Samuel Straioto
Goiânia – Elias acordava às 4h da manhã dentro de um barraco sem banheiro, dividido com outros 15 trabalhadores. A primeira refeição do dia era pão com margarina e café ralo. Às 5h, já estava no canavial, no sul de Goiás, enfrentando jornadas exaustivas sob o sol forte, até o corpo não aguentar mais. O almoço chegava frio, muitas vezes azedo. Água potável era rara. O banheiro mais próximo ficava a quilômetros de distância. Quando a noite chegava, Elias contava nos dedos o dinheiro que quase nunca vinha.
“Eles prometiam um salário bom, casa boa, comida boa. Mas quando a gente chegava, era tudo mentira. A gente trabalhava feito escravo mesmo”, conta o maranhense de 34 anos, resgatado em outubro de 2025 de uma usina na região de Itumbiara. Ele é um dos 242 trabalhadores libertados de condições análogas à escravidão em Goiás no ano passado, segundo dados da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE).
O número representa aumento em relação a 2024, quando foram resgatadas 155 pessoas, mas ainda fica abaixo dos 753 registros de 2023, ano marcado por grandes operações no setor sucroenergético. Os dados revelam que o problema persiste no estado, concentrado principalmente em dois setores: plantio e colheita de cana-de-açúcar e construção civil.
A promessa que vira pesadelo
Elias saiu de uma cidadezinha do interior do Maranhão em busca de trabalho. A família passava necessidade. Um conhecido apareceu falando de uma vaga em Goiás, com salário de R$ 2 mil por mês, casa e comida. Ele nem pensou duas vezes. Juntou a roupa, se despediu da mulher e dos dois filhos pequenos e embarcou em um ônibus lotado rumo ao Centro-Oeste.
Chegou à fazenda depois de três dias de viagem. Foi quando percebeu que tinha caído em uma armadilha. O alojamento era um galpão improvisado, sem estrutura básica. Os colchões, velhos e rasgados, ficavam no chão. Não havia refeitório. A comida era servida em marmitas sujas.
“A gente ficava ali igual gado. Dormindo em cima de papelão, comendo o que davam. E o pior: não podia sair. Diziam que a gente devia pelo transporte, pela comida, pela moradia. A cada dia, a dívida aumentava”, relata.
Elias trabalhou quatro meses sem receber um centavo. Sempre que cobrava o pagamento, o gato — intermediário que aliciava trabalhadores — dizia que o dinheiro estava retido para pagar as despesas. A cada semana, inventavam novas dívidas. Ferramentas, botas, luvas. Tudo era descontado de um salário que nunca chegava.
A libertação veio quando uma denúncia anônima chegou à fiscalização do Ministério do Trabalho. Auditores-fiscais apareceram na fazenda sem avisar. Encontraram 38 trabalhadores em situação degradante. Elias e os demais receberam verbas rescisórias, seguro-desemprego e passagens de volta para casa. “Foi um alívio. Mas a tristeza de ter perdido meses de vida naquele lugar não passa”, diz.

Construção civil e a exploração invisível
A história de Marcos, 41 anos, é diferente, mas revela o mesmo padrão de exploração. Natural de Tocantins, ele foi contratado para trabalhar em uma obra na região metropolitana de Goiânia. A promessa era de carteira assinada, salário em dia e condições dignas de trabalho.
Quando chegou ao canteiro, descobriu que dormiria ali mesmo, em um cômodo improvisado sem ventilação, sem água encanada e sem banheiro adequado. Ele e outros seis pedreiros dividiam o espaço apertado, que mais parecia um depósito.
“A gente acordava e já estava no trabalho. Não tinha folga, não tinha descanso. Trabalhava de domingo a domingo, das 7h às 19h. Se reclamasse, o mestre de obras ameaçava mandar embora sem pagar nada”, conta Marcos.
A alimentação era precária. Comida requentada várias vezes, sem variedade, sempre insuficiente. Marcos perdeu oito quilos em dois meses. A promessa de carteira assinada nunca se concretizou. O salário, quando vinha, era uma fração do combinado.
O resgate aconteceu após um vizinho denunciar as condições da obra. A fiscalização encontrou trabalhadores alojados em situação degradante, sem equipamentos de proteção adequados e sem registro em carteira. Marcos recebeu indenização e voltou para Tocantins. “Eu só queria trabalhar honestamente. Mas fui tratado como se não fosse gente”, afirma.
Os números que revelam a exploração
Roberto Mendes é auditor-fiscal do Trabalho e coordena a fiscalização de combate ao trabalho escravo em Goiás. Ele explica que o setor sucroenergético lidera os casos pela quantidade de trabalhadores envolvidos.
“O setor sucroenergético emprega muitos trabalhadores. Por isso, quando há uma situação de trabalho análogo ao de escravo, o número de resgatados tende a ser elevado. Já na construção civil, os casos costumam ser menores em quantidade, mas igualmente graves”, detalha o auditor.
Segundo o Ministério do Trabalho, 70% a 80% dos casos são resolvidos administrativamente. Os empregadores reconhecem a irregularidade, pagam salários atrasados, verbas rescisórias, indenizações e custeiam o retorno dos trabalhadores às suas cidades. Quando não há acordo, o processo segue para a Justiça do Trabalho.
Em 2025, o Tribunal Regional do Trabalho de Goiás registrou o ingresso de 200 processos com o assunto “Trabalho em Condições Análogas à de Escravo”. O número é maior que nos dois anos anteriores: 61 ações em 2024 e 179 em 2023.
De acordo com o Monitor do Trabalho Decente do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), 77,9% das vítimas de trabalho análogo à escravidão em Goiás são homens, 21,93% são mulheres e 0,17% aparecem sem identificação de gênero. A maioria dos autores das ações tem entre 30 e 39 anos, com idade média de 39 anos no ajuizamento da ação.

O que caracteriza o trabalho escravo
O artigo 149 do Código Penal Brasileiro define o trabalho análogo à escravidão pela submissão de alguém a trabalhos forçados ou a jornadas exaustivas, sujeitando trabalhadores a condições degradantes de trabalho ou à restrição de locomoção por qualquer meio.
O perfil das vítimas
Elias e Marcos compartilham características comuns à maioria das vítimas de trabalho análogo à escravidão em Goiás. Ambos vieram de estados vizinhos mais pobres, em busca de oportunidades. Tinham baixa escolaridade e família para sustentar. A vulnerabilidade social os tornou alvos fáceis para aliciadores.
“O padrão se repete. São trabalhadores do Maranhão, Piauí, Tocantins, que migram em busca de trabalho. Os aliciadores aproveitam a necessidade e fazem promessas falsas. Quando a pessoa percebe, já está presa em uma situação de exploração”, explica Roberto Mendes.
Os alojamentos precários são um indicador constante. Barraco sem banheiro, água potável insuficiente, comida inadequada, colchões no chão, ausência de ventilação. As fiscalizações registram essas condições em fotografias que chocam pela precariedade.
Denúncias em alta
Goiás registrou, em 2025, o maior número de denúncias de trabalho análogo à escravidão desde o início da série histórica. Foram 219 denúncias ao Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Em comparação com 2024, quando foram registradas 165 denúncias, o aumento foi de 32%.
O crescimento também aparece nos dados nacionais do Ministério do Trabalho, que recebeu 4.515 denúncias em 2025, crescimento de 14,04% em relação ao ano anterior.
Roberto Mendes avalia que o aumento de denúncias é positivo. “Significa que as pessoas estão mais conscientes e menos tolerantes com a exploração. Cada denúncia pode salvar vidas. Por isso, é fundamental que a sociedade continue vigilante”, afirma.

Como denunciar
Existem diversos canais para denunciar trabalho análogo à escravidão. O sistema Ipê, criado pela Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho, centraliza denúncias de forma anônima. O Disque 100 recebe, analisa e encaminha denúncias relacionadas ao trabalho escravo.
O Ministério Público do Trabalho recebe denúncias nas Procuradorias Regionais, pelo aplicativo MPT Pardal e pelo site. As Superintendências Regionais do Trabalho também recebem denúncias. A Polícia Militar pode ser acionada pelo 190.
Ao apresentar uma denúncia, é fundamental fornecer o maior número possível de informações: nome do empreendimento, localização da propriedade, quantidade de trabalhadores, atividades exercidas e condições em que se encontram. Quanto mais detalhes, mais rápida e eficaz será a fiscalização.
Recomeço difícil
Elias voltou para o Maranhão com o dinheiro das verbas rescisórias. Conseguiu pagar algumas dívidas que a família havia acumulado durante sua ausência. Mas a experiência deixou marcas profundas. “Eu tenho vergonha de contar para as pessoas o que passei. Parece que a gente foi bobo, que caiu num golpe. Mas era só desespero mesmo. Desespero de quem não tem nada e acredita em qualquer promessa”, desabafa.
Marcos também retornou para casa, mas ainda busca trabalho. A experiência o deixou desconfiado. “Agora eu desconfio de tudo. Quando alguém oferece emprego, eu quero ver tudo certinho primeiro. Contrato, carteira assinada, endereço da empresa. Não vou cair de novo nessa”, diz.
Ambos representam milhares de brasileiros que, todos os anos, caem nas redes de exploração de mão de obra. São homens e mulheres que buscam apenas uma oportunidade digna de trabalho e acabam encontrando situações degradantes que violam direitos humanos fundamentais.
O Dia Nacional de Combate ao Trabalho Análogo à Escravidão, instituído pela Lei 12.064/2009 e celebrado em 28 de janeiro, existe para lembrar que essa prática, embora pareça coisa do passado, persiste no Brasil contemporâneo. E que o enfrentamento exige vigilância constante, denúncias, fiscalização e, principalmente, consciência coletiva de que trabalho digno é direito de todos.
*Os nomes dos trabalhadores foram alterados para proteger suas identidades.