Ludymila Siqueira
São Paulo – O mundo tem passado por transformações sem precedentes tanto em sustentabilidade como em novas tecnologias. Com isso, o mercado de diferentes nichos tem se movimentado para se consolidar no mundo dos negócios, buscando se diferenciar com as novas tendências e exigências, tendo em vista a maior participação dos consumidores e usuários de serviços prestados. Quando se trata de mobilidade urbana, o cenário não muda, mas acende um alerta: quanto maior a emissão de gases de efeito estufa, mais a crise climática se agrava.
Para se ter uma ideia, na Capital de São Paulo, milhões de pessoas trafegam pelas principais vias todos os dias, das mais variadas formas: a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus. A movimentação é constante e não para. Mais de 7 milhões de pessoas utilizam o transporte público para deslocamento ao trabalho diariamente, conforme dados da Secretaria Municipal de Transportes e Mobilidade Urbana de São Paulo (SPTrans). Para atender a alta demanda, são disponibilizados cerca de 13.200 veículos, distribuídos em 1.320 linhas, sendo que 50 delas fazem parte do chamado Noturno.
Com esses dados somados ao retrato de todo o País, os números podem ser ainda mais expressivos e tornam notória a relevância de políticas sustentáveis para o setor de transportes. No entanto, esse cenário desafiador exige pesquisa, estratégia e investimentos elevados.
Foi pensando na crescente necessidade de modelos que fomentam a manutenção dos negócios e também a sustentabilidade, que a Confederação Nacional do Transporte (CNT) desenvolveu o Despoluir (Programa Ambiental do Transporte), com foco na promoção do desenvolvimento sustentável no setor transportador. A iniciativa tem parceria com o Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest/Senat).
Na prática, o programa atua por meio de frentes integradas, que estruturam sua atuação ambiental no setor de transporte. Dentre os pontos, destacam-se a avaliação veicular ambiental, com medições de emissão de poluentes realizadas na própria empresa e certificação do Selo Despoluir; a avaliação da qualidade do diesel, verificando aspectos como densidade e possíveis impurezas que impactam desempenho e emissões; e o serviço de orientação ambiental ao transportador, com visitas técnicas e recomendações para melhoria da gestão ambiental das empresas.
“No campo ambiental, os impactos estão diretamente relacionados à redução de emissão de gás carbônico e ao aumento da eficiência operacional. As avaliações veiculares contribuem para a redução da emissão de poluentes e do consumo de diesel, enquanto a análise da qualidade do combustível permite identificar falhas que podem gerar ineficiência, poluição e prejuízos financeiros”, detalha a diretora executiva da CNT, Fernanda Rezende, em entrevista à reportagem do Jornal A Redação.
Dados do Boletim Unificado da CNT mostram que desde o lançamento em 2007, o programa acumulou resultados expressivos em escala nacional, com impactos na melhoria do desempenho ambiental do setor de transporte. De julho daquele ano a janeiro de 2026, foram realizadas 5.206.435 avaliações ambientais, com 91,7% de aprovação, além de atender mais de 27 mil empresas transportadoras e 28 mil caminhoneiros autônomos. Ao todo, 24 federações implantaram o Despoluir, reforçando a continuidade da iniciativa.
Ainda conforme o boletim, na linha específica de avaliação da qualidade do diesel, foram realizadas 3.402 análises entre novembro de 2016 e janeiro de 2026, em 457 empresas atendidas, com atuação em 10 federações incluindo São Paulo, e 14 unidades de atendimento.
“O Despoluir se consolidou como a principal iniciativa ambiental do setor de transporte no Brasil, combinando prestação de serviços técnicos, geração de conhecimento e disseminação de boas práticas. Além da atuação em campo, o programa também produz conteúdo técnico, participa de fóruns estratégicos e promove capacitação e conscientização dos transportadores”, destaca a diretora executiva da CNT.
Transporte e sustentabilidade caminham juntos
Pensando em um cenário cada vez mais desafiador e sustentável, a Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo (FETPESP) tem buscado incentivar e apoiar empresas do setor a desenvolverem e aderirem boas práticas voltadas à sustentabilidade e a se tornarem protagonistas no tema. Um desses programas é o Despoluir.
Coordenador do programa na FETPESP, Anderson Oliveira destaca que o Despoluir é a principal iniciativa ambiental dentro da Federação de São Paulo. Atualmente, a ação conta com uma equipe técnica composta por cinco membros, que percorrem todo o Estado para atender diferentes empresas de transportes de passageiros.
Para se ter uma ideia, em 2025, foram aferidos 23.623 veículos, ampliando 8,6% da sua produtividade, com mais de 90% de aprovação da frota. “Essa capilaridade assegura que os veículos tanto nos municípios quanto nas rodovias estão em conformidade com a legislação vigente e contribuem para o desenvolvimento urbano e para a qualidade do ar”, ressalta.
Anderson, que também é gerente executivo da FETPESP, avalia que a sustentabilidade é um desafio para toda a sociedade e isso inclui o setor de transportes. Em entrevista à reportagem do jornal A Redação, ele detalha que os impactos positivos à qualidade operacional e também ao desenvolvimento social são significativos.
Ele também destaca um novo programa, lançado em parceria com a Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP) e a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros por Fretamento do Estado de São Paulo (FRESP), que visa compreender desafios do setor para conciliar a adoção de boas práticas sustentáveis com a operação e manutenção do negócio e um olhar atento às possíveis dificuldades regionais e ao tamanho das empresas.
Neste sentido, Anderson revela que uma das ações já conquistadas por meio do Aliança Transporte Sustentável é o benchmarking e a análise de boas práticas adotadas por empresas que já operam de forma sustentável, para que assim possam auxiliar outros grupos que ainda estão em fase de desenvolvimento dessas ações.
“Outro ponto sobre sustentabilidade está em olhar para a governança e também para o impacto social que as empresas promovem no dia a dia e na sociedade. Existe uma série de ações que geram bons resultados locais, mas que não são divulgadas ou conhecidas por boa parte da população. No setor de transportes de passageiros, a maioria das empresas são familiares, dessa forma sua governança se mantém interna e sem a necessidade de exposição ao mercado. Contudo, posso afirmar que muitas delas praticam governança em alto nível, com critério e técnica semelhante a muitas multinacionais”, afirma.
Segundo ele, um dos maiores desafios que cercam o setor está relacionado ao transporte coletivo, que impacta diretamente a vida da população paulistana e também de cidades vizinhas. A ineficiência deste serviço, conforme afirma, favorece a alternativa do transporte individualizado, aumentando o fluxo de veículos nas ruas e contribuindo para mais congestionamentos. “É importante ressaltar que os ônibus poluem muito menos proporcionalmente por número de passageiros transportados do que carros e motos que circulam e aumentam em volume ano após ano”, diz.
“Podemos evidenciar isso em diversos países pelo mundo, cidades que priorizam o transporte público em detrimento ao privado evoluem como sociedade, possuem cidades mais integradas e desenvolvem melhor seus moradores. Em São Paulo, o desenvolvimento do município não ocorrerá e a qualidade de vida das pessoas não será melhor enquanto a mobilidade não for tratada como prioridade junto a outras pautas, como saúde e educação. O transporte público é um direito essencial de todo cidadão e pago por toda a sociedade, deveria ser mais bem distribuído e usado por todos”, arremata.
Quem segue, colhe os frutos
O Grupo Radial e a ATT Transportes são exemplos de empresas empenhadas em preservar o protagonismo na mobilidade urbana de São Paulo integradas ao programa ambiental. Com linhas que atuam na região do Alto Tietê, ambas atendem municípios como Suzano, Poá, Ferraz de Vasconcelos e Mogi das Cruzes. Com apoio da FETPESP, as duas empresas não têm poupado investimentos em políticas internas voltadas à adoção de tecnologias mais limpas em suas operações, com o objetivo de avançar no processo de descarbonização do transporte.
Recentemente, o grupo implantou um projeto piloto que envolve ônibus que passam por retrofit, com a adoção de motores de combustão interna do tipo Ciclo Otto. Embora ainda em fase inicial, a iniciativa já soma resultados positivos, com vantagens no custo operacional que giram em torno de 15% a 20% em relação ao diesel.
O gerente de manutenção do Grupo Radial e ATT Transportes, Ricardo Irapuan, ressaltou que é cada vez mais crescente o interesse por uma mobilidade com menor emissão de poluentes, com foco em investimentos que equilibrem a descarbonização e a viabilidade operacional. Deste modo, são adotadas estratégias complementares, como o uso do biometano, diferenciadas do que parte do setor de transportes aponta como solução.
“Diante dessas vantagens, buscamos entender melhor o biometano e o seu potencial nas nossas operações. Além de contribuir para economia circular, ao transformar resíduos em combustível limpo, ele já nos proporciona uma operação com menor custo, fator essencial para o desenvolvimento do negócio. A tendência é de ganhos ainda maiores com a implantação de uma infraestrutura própria de abastecimento, que já está em nosso planejamento”, conta o executivo à FETPESP.
Atualmente, as empresas Grupo Radial e ATT Transportes contam com uma frota de 500 ônibus em operação na região do Alto Tietê e seguem as diretrizes do programa Despoluir. Deste modo, os resultados refletem de forma positiva na frota, que se mantém com as emissões controladas.
Outra iniciativa adotada é relacionada à infraestrutura das garagens, que conta com soluções voltadas à preservação de recursos naturais. Dentre elas, destacam-se a captação de água de chuva para a lavagem e limpeza dos veículos e o tratamento de efluentes, além da adoção de logística reversa.
