Há 10 anos, cursando o Mestrado em Morrinhos, eu trabalhava com crianças e adolescentes de uma escola estadual. Falávamos sobre direitos humanos, sobre cidadania e sobre respeito. Fui procurada com uma solicitação que parecia simples: uma roda de conversa para falar sobre a violência contra as mulheres e ainda, uma resposta com indicações sobre materiais pedagógicos que pudessem ser usados com crianças e jovens. E não encontrei absolutamente nada.
Foi daí que nasceu a semente do ‘Maria da Penha nas Escolas’. Um material didático que pudesse ajudar na construção de uma nova geração. Um instrumento pedagógico para capacitar professores, engajar alunos e famílias e transformar as escolas em núcleos de prevenção. Eu não imaginava, naquela época, o tamanho do caminho que estava começando a trilhar.
Hoje, o projeto já percorreu cinco estados brasileiros, 65 municípios, distribuímos mais de 45 mil exemplares gratuitamente. Dialogamos com milhares de estudantes, professores, famílias e profissionais da rede de proteção. Neste mês de março percorreremos em caravana 12 cidades com distribuição de novos 20.250 exemplares para estudantes, educadores e mulheres da agricultura familiar.
Mas o dado mais importante não está nos números. Está nas mensagens que recebemos de meninas que passaram a reconhecer sinais de violência. Está nos relatos de professores que encontraram uma linguagem adequada para tratar desse tema em sala de aula. Está nos municípios que compreenderam que prevenção não é gasto, educação e prevenção é investimento.
Mas eu não posso estar aqui e fingir que está tudo bem. Porque não está. Em 2017, a média era de 3 mulheres mortas por mês em Goiás. No ano passado, 60 mulheres foram vítimas de feminicídio no nosso estado, colocando Goiás na 6ª posição nacional quando se trata desse tipo de crime.
A Lei Maria da Penha é uma das legislações mais importantes do país. Mas, sozinha, não transforma cultura. Quem transforma cultura é a educação. Quem interrompe ciclos é a formação. Quem protege o futuro são as escolas. Porque a violência contra a mulher não começa na delegacia. Ela começa quando um menino aprende, dentro de casa, que pode controlar, humilhar ou bater. Ela começa quando uma menina aprende que o seu lugar é suportar.
Falar sobre a Lei Maria da Penha com as crianças é ensinar para as meninas os sinais de alerta e as formas de buscar ajuda. É informar e educar os meninos para que eles não se tornem os agressores de amanhã.
A prevenção à violência contra a mulher não é uma pauta isolada. É responsabilidade institucional. Estamos falando de educação, de direitos humanos, de assistência social, de saúde, de cultura e de planejamento. Estamos falando de política pública integrada. Prevenir é mais eficaz do que remediar. Prevenir é mais humano do que reparar.
*Manoela Barbosa é professora, pesquisadora, gestora de projetos, doutora em Ciências Ambientais, idealizadora do projeto Maria da Penha nas Escolas
