Durante muitos anos, Goiás foi tratado pelo mercado nacional como uma potência produtiva, mas não urbana. O estado aparecia associado ao agronegócio, à exportação de commodities e ao crescimento do interior brasileiro, enquanto os grandes ciclos imobiliários permaneciam concentrados entre São Paulo, Rio de Janeiro e parte do Sul do país.
Os números mais recentes mostram que essa divisão começou a desaparecer.
Goiânia movimentou R$ 8,1 bilhões em vendas imobiliárias em 2025, segundo dados da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO). Em 2021, esse volume era de R$ 5,4 bilhões. Em apenas quatro anos, o crescimento acumulado ultrapassou 50%.
Mas o principal dado talvez não seja o tamanho do crescimento, e sim o que ele revela sobre a mudança de posição econômica do estado.
O mercado imobiliário normalmente reage antes de outros setores às transformações estruturais da economia. Ele acompanha renda, crédito, circulação de capital, expansão empresarial, geração de empregos e percepção de estabilidade futura. Quando cresce de forma contínua, costuma sinalizar mudanças mais profundas no ambiente econômico.
É exatamente isso que começa a acontecer em Goiás.
O estado passou a reunir uma combinação rara no Brasil atual: agronegócio altamente capitalizado, expansão logística, crescimento do setor de serviços, fortalecimento industrial e aumento populacional acima da média nacional. Segundo dados do Instituto Mauro Borges (IMB), Goiás mantém desempenho econômico superior ao de grande parte do país nos últimos anos.
O reflexo aparece diretamente no território.
Goiânia vive novo ciclo de verticalização, valorização imobiliária e expansão de eixos urbanos. Aparecida de Goiânia consolidou crescimento industrial e comercial dentro da região metropolitana. Anápolis ampliou relevância logística nacional com porto seco, ferrovia e integração rodoviária estratégica. Ao mesmo tempo, cidades ligadas ao agronegócio passaram a atrair condomínios fechados, centros empresariais e empreendimentos voltados para uma nova classe média do interior.
Existe ainda um componente que ajuda a explicar esse movimento: a mudança demográfica.
Entre 2010 e 2022, Goiás registrou crescimento populacional próximo de 20%, enquanto a média nacional ficou em torno de 7%. Em um país que desacelera demograficamente, crescer quase três vezes acima da média altera consumo, mobilidade urbana, demanda habitacional e dinâmica econômica.
Isso ajuda a explicar por que o setor imobiliário goiano deixou de acompanhar apenas o crescimento do estado e passou a representar uma nova fase da economia regional.
O que antes era interpretado como efeito indireto do agronegócio agora assume características próprias de urbanização acelerada e formação de novos polos consumidores.
Essa talvez seja a principal mudança em curso no Centro-Oeste brasileiro.
Goiás deixou de ocupar posição periférica no mercado imobiliário nacional e começou a disputar protagonismo econômico em um nível antes restrito aos grandes centros tradicionais do país.
Mais do que um ciclo de expansão imobiliária, o estado vive uma redefinição de posição econômica dentro do Brasil.
*Marcos Blanche é CEO da BP Real Estate Pro.
