Aos 94 anos, meu tio Alípio Lopes, boiadeiro nato desde suas vidas passadas – tenho certeza disso! – e domador de cavalo bravo desde que eu me entendo por gente, é uma das pessoas mais necessárias de que tenho notícia nesta vida. Mora e vive onde nasceu até hoje, em Cocos, no Oeste da Bahia, uma cidade simples e de simpatia ímpar. Tão agarrado à rusticidade natural da vida, que morava numa casa com um riacho no fundo. Havia quem não o conhecesse com os pés no chão, apenas montado num cavalo, animal amigo e, acima de tudo, instrumento único de trabalho, além do grande talento para negociações.
“Eu não montava cavalo ruim não. Só montava cavalo arrochado”, me disse com brilho nos olhos quase escondidos pela sombra do chapéu que ainda usa, mesmo que esteja em casa. Foi quando lhe mostrei uma foto feita há algumas décadas, época em que ele, destemido como um guerreiro, domava um animal como se doma um dragão: com inteligência, didática e dom, além de uma pitada generosa de rusticidade.
Aliás, a rusticidade e a dureza da vida moldaram seu caráter de forma excepcional. Lipim, como é conhecido por nove de cada dez pessoas, deu aos oito filhos tudo o que foi necessário para fazer deles pessoas que, assim como ele, aprenderam que respeito e educação cabem em qualquer lugar e em todos os momentos. E para isso tirava o sustento montado no lombo de um cavalo. E foram vários deles ao longo de uma vida movimentada. Os mesmos animais que ele fazia questão de apresentar, com um orgulho generosíssimo, a qualquer forasteiro que chegasse pelas redondezas com o intuito de conhecer uma de suas infinitas, emocionantes, engraçadas e, às vezes, exageradas histórias. Todas elas vividas sobre um cavalo e muita emoção, muita intensidade.
Tanta intensidade que, ainda hoje – com o corpo cansado pelas longas cavalgadas e dureza do tempo e com a mente um tanto mais calma – se lembra das aventuras vividas pelo sertão da Bahia, com um chapéu de cangaceiro surrado de tanto sol e chuva e toda a indumentária usada à época para a labuta. Histórias que lhe trazem mais brilho, mais choro, mais empolgação, mais emoção, mais vida… era como se contá-las o fizesse reviver de verdade tudo novamente. Até o coração acelerava! Era possível ver a veia do pescoço pulsando como uma bomba propulsora de emoções. Quando terminava a história, ficava olhando o tempo, num passado quase recente, em silêncio, como se pudesse ouvir o relinchar dos animais que ele domou e viraram seus eternos amigos.
Lipim gosta de remédios. De todos eles! Gosta de tomar mais do que aqueles necessários para manter a saúde na idade avançada. Sempre pede um comprimido a mais, seja para dores fortes ou para as que nem existem mais. E, enquanto eu passava à frente dele na sala de TV, o escutei pedir um remédio para dor no pé. De pronto ouviu uma negativa instantânea de uma das filhas, que explicou a ele o perigo da automedicação. Antes que um desgaste começasse por conta de uma discussão, resolvi intervir. Ofereci um comprimido que eu usava para todos os tipos de dores. Ele aceitou sorrindo. Aproveitei para fazê-lo beber, com vontade, um copo duplo com água fresca, coisa difícil de acontecer. “Que remédio é esse”, me questionou sorrindo como se não conseguisse conter sua alegria momentânea. “É um remédio para dor no corpo. Em qualquer parte. Mas só se pode tomar um comprimido por dia”, expliquei.
Em dez minutos passou por mim sorrindo de canto de boca e dizendo baixinho que a dor havia sarado. Disse que daria outro se a dor continuasse no dia seguinte. Não pediu mais. E nem adiantaria, já que “Tic tac de menta sem açúcar” não é analgésico, mas um placebo que acalma a vontade. Os remédios de hoje são apenas para as dores do corpo cansado e cravejado pelas cicatrizes do tempo. Já a alma… Ah, essa aí já sublimou e seus remédios são as lembranças.
Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo

amei a istoria desse homem guerreiro, sou criado na roça e sei bem o que é tudo isso.