“Meu povo perece por falta de conhecimento.”
— Profeta Oséias 4: 6
Meu primeiro livro — e meu livro primeiro — é a Bíblia. Ela, como A Palavra — O Verbo, já veio agarrada ao meu corpo ainda informe. Lia-a nas locuções de meus avós, cujas vozes transcendiam tempo e espaço; ouvia-a por meus pais e irmãos mais velhos antes mesmo de nascer. Nasci embalado nos hinos e nas canções que eles cantarolavam na comunhão de nosso singelo lar, “absolutamente” pacífico e harmonioso.
A Bíblia, esse livro primeiro, agora vive em mim como um Espírito Vivo. Toma-me além da letra, vem à minha alma na alegria e na dor, na aflição e no contentamento, na paz e na guerra, nos melhores e nos piores momentos. É como uma bússola ou uma senda para tudo o que almejo e tudo o que faço, ainda que, por vezes, desobedeça à Voz que dela brota, altissonante como uma espada a renhir contra o punhal traiçoeiro do mal.
Meu segundo livro foi-me dado de presente quando eu ainda cursava a metade do terceiro ano ginasial, logo após ter sido expulso do Colégio Marista. A expulsão deu-se porque, numa aula de história, nossa professora — uma freira católica — disse: “Os governantes de antigamente roubavam o dinheiro do povo”. E eu ousei contradizê-la: “Não, professora: os governantes de hoje também roubam o dinheiro do povo”. Ocorre que os filhos do prefeito, do governador e de outros donos do poder eram meus colegas de sala… Resultado de tamanha audácia: fui expulso. Graças a Deus.
Tal ocorrência foi traumática para mim e para toda a minha família, à época uma família de classe média baixa no contexto da oligárquica cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão. Veio o pior: nenhum colégio queria matricular um aluno expulso do Marista — colégio das elites. Era o fruto da contradição sociológica de um filho de “camelô” que ousava estudar em um colégio de ricos.
Foi aí que meu irmão mais velho, Jacó, conseguiu, com muito esforço, matricular-me no Colégio Nina Rodrigues, cujo diretor era o poeta, intelectual de escol e professor por excelência Carlos Cunha. Aquele professor-poeta percebeu o meu drama e a angústia de minha humilde família. Não apenas me aceitou em sua escola, mas incentivou-me a ler, a pensar, a discernir o mundo. Entre as tantas coisas que me proporcionou, presenteou-me com vários livros, dos quais o primeiro — a gente nunca esquece — foi o Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, de Jean-Jacques Rousseau. Eu tinha apenas doze anos de idade. Providência do destino.
Ali, tudo mudou. Depois desse livro, tornei-me um leitor árduo: da literatura de cordel aos clássicos do Iluminismo; dos filósofos gregos às sutis histórias em quadrinhos; dos romances de Machado de Assis às poesias de Gonçalves Dias, Luís de Camões e Fernando Pessoa; dos fantasiosos heróis dos livros de bolso aos arautos da arte e da ciência; até os verdadeiros mafiosos e vilões da política. Meu amor pela leitura, a partir de então, foi sempre ascendente, sem jamais perder de vista o Livro dos livros.
Hoje, além de leitor, sou um arguto e resiliente aprendiz de poeta e escritor, com 24 livros e milhares de artigos publicados em jornais e revistas qualificadas ao longo de 40 anos de incursão pública. Sim, agora posso afirmar em tom categórico: em um mundo dramaticamente embrutecido e “emburrecido”, o livro ainda é a mais sublime ponte atemporal — ponte que transforma mentes, molda caráter, expande a realidade, eterniza o conhecimento e traz sabedoria.
O livro é um sonho que desperta o brilho da realidade, em um mundo líquido-digital, à míngua de educação, cultura e interesse por livros, mormente pela Bíblia, inclusive entre os próprios cristãos. Com muita informação, mas rara formação, experimentamos a mais intensa era da erosão dos valores ético-morais, religiosos, da cidadania e da própria democracia plena.
A propósito, nesta data, 1º de maio — Dia do Trabalhador, é, também, celebrado o Dia da Literatura Brasileira. A data homenageia o nascimento do grande escritor José de Alencar (1829–1877), um dos maiores nomes do Romantismo e da literatura.
Contudo, a baixa leitura de livros não é apenas um fenômeno estatístico: é a forma mais perversa de analfabetismo funcional, que condena uma nação à superficialidade, à manipulação cega e à perda da própria capacidade de pensar e decidir sobre a ágora, o agora e o futuro.
EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO: Advogado. Delegado de Polícia de Classe Especial Veterano. Escritor. Pastor Evangélico.