Samuel Straioto
Goiânia – Dados do Tribunal Superior Eleitoral para 2026 registram uma mudança gradual, mas consistente, no perfil do eleitorado goiano: o grupo de eleitores com 60 anos ou mais passou de 869.550 para 1.064.111 pessoas, um crescimento de quase 200 mil eleitores em um único ciclo, que elevou a participação desse segmento de 18,3% para 21% do total. Não é uma transformação abrupta. É uma tendência que se consolida eleição após eleição, e que ainda não encontrou resposta proporcional no comportamento das campanhas.
O fenômeno tem causa demográfica conhecida. A expectativa de vida do brasileiro cresce de forma contínua, as taxas de fecundidade caem e a pirâmide etária do país se inverte progressivamente. Goiás acompanha essa dinâmica nacional: a população envelhece, e o eleitorado envelhece com ela. A novidade de 2026 é que o grupo ultrapassou a marca simbólica de um quinto do eleitorado, um patamar que, em disputas competitivas, não pode ser ignorado sem custo político.
Peso eleitoral, não determinismo
É importante distinguir relevância de determinismo. O eleitorado idoso não decide sozinho nenhuma eleição — nenhum grupo com 21% do total teria essa capacidade de forma isolada. O que muda é o peso relativo desse segmento em cenários de disputa apertada. “Nas eleições goianas de 2022, as margens de segundo turno ficaram na casa de centenas de milhares de votos. Um grupo de mais de um milhão de eleitores, com comportamento relativamente estável, pode inclinar resultados que de outra forma seriam indefinidos”, avalia a advogada eleitoralista Patrícia Mendonça.
Pesquisas eleitorais nacionais apontam de forma consistente que eleitores acima de 60 anos têm taxas de comparecimento às urnas superiores à média e índices de abstenção menores do que os registrados entre jovens de 18 a 25 anos. Esse padrão não é universal — varia por região, renda e contexto de mobilização —, mas é suficientemente estável para que estrategistas considerem esse eleitor mais previsível e, portanto, mais relevante em termos de planejamento de campanha.
Campanhas que ainda não ajustaram o foco
O ciclo eleitoral de 2022 foi marcado pela intensificação das estratégias digitais, com ênfase em conteúdo para redes sociais de apelo jovem. A lógica do alcance favorece esse caminho — mas ela tende a subestimar eleitores que consomem mídia de forma diferente, valorizam o contato direto com candidatos e respondem com mais clareza a temas concretos como saúde pública, mobilidade urbana e previdência.
Esses temas raramente estiveram no centro das campanhas estaduais mais recentes em Goiás. Apareceram como itens de programa de governo, não como eixos de comunicação. “O problema não é o digital em si, mas a suposição de que todo eleitor relevante está no TikTok. Uma campanha que não tem estratégia específica para quem tem 60 anos ou mais está deixando de conversar com 21% do eleitorado”, diz Patrícia Mendonça.
Comportamento político e diferenças geracionais
Eleitores mais velhos e mais jovens não são blocos homogêneos — dentro de cada faixa há diversidade significativa de renda, escolaridade, localização e posicionamento político. Mas alguns padrões comportamentais distinguem os grupos com razoável consistência.
O eleitor entre 18 e 35 anos tende a apresentar maior volatilidade nas preferências e influência mais intensa de redes sociais no processo de decisão. Já o eleitor acima de 60 anos costuma ancorar suas escolhas em trajetória percebida de candidatos, reputação consolidada e na avaliação prática de políticas que afetam diretamente seu cotidiano.
Para a socióloga Carla Drummond, pesquisadora de comportamento eleitoral, isso não significa que o eleitor idoso seja conservador por definição. “A categoria é heterogênea demais para esse tipo de generalização. O que muda são os critérios de avaliação — e uma campanha construída apenas sobre imagem e momentum dificilmente alcança esse público com a mesma eficácia que alcança eleitores mais jovens.”
Crescimento sem representação proporcional
O aumento do eleitorado idoso não se converteu automaticamente em maior representação das pautas do envelhecimento na política goiana. Temas como acesso a serviços de saúde especializados, transporte adaptado, combate à violência contra idosos e políticas de inclusão digital para a terceira idade seguem periféricos na agenda legislativa estadual. Candidatos que estruturam plataformas em torno dessas questões ainda são exceção.
É um padrão recorrente em processos de transição demográfica: o crescimento numérico de um grupo antecede a construção dos mecanismos políticos que converteriam esse peso em representação efetiva. “O eleitor idoso goiano tem mais presença nas urnas do que tinha há quatro anos — mas ainda não tem, proporcionalmente, mais voz nos parlamentos ou nas políticas públicas estaduais”, observa Carla Drummond.
Uma tendência sem prazo de reversão
O que os dados de 2026 mostram não é um pico, mas um ponto numa curva ascendente. As projeções demográficas indicam que o envelhecimento do eleitorado goiano deve continuar nos próximos ciclos. A proporção de eleitores com 60 anos ou mais tende a crescer também em 2030, reforçando a relevância desse grupo no médio prazo.
Para as eleições de outubro de 2026, o desafio imediato das campanhas é reconhecer essa mudança de perfil sem cair em dois erros opostos: ignorar o grupo — como tem sido feito — ou tratá-lo como bloco monolítico com demandas uniformes. O eleitorado idoso goiano é diverso, distribuído entre capital e interior, com diferentes níveis de renda e distintas prioridades. O que o une, mais do que qualquer pauta específica, é a expectativa de ser levado a sério como interlocutor político — algo que, por ora, as campanhas ainda não demonstraram saber fazer.
