudo mudaria de uma hora para outra, ao ser demitido inesperadamente.
Sem saber por onde recomeçar, já que não tinha experiência em outra área profissional, Woton tentou atuar como representante comercial de uma empresa de alimentos, mas não deu certo. Foi então que percebeu a necessidade de se qualificar e ingressou em um curso técnico de máquinas de costura no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Goiás). Durante o estágio em uma loja no Setor Campinas, em Goiânia, surgiu uma luz no fim do túnel e uma pergunta que mudaria os rumos de sua vida: “por que não empreender?”.
“Eu tinha uma filha para cuidar e precisava encontrar um caminho. Captar clientes, aprender a administrar as finanças do negócio, principalmente quando aquela é sua única fonte de renda, e investir tempo nos estudos não foram caminhos fáceis, mas eu nunca desisti. Acreditei que aquela seria minha oportunidade e a abracei. Lá no início, pude contar com a capacitação do Senai e, depois, com o apoio do Sebrae-GO para entender um pouco mais sobre empreendedorismo, até porque era um mundo totalmente novo para mim”, lembra Woton. “Hoje, depois de dez anos, olho para trás e vejo que abrir um MEI e acreditar no empreendedorismo foi minha melhor decisão. Tenho meus horários, tenho pessoas que confiam no meu trabalho não só em Goiânia, mas também em cidades do interior do Estado. Sou grato pelo caminho que construí”, afirma o microempreendedor individual Woton Machado, em entrevista à reportagem do jornal A Redação.
A realidade de Machado não difere da de muitos brasileiros que encontram no empreendedorismo, sobretudo nos pequenos negócios, a chance de mudar sua realidade financeira. Dessa forma, o som do desenvolvimento brasileiro não vem apenas das grandes empresas, das indústrias ou do movimento intenso do agronegócio. Ele ecoa, com força crescente, nas salas de estar transformadas em ateliês, nos pequenos escritórios de serviços especializados e na gestão estratégica de comércios que nascem de norte a sul do país e alavancam a economia local. É um movimento liderado por mãos que, entre múltiplas jornadas e o desejo de independência, estão alterando a estrutura econômica brasileira: os microempreendedores individuais (MEIs).
Para se ter uma ideia, os MEIs lideraram a abertura de empresas no país e já representam 78% dos novos negócios em 2026. Dados publicados pelo Sebrae Nacional durante a Semana do MEI 2026 apontam que o país registrou mais de 1,59 milhão de novos microempreendedores individuais (MEI) entre janeiro e abril deste ano, um crescimento de quase 15% em relação ao mesmo período de 2025.
O setor de Serviços concentrou mais de 1 milhão de novos registros de MEI nos quatro primeiros meses do ano, seguido por Comércio (298,7 mil), Indústria (139,5 mil), Construção (115,6 mil) e Agropecuária (10,8 mil). Entre as atividades com maior número de formalizações estão serviços de malote e entrega (133,5 mil), transporte rodoviário de carga (121,6 mil), publicidade (98 mil) e cabeleireiros e serviços de beleza (91,6 mil). Em dados gerais, o Brasil soma mais de 13 milhões de microempreendedores.
Analista do Sebrae, Camilla Carvalho avalia que o MEI é a principal porta de entrada para o empreendedorismo. O modelo foi criado justamente para facilitar a formalização de trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores, oferecendo simplicidade tributária e segurança jurídica.
“Os dados mostram isso claramente, reforçando o papel do MEI como primeiro passo para quem deseja empreender. Muitas empresas começam pequenas, ganham maturidade e, posteriormente, evoluem para outros portes empresariais. Porém, isso não significa que todos os negócios precisem necessariamente crescer de porte, já que muitos permanecem como MEI, por atenderem plenamente às características e necessidades da própria atividade”, destaca em entrevista à reportagem do jornal A Redação.

O que é MEI?
Essa “pequena” palavra significa Microempreendedor Individual e é considerada a forma mais simples de um empreendedor formalizar seu negócio, ter seu CNPJ e se tornar um profissional autônomo. Desta forma, há o recolhimento de impostos, possibilidade de emissão de notas fiscais e até a contratação de um funcionário. Tudo isso em um formato tributário simplificado.
Quem é cadastrado como pessoa jurídica MEI precisa arcar com um imposto único e reduzido mensal, que cobre a Previdência Social, o ICMS e/ou ISS, e ficam isentos de obrigações como o IRPJ, PIS, COFINS, IPI e CSLL.

Por fim, o registro como Microempreendedor Individual (MEI) é um processo simples, fácil, completamente online e gratuito. Para formalizar o seu trabalho e desfrutar de todos os benefícios de ser MEI, o primeiro passo é ter um CNPJ ativo, ou seja, registrar a empresa. O único custo para se manter como MEI é o recolhimento mensal do imposto, desde que o empreendedor não ultrapasse o teto de receita anual de R$ 81 mil – o que provoca a cobrança de multas por excesso de faturamento.
Quem investe no empreendedorismo colhe bons frutos
“O que mais me motiva a continuar no empreendedorismo é a liberdade de poder cuidar da minha filha, fazer meus próprios horários e trabalhar com algo que realmente amo”. A declaração é da microempreendedora Bianca Biêntoni, de 29 anos, que começou a empreender há cinco anos, ao tirar um projeto do papel e dar vida ao Ateliê Bianca Criações, uma papelaria personalizada em Goiânia.
Ela conta que mergulhar no empreendedorismo sempre foi um sonho. No entanto, a chave virou quando ela se viu sem condições financeiras de arcar com as despesas de uma babá e percebeu que precisava de um trabalho com liberdade de horários para cuidar da filha ainda pequena, coisa que, segundo ela, era impossível conciliar estando fichada em uma empresa no regime CLT. Foi quando decidiu se arriscar, unir o talento à prioridade familiar e ao sonho de ter o próprio negócio.

No Ateliê, toda a produção é feita por Bianca, desde a arte até a finalização. Em sua maioria, as peças são feitas por encomenda e personalizadas, o que oferece um toque ainda mais especial ao cliente.
“O que mais me deixa feliz é ver que, por meio do meu trabalho, consigo realizar sonhos, levar alegria para as pessoas e ainda conquistar minha independência fazendo o que gosto. Sempre incentivo as pessoas a investir no empreendedorismo, porque isso traz mais liberdade financeira e também mais realização pessoal. A papelaria personalizada, por exemplo, é uma área muito grande e cheia de oportunidades. Sempre vai existir alguém querendo transformar momentos especiais em algo único”, destaca Bianca.
Para se ter uma ideia, no ano passado, Goiás somou 1,1 milhão de empreendedores. Desse total, 153,2 mil são jovens de até 29 anos donos de negócios, de acordo com levantamento realizado pelo Sebrae-GO. Quanto à estrutura produtiva dos empreendedores jovens, 90% são empreendedores por conta própria, 42% estão formalizados e, em sua maioria (58%), atuam no setor de serviços. Outro dado interessante é que 45,3% dos que decidiram empreender são chefes de domicílio.

A analista do Sebrae Goiás Camila Carvalho diz que o ideal é pensar em abrir um MEI quando a atividade já começa a gerar renda recorrente ou quando existe a intenção de profissionalizar um serviço ou produto. Para ela, a formalização traz diversas vantagens, como emissão de nota fiscal, acesso a crédito, possibilidade de participar de licitações, além da cobertura previdenciária.
Outro ponto importante é que o MEI ajuda o empreendedor a organizar melhor a gestão financeira e empresarial do negócio desde o início, separando a pessoa jurídica da pessoa física. “Quanto mais cedo houver essa estruturação, maiores são as chances de crescimento sustentável da empresa”, afirma.
Pensando em um cenário cada vez mais pujante, o Sebrae Goiás possui uma ampla e completa rede de apoio ao microempreendedor individual, começando pela formalização e acompanhando todas as etapas do negócio e da jornada empreendedora. Oferece consultorias, capacitações presenciais e online, cursos gratuitos, oficinas, palestras, orientações em gestão financeira, marketing e vendas, além de atendimento especializado para formalização, regularização e desenvolvimento do MEI.
Também são disponibilizadas soluções voltadas ao acesso a mercado, ao crédito orientado, à inovação, à transformação digital e ao aumento da competitividade, inclusive com iniciativas relacionadas ao uso da inteligência artificial nos pequenos negócios. Afinal, o MEI está cada vez mais inserido em um mercado que exige produtividade, presença digital e adaptação tecnológica.
“O objetivo do Sebrae é apoiar o empreendedor não apenas na abertura da empresa, mas principalmente na sustentabilidade, permanência e crescimento do negócio no mercado. Um ponto importante é destacar que empreender exige planejamento e capacitação contínuos. Por isso, o Sebrae Goiás atua justamente para fortalecer esses empreendedores, ajudando a desenvolver competências de gestão, inovação e mercado. O MEI é uma grande oportunidade de transformação econômica e social, mas o sucesso do negócio depende também de preparo, informação e apoio especializado”, arremata Camila Carvalho.
