Logo
Patrícia Neri (Foto: divulgação)

O silêncio das emoções que não são escutadas

WhatsAppFacebookLinkedInX
09.03.2026 - 07:52:33

Vivemos em uma era em que as pessoas são incentivadas a seguir em frente, a se adaptar, a “dar conta”. No entanto, por trás de rotinas aparentemente funcionais, muitas carregam emoções que atuam de forma silenciosa e persistente: medos sem explicação clara, tristeza que não passa, reações intensas, bloqueios internos e uma sensação contínua de peso emocional. Mesmo quando a vida externa parece estável, esse sofrimento interno continua operando, afetando decisões, relações, autoestima e até a capacidade de prosperar.

Na minha experiência como terapeuta, observo que grande parte desse sofrimento não está ligada apenas ao presente, mas a memórias emocionais não resolvidas. Eventos vividos com dor, ameaça, abandono ou impotência tendem a ficar registrados no sistema emocional de forma desorganizada. Ainda que a situação tenha ficado no passado, o corpo e a mente continuam reagindo como se o risco ainda existisse. É assim que padrões de ansiedade, insegurança, retraimento e autossabotagem se repetem, mesmo quando a pessoa racionalmente entende que já não está em perigo.

É nesse contexto que a Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG) se apresenta como uma abordagem relevante. Diferentemente de práticas espirituais, religiosas ou místicas, a TRG é uma metodologia terapêutica estruturada, desenvolvida a partir de 2010 pelo psicólogo brasileiro Jair Soares, baseada em protocolos de reprocessamento emocional. Seu foco está na forma como o cérebro, o corpo e a memória organizam experiências. Durante as sessões, a pessoa permanece consciente, em diálogo com o terapeuta e no controle do que está sendo trabalhado. Em muitos casos, nem mesmo é necessário verbalizar ou detalhar as dores para que o processo ocorra, o que preserva a privacidade e o conforto emocional.

A proposta central da TRG é permitir que essas memórias emocionais sejam acessadas e reorganizadas de maneira mais adaptativa. Quando isso acontece, o sistema nervoso deixa de reagir ao passado como se ele ainda estivesse acontecendo. O resultado não é apenas alívio de sintomas, mas uma mudança na forma como a pessoa sente, pensa e se relaciona consigo mesma e com o mundo.

Esse processo, no entanto, não é automático. A TRG exige algo essencial: disposição e coragem emocional. Não se trata de evitar sentimentos difíceis, mas de ter abertura para entrar em contato com eles de forma segura e assistida. Muitas dores permanecem ativas justamente porque foram evitadas por anos. Quando alguém se permite olhar para essas camadas com consciência, cria-se a possibilidade real de transformação.

A metodologia trabalha diferentes dimensões da experiência humana por meio de módulos estruturados. O cronológico permite o reprocessamento de eventos ao longo da vida; o somático atua sobre tensões corporais ligadas às emoções; o temático aborda padrões recorrentes como rejeição, abandono ou culpa; o módulo do futuro trabalha medos e antecipações; e a potencialização fortalece recursos internos e a percepção de possibilidades. Essa integração favorece uma reorganização emocional profunda e duradoura.

É importante reconhecer que a TRG é uma abordagem emergente. Embora conte com protocolos organizados, prática crescente e estudos em desenvolvimento, ela ainda não faz parte do grupo de terapias amplamente consolidadas pela psicologia tradicional. Por isso, seu uso deve ser ético, responsável e integrado a um cuidado profissional adequado.

Ainda assim, seu avanço reflete algo que precisa ser ouvido: muitas pessoas não buscam apenas aliviar sintomas, mas compreender e transformar a raiz do que as faz sofrer. Quando a terapia oferece um caminho para reestruturar experiências e fortalecer recursos internos, ela deixa de ser apenas um espaço de alívio e passa a ser um território de reconstrução emocional. E, em tempos de tanta dor silenciosa, a TRG é o caminho acessível para resolver registros profundos.

*Patrícia Neri é terapeuta de Reprocessamento Generativo.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Patrícia Neri

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]