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Elaine Ribeiro (Foto: divulgação)

Quando a mentira adoece os vínculos

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14.05.2026 - 12:44:46

O ambiente familiar, por sua natureza, costuma estar associado ao acolhimento, à segurança e à verdade. Ele é, ou deveria ser, o espaço onde podemos ser quem somos, sem medo de rejeição, e onde as relações podem estar cercadas de confiança. Mas o que acontece quando a mentira passa a ocupar o lugar central nessas relações? Quando distorcer a realidade deixa de ser algo pontual e se transforma em um comportamento padrão? A resposta traz à tona um tema delicado, ainda pouco discutido fora dos consultórios: a mitomania, também conhecida como mentira patológica.

A mentira nunca é algo aceitável e, por vezes, ocorre de forma ocasional. Na mitomania, o que se dá é um comportamento repetitivo, compulsivo, persistente, muitas vezes, difícil de controlar, pois a pessoa mente com frequência, mesmo quando não há necessidade evidente ou ganho claro.

Nesse falseamento da realidade, as histórias são elaboradas, dramáticas, em alguns casos, até convincentes, ou ainda, se desdobram em pequenas distorções do cotidiano. O ponto central não é o conteúdo da mentira, mas a constância e função emocional que toma na vida da pessoa e o quanto compromete a vida da família.

Um dado importante a ser considerado é que muitos casos de mitomania trazem consigo outros quadros de doenças psiquiátricas e psicológicas, como transtorno de personalidade antissocial, que podem levar o mitomaníaco a um processo de isolamento para não ser descoberto. É uma mentira que tem por finalidade a defesa ou a ideia de maquiar a realidade. A pessoa que assim vive, tem dificuldade para lidar com suas realidades, e se coloca em outras situações.

Mas, o que existe por trás desse comportamento? Questões emocionais profundas que envolvem: a necessidade intensa de ser aceito(a), o medo de rejeição, a baixa autoestima e até dificuldades na construção da própria identidade. A mentira passa a funcionar como uma tentativa, mesmo que disfuncional, de lidar com dores internas, o desamparo, histórias de vida mal construídas, dentre outras realidades.

A mitomania dentro da família traz a quebra de um dos pilares mais importantes de uma relação saudável: a confiança. Com isso, o núcleo familiar pode se sentir confuso, inseguro e até emocionalmente exausto. Haverá sempre a dúvida: “isso é verdade ou não?” E depois de tantas mentiras , com o passar do tempo, essa instabilidade pode gerar afastamento, conflitos frequentes e um clima de tensão “silenciosa”, além do cansaço e desgaste para todos. Há casos em que surgem reações como confrontos, cobranças e aqueles nos quais ocorre o oposto: evita-se o assunto para não gerar mais conflito, sendo que nenhuma dessas respostas, costuma resolver a situação, ao contrário, amplia o problema.

Por outro lado, não dá para aceitar ou ignorar o comportamento, mas buscar entender o que ele está comunicando. Em muitos casos, a mentira não é apenas enganar o outro, mas sustentar uma versão de si mesmo que parece mais aceitável ou menos dolorosa.

O papel da família é desafiador: encontrar um equilíbrio entre acolher e estabelecer limites, entender essa realidade e não reforçar narrativas irreais que, por si só, já machucam tanto.

Buscar ajuda profissional é um passo importante. A psicoterapia pode oferecer um espaço seguro para que a pessoa compreenda as raízes desse comportamento e desenvolva formas mais saudáveis de relacionar-se consigo mesma e com os outros. Em alguns casos, o acompanhamento familiar também pode ser indicado, justamente para reconstruir a comunicação e fortalecer os vínculos.

Relações saudáveis não se constroem apenas com sinceridade, mas também com escuta, empatia e disposição para enfrentar o que é difícil. É preciso reconhecer o que não vai bem e trabalhar possibilidades de mudança, onde a verdade não encontre o medo e, desta forma, faça que o ambiente familiar reflita a segurança de podermos ser quem somos, vivendo, inclusive, nossas imperfeições.

* Elaine Ribeiro é psicóloga clínica e organizacional e colaboradora da Comunidade Canção Nova. Instagram: @elaineribeiro_psicologa

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por Elaine Ribeiro

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