Na manhã de 28 de maio, GAECO e Receita Federal bateram em cinco estados ao mesmo tempo. 59 mandados de busca e apreensão. São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
O nome: Operação Fluxo Oculto. Segunda fase da Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. O alvo: seis fintechs que o PCC estava usando para lavar dinheiro do tráfico, das armas e da adulteração de combustíveis.
Os números
As seis empresas movimentaram juntas mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Três delas declararam à Receita R$ 8 bilhões apenas em 2025. As outras três nem entregaram a declaração obrigatória. Além disso, pelo menos R$ 365 milhões em criptoativos foram rastreados nessas instituições.
Paralelo a isso, a adulteração de combustíveis com nafta gerou aproximadamente R$ 200 milhões em tributos sonegados em dois anos.
Os fugitivos
Os líderes apontados são Mohamad Hussein Mourad (“Primo”) e Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”). Foragidos desde agosto de 2025. Tentaram fechar delação com o MPSP. Proposta rejeitada — porque omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, vínculos com o PCC e corrupção policial.
Como o dinheiro se movia
Três camadas. Sempre três.
Geração: Empresas de fachada compravam nafta petroquímica fingindo uso industrial. O produto ia para terminais, era misturado ao combustível, e seguia para os postos do esquema.
Circulação: As fintechs usavam contas bolsão — uma conta única que concentrava o dinheiro de dezenas de empresas ao mesmo tempo, dispersando depois em várias direções. Impossível rastrear quem é quem. Em um caso, 56 postos operavam por uma única conta.
Integração: O dinheiro final ia para fundos de investimento. Quatro fundos estão na mira. Patrimônio estimado em R$ 205 milhões — crescimento de mais de 200% em pouco mais de um ano.
O detalhe que mais importa
A primeira fase derrubou três fintechs. Em agosto de 2025. A resposta do PCC foi escalar para seis. Com novas empresas, novos sócios, novo capital social — mesmo que fictício. E transferiu R$ 4 bilhões das contas antigas para as novas antes de qualquer bloqueio.
O promotor João Paulo Gabriel foi direto na coletiva de 28 de maio: “Essas empresas se tornaram um duto do crime organizado para o fluxo de lavagem do dinheiro ilícito.”
Funcionários cooptados — o ponto cego
As fintechs não eram só canal. Eram estrutura de pagamento interno. O MPSP confirmou: parte dos recursos circulava para pagar colaboradores do próprio esquema. Pessoas com cargo formal, dentro da instituição, recebendo pela estrutura criminosa.
O sinal mais concreto mapeado pelo mercado de compliance: mudança brusca no padrão de vida de funcionários em posições estratégicas — logística, compras, financeiro — sem justificativa aparente.
Não é teoria. É o mesmo padrão de casos de corrupção corporativa há décadas. Ao longo de 15 anos investigando crime organizado, vi esse padrão se repetir em setores que ninguém esperava. A diferença agora é quem está do outro lado da cooptação.
Crime não é aleatório. Ele segue padrão.
A dimensão real do PCC
Com sua rede de postos de combustíveis, o PCC movimentou R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Isso o coloca entre as maiores operadoras do setor no país. A rede Ale, quarta maior do mercado, opera 1.500 lojas.
E combustível é só o que apareceu até agora. A organização já opera em transporte público, coleta de lixo, mineração, imobiliário, hotelaria, varejo, energia, pecuária.
Não é mais tráfico de drogas com conta bancária. É uma holding criminosa — com braço financeiro, fundos de investimento e, aparentemente, departamento de RH.
