João Gabriel de Freitas
A imprudência de um motorista do transporte coletivo da empresa Leste Transportes, que presta serviços terceirizados para a Rápido Araguaia, é apontada como causadora de mais uma morte nas ruas da capital. Em dois dias, é a segunda vítima de ônibus que atendem as linhas da região metropolitana, justamente na Semana Nacional de Trânsito. Na noite de quarta-feira, um ciclista morreu atropelado na Avenida Veiga Vale, no Parque Veiga Vale em Aparecida de Goiânia.
A vítima da vez trata-se de uma idosa que tentava descer do coletivo em uma parada, quando o veículo arrancou e a arrastou por alguns metros. Valdete Campos Pereira, de 72 anos, retornava para sua casa, no Jardim Guanabara, depois de sessão de fisioterapia na Rua 5, no Centro, como fazia diariamente. De acordo com o depoimento de testemunhas, ao tentar descer, Valdete prendeu sua bolsa na escada do veículo e não teve tempo de retirá-la.
O coletivo partiu com a porta traseira ainda aberta, antes mesmo da idosa conseguir se afastar. Valdete teve as pernas esmagadas pelas rodas do coletivo e morreu antes mesmo da chegada das viaturas de socorro. O motorista, Emerson Barbosa Silva, de 34 anos, deixou o local e deve prestar depoimento nesta sexta-feira, na Delegacia Especializada em Investigações de Crimes de Trânsito de Goiânia (DICT).
Casamento de 53 anos e 11 filhos
Durante a tarde de ontem, enquanto dois filhos de Valdete retiravam documentos para a liberação do corpo da idosa no Instituto Médico Legal (IML), os outros sete filhos da aposentada buscavam forças para consolar o marido da vítima. Martiniano José Pereira, de 70 anos, sendo os últimos 53 ao lado da mulher, acompanhava Valdete praticamente todos os dias até a fisioterapia, mas a pedido dela, nesta quinta-feira, ficou em casa.
Martiniano precisou ser medicado e, mais calmo, culpava sua ausência no ônibus como resultante do acidente. “Estamos tentando convencê-lo de que não foi culpa dele”, disse uma das filhas, Claudete Pereira.
De acordo com o delegado Waldir Soares, titular da Dict, o motorista pode responder criminalmente pela morte da idosa, com pena de 1 a 4 anos, podendo ser acrescida em 1/3, pelo fato de Emerson Barbosa ser motorista profissional. A empresa responsável pode ainda ser acionada civilmente.
Linha terceirizada
Mesmo não sendo empresa vencedora da licitação do transporte coletivo da Grande Goiânia, a empresa Leste Transporte assumiu trechos da Rápido Araguaia, prestando serviços terceirizados. Ambas pertencem ao Grupo Odilon Santos.
A informação do serviço terceirizado surpreendeu o promotor Érico de Pina Cabral, coordenador do Centro de Apoio Operacional (CAO) do Cidadão, do Ministério Público. “Não sabia que se podia terceirizar uma linha. Vamos investigar isso e ver se essas empresas estão qualificadas”, disse Pina Cabral.
"O negócio não deve ser só lucro"
O promotor é responsável por exigir das empresas concessionárias melhores condições de serviço, sobretudo depois de série de mortes e atropelamentos neste ano, envolvendo ônibus coletivos, até mesmo dentro de terminais. “As empresas, até hoje, só se preocuparam com os seus interesses econômicos, todas elas, sem exceção. O negócio não deve ser só lucro, só economia com gasto, pneu, trajeto. É preciso pensar no usuário urgentemente”, afirma o promotor.
Érico de Pina Cabral conta que depois de reuniões e solicitações feitas pelo MP, um projeto foi apresentado pela RMTC e pela Metrobus, visando a requalificação de mais de 2,5 mil motoristas. Todos deverão passar por cursos de reciclagem de 70 horas/aula. “O projeto apresentado pela RMTC é detalhado e bastante razoável, com data de implementação para início de outubro”, diz o promotor.
Histórico de mortes
17/7
Gabriel Henrique da Costa, 7 anos, foi atropelado ao tentar desembarcar no Terminal Vera Cruz. A roda do veículo passou por cima da bacia do garoto. Encaminhado ainda consciente para o Hugo, ele passou por cirurgia, mas veio a óbito dois dias depois, em 19 de julho, com uma parada cardiorrespiratória.
20/7
A diarista Maria Zumira Gerolineto, 57, tentava entrar em um ônibus no Terminal Garavelo. O coletivo já estava cheio e o motorista fechou a porta. Quando oveículo saiu do lugar, a diarista, caiu e foi atropelada. Ela morreu no dia 20 de julho.
21/9
O ciclista Adelcy Pereira da Silva, 42 anos, morreu após ser atropelado por um ônibus da empresa HP, em Aparecida de Goiânia. Ele seguia pela Avenida Veiga Vale, no Parque Veiga Vale 1, quando foi atingido pelo veículo.
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