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Obra de arte tem que ter verdade ou ser absurda

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27.07.2011 - 11:11:32

Eu gosto de muita coisa esquisita. Mas muita mesmo. Vira e mexe, me questionam a motivação que me leva a gostar de determinados artistas. É mais ou menos assim: “Ah, é mentira que você gosta de fulano, né?”. Ou então: “Mas você é tão inteligente para ouvir ciclano”. Pois é, gente… Eu sempre soube que criar expectativas sobre minha pessoa é certeza de frustração. Sim, eu gosto dessas coisas aí sim.

 

O último artista que me envolveu em polêmica foi o Daminhão Experiença (que também assina Damião Experiência, é tudo a mesma pessoa). Já conhecia o trampo desse mendigo por opção que vive nas ruas de Ipanema há algum tempo, mas me empolguei novamente com seu caos estético e ando ouvindo muito seu som ultimamente. Minha mulher não aguenta mais escutar a gritaria do cara. Meus amigos não suportam mais eu falar do cara. Meus seguidores do Twitter não têm mais saco para os vídeos que posto do cara. Acho que só eu estou pirando no cara.

 

Aí vem aquele questionamento clássico lá do começo do texto. E eu tenho que responder, né? Para isso, precisei refletir bastante sobre como nasce meu interesse por uma obra de arte. Explicar por que gosto de determinada obra é esquisito, pois se trata de questões subjetivas profundas, que envolvem desde criação pela qual fui submetido, processos educacionais e preferências particulares. Consegui chegar a duas qualidades que me seduzem em uma obra de arte: a verdade e o absurdo.

 

Para eu gostar do trabalho de um artista, preciso sentir verdade no que ele faz. E não consigo explicar muito o que é essa verdade. Eu preciso sentir. Sinto verdade demais no som do Ratos de Porão, João Mineiro e Marciano, Racionais, Chimbinha e Daminhão. Por isso sou fã deles todos. Eu percebo que é algo que sai do coração do artista, de forma singela, trivial, doída, rancorosa… Não interessa. O que me importa é que é sincero. E isso me convence.

 

Outro critério estético que me seduz é o absurdo. Quanto mais surreal aquilo que está acontecendo, mais eu gosto. Nessa categoria entram Rogério Skylab, UDR, Mr. Catra e novamente o Daminhão. Para se enquadrar aqui, não pode ter superego na hora do produzir artístico. Qualquer amarra, moralismo, padrão ou bom senso tem que ser subvertido. Isso é que dá o molho nesses artistas e é daí que vem minha motivação para entrar em contato com sua criação. Se não der um nó na minha cabeça, não foi bom o suficiente. Se eu não ficar constrangido em ouvir uma música do cara ao lado de um desconhecido, o fim não foi atingido. Tem que agredir.

 

Naturalmente, existem artistas que admiro e que não têm as duas características acima. Mas são exceções. Como regra, sem verdade ou sem agressão, não passa pelo meu crivo interior. E meu mundo seria bem mais enfadonho se eu não percebesse a verdade e a agressão na arte de tanta gente.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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