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Pela luz dos olhos teus

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18.08.2011 - 18:01:10

As mãos ágeis e delicadas deslizam por pedaços ásperos de plantas secas. Tateiam toda a superfície, sentindo cada detalhe. “São flores, não são? Foram feitas de galhos de árvores, sementes e cabaças”, adivinha Geralda. “Errei apenas o tom. Pensei que fossem vermelhas, pois é a cor das rosas e da alegria”, justifica. É assim, com os olhos da alma e do coração, que ela enxerga há 25 anos.

Geralda Lacerda perdeu totalmente a visão aos 29 anos de idade, em função de uma retinose pigmentar. Trata-se de uma alteração hereditária rara, na qual a retina degenera-se de forma lenta e progressiva, conduzindo, finalmente, à cegueira. No início, a pessoa tem dificuldade para enxergar apenas à noite. Com o tempo, a visão durante o dia também vai cessando.

Além de Geralda, outros dois irmãos nasceram com retinose. Vinda de uma família muito pobre, ela vivia no município de Mundo Novo, mas foi obrigada a mudar-se para Goiânia, para garantir sua sobrevivência. “Eu tinha 22 anos e precisava urgentemente trabalhar. O problema é que ninguém
queria me dar emprego na cidade onde eu morava. O preconceito era enorme”, lembra.

Em Goiânia, Geralda foi estudar na instituição Artesanal dos Cegos e descobriu um mundo novo, ao aprender a ler por meio do sistema braille. “Minha vontade de ser produtiva e independente era tão grande, que em uma semana dominei a técnica”, conta. Depois do curso, Geralda começou a trabalhar no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás.

“Eu revelava as chapas de raio-x. Como era muito pobre, trabalhava de segunda à segunda. Sempre que alguém queria folgar, eu pedia para fazer plantão no lugar”, explica.  Entretanto, a vida que parceria estar entrando no eixo, de repente, virou de cabeça para baixo. Aos 37 anos, Geralda
engravidou e foi mãe solteira, pois o pai da criança não quis se casar com ela.

“Várias pessoas me aconselharam a abortar. Diziam que era maluquice eu criar um filho sozinha. Mas sempre fui muito religiosa e jamais teria coragem de tirar a vida de alguém”, justifica. O grande medo dos amigos e conhecidos era que Geralda desse a luz a uma criança que também tivesse deficiência visual e sofresse em dose dupla.

Foi então que um amigo confortou a mãe ansiosa e deu a ela o ânimo necessário para prosseguir com a gravidez. “Ele é espírita e me disse que Deus, em sua imensa bondade e misericórdia, jamais deixaria que eu gerasse uma criança com problemas. Pediu-me que cultivasse a fé, pois eu teria um bebê saudável, que iria me ajudar muito no futuro”, recorda.

A profecia do amigo se cumpriu. A filha, linda e saudável, hoje tem 18 anos, estuda e auxilia a mãe em tudo o que pode. Durante a infância da garota, Geralda enfrentou os maiores desafios de sua vida. “Eu não tinha experiência com crianças. Na minha situação, aprender a cuidar de um bebê não
era nada fácil. Mas eu quis tanto, que consegui”, diz.

Em meio a atropelamentos, tombos e muito preconceito, ela foi vencendo cada obstáculo. Tinha tanta garra e defendia suas ideias de forma tão apaixonada, que acabou tornando-se militante do Partido dos Trabalhadores (PT) e, mais tarde, presidente, por duas gestões, da Associação dos Deficientes Visuais do Estado de Goiás (Adveg).

Apenas uma coisa a garra de Geralda não conquistava: um companheiro atencioso e leal. Os namoros começavam, porém não vingavam. “Lembro-me de um rapaz de quem gostei muito, mas que pediu para namorarmos escondidos de sua família, pois ela jamais me aceitaria. Foi uma das
coisas mais tristes que já ouvi”, revela.

Geralda, que por influência do amigo que a ajudou na gravidez acabou converteu-se ao espiritismo, decidiu apelar novamente para a fé para conseguir um amor. “Em minhas orações, eu pedia com todo o meu coração que Deus não me deixasse morrer sozinha, que me mandasse um companheiro”, afirma. Com as preces, também aprendeu a manter a serenidade e a saber esperar.

Há um ano, o pedido de Geralda foi atendido. No dia 25 de agosto de 2010, Antônio chegou à sede da Adveg. Solitário e amargurado, precisava de ajuda para reaprender a viver, pois perdera totalmente a visão aos 50 anos de idade. A esposa não soube lidar com o problema e pediu o divórcio. Ele parou de trabalhar e começou a beber para afugentar as dores da alma.

Mas eis que a luz dos olhos de Geralda encontraram a luz dos olhos de Antônio. Com sua voz mansa, seu jeito determinado e alegre, ela encantou o homem sofrido e cético. Após a primeira conversa dos dois, ele não conseguiu mais tirá-la do pensamento e quis conhecer melhor aquela que, com carinho
e confiança, iluminaria seu caminho e o ajudaria a atravessar as trevas.

Com o apoio de Geralda, Antônio parou com a bebida excessiva, recuperou o ânimo e reencontrou a alegria de viver. Retribuiu com muito amor. Juntos, eles fazem tudo o que pessoas que não são deficientes visuais fazem, talvez à exceção de um detalhe. “A gente aprende a ver as pessoas pela essência, pela energia. Fica mais atenta para o que de fato importa”, diz Geralda.

Ela confessa que nunca imaginou viver uma relação assim. “Não é aquela paixão desesperada, egoísta. É um amor calmo, tranquilo, feito de muito cuidado, companheirismo e cumplicidade”, define a namorada, que em breve vai se tornar esposa. “Vamos nos casar. Ele está construindo uma casinha em Itauçu para nós”, conta, empolgada.

Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro O pequeno príncipe, disse na obra que “somente com o coração é que se pode ver com clareza”. É com os olhos entre o peito, e não com aqueles da face, que Geralda enxerga a beleza da vida. Emocionada, a repórter agradece a entrevista e esconde uma lágrima que começava a cair. Exupéry estava mesmo certo: o essencial é invisível aos olhos.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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