Logo
Antônio Xavier (Foto: arquivo pessoal)

Quando o coração volta a arder

WhatsAppFacebookLinkedInX
11.04.2026 - 10:05:45

Poucos textos bíblicos traduzem tão bem a experiência humana quanto o relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Ali se narra a tristeza de dois discípulos, até então desconhecidos, que partem de Jerusalém com seus corações abatidos após a paixão e morte de Jesus. No caminho, Jesus se aproxima deles e explica-lhes a realidade, fazendo seus corações arderem com suas palavras. Por fim, aceita entrar na casa deles para que o reconhecessem ao partir o pão.

Não se pode julgar esses discípulos, porque todos nós, em algum momento da vida, já tivemos de lidar com expectativas não correspondidas que nos levam a pensar se vale a pena seguir adiante, se já não chegou ao fim aquela estrada, especialmente, quando nos sentimos incapazes de enfrentar a realidade. O pensamento de retornar a Emaús é fruto da busca de refúgio, de silêncio, do cansaço ou mesmo do ceticismo, quando o sol das nossas esperanças parece ter se posto definitivamente. A tristeza, a desilusão e a decepção geravam naqueles homens um rosto abatido. Eram pessoas boas, mas transpassadas pelo peso da realidade e por sentimentos que os impediam de enxergar além da dor. Eles não são “incrédulos”, são apenas pessoas cansadas pelas exigências da vida que lhes exigem mais do que podiam dar naquele momento. Mas aqui está um dos detalhes mais bonitos da Páscoa que, às vezes, deixamos passar: Jesus já estava lá também.

Antes de qualquer oração bonita ou reconhecimento teológico, Jesus se aproxima. Ele não espera que os discípulos recuperem a fé para aparecer. Ele entra na conversa enquanto eles ainda estão reclamando, duvidando e sofrendo. É bonito perceber que eles não sabiam, mas Jesus caminhava com eles. Muitas vezes, achamos que Deus só está conosco quando tudo brilha, quando tudo funciona. Mas a verdade das Escrituras é mais concreta: Jesus é o companheiro de estrada que caminha conosco. Ele ouve o nosso desabafo, respeita o nosso passo lento e não nos atropela com respostas prontas. Ele está ali, incógnito, dividindo a poeira do caminho.

No meio daquela conversa desanimada, o “Estrangeiro” começou a falar. Escutava-os, orientava-os e conduzia seus corações. Assim, a viagem ficou mais leve e o caminho que os levaria à desistência, tornou-se um caminho de ressurreição. Ele foi ligando os pontos para demonstrar que aquilo que parecia um fim de linha era, na verdade, parte de um plano muito maior.

O interessante na pedagogia de Jesus é que Ele não interrompe a tristeza deles com um prodígio retumbante. Ele se aproxima como um estrangeiro, isto é, faz-se distante para tornar-se próximo. Jesus respeita o passo lento de quem está ferido. Ele não exige alegria imediata, ao contrário, pede apenas o relato da dor: “O que vocês vêm conversando pelo caminho?” Assim como no relato da criação, em Gênesis 1 ou no belo texto de Ezequiel 37,1-14, suas palavras foram organizando o caos que havia naqueles corações, revitalizando os ossos ressequidos pelos desafios e pelas dores da vida, aquecendo o coração daqueles discípulos e lhes dando novo ânimo. Mostrando que nada havia saído do controle de Deus.

A passagem continua lembrando que Jesus fez menção de ir adiante. Ele é educado e não invade a nossa vida; espera o nosso convite. Quando aqueles homens dizem: “Fica conosco, pois a noite cai”, eles estão abrindo a porta para que a presença, que já era real, se tornasse visível. Aquele que eles julgavam estar morto era o único que estava realmente vivo, sustentando os passos deles durante todo o trajeto.

A grande mensagem da Páscoa para nós é que o Ressuscitado não é alguém que está apenas no final da linha. Ele é quem nos trouxe até aqui. Mesmo quando não percebemos sua presença, Ele sempre esteve nos acontecimentos da nossa vida. Dor, tristeza e coração frio não são barreiras para sua presença. É justamente isto que parece atraí-lo para perto de nós. Ele está sempre soprando as brasas em nossa alma.

A Páscoa não é apenas sobre um túmulo vazio em um lugar distante. É a certeza de que não existe estrada solitária para quem se deixa encontrar por esse “Estrangeiro” que, no fundo, já é o dono da nossa casa. Celebrar a Páscoa é ter a coragem de refazer o caminho. É transformar a desolação em missão. Não somos chamados a viver em Emaús, mas a retornar para a Jerusalém das nossas cidades, das nossas famílias, dos nossos compromissos e dos nossos desafios, às vezes, lugares onde morte e dor ainda nos assustam, anunciando que a Vida venceu. Cristo não nos livra das estradas longas, mas garante que nenhuma delas será percorrida na solidão.

Que nesta Páscoa o nosso coração também volte a arder ao ouvir sua voz e que, olhando para nossa própria história, consigamos perceber que Ele sempre esteve no meio de nós.

*Padre Antônio Xavier é missionário da comunidade Canção Nova.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Antônio Xavier

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]