José Abrão
Goiânia – O Roblox é um jogo, mas não é só um jogo: é uma plataforma on-line de jogos e criação de jogos, onde milhões de usuários podem criar, compartilhar e jogar experiências interativas feitas por outras pessoas. Na prática, ele acaba funcionando como uma mistura de videogame com rede social e metaverso. A proposta, inerentemente lúdica, criativa e imersiva, atrai cerca de 144 milhões de usuários ativos diariamente em todo o mundo, dos quais 50 milhões têm menos de 13 anos e 57 milhões têm entre 13 e 17 anos, segundo levantamento da própria empresa.
O jogo é multiplataforma e está disponível inclusive para celulares e tablets, o que o popularizou ainda mais e o incluiu com facilidade no cotidiano de milhares de crianças no Brasil. Porém, a falta de controle nesse ambiente digital tem gerado problemas: a presença de conteúdo impróprio e de aliciadores e predadores sexuais na plataforma acendeu o alerta das autoridades e tem preocupado pais quanto à segurança cibernética dos filhos e quanto ao tipo de conteúdo que essas crianças estão acessando.
Uma reportagem especial veiculada pelo Fantástico no último domingo (8/2) inflamou esses medos ao mostrar casos arrepiantes de chantagem e abuso que começaram na plataforma, a falta de fiscalização sobre conteúdos sexualizados e violentos e a dificuldade em barrá-los, assim como a facilidade com que um adulto ou criminoso pode se infiltrar nos milhares de mundos virtuais e no meio de seus milhões de jogadores.
O que fazer
A delegada Marcella Orçai, da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (Dercc) da Polícia Civil de Goiás, relata que a especializada tem registrado casos em que o primeiro contato entre o abusador e a vítima ocorreu em plataformas de jogos digitais, como o Roblox, mas não só nele. “Essas plataformas são ambientes onde crianças e adolescentes interagem com desconhecidos, o que pode ser explorado por criminosos para estabelecer uma relação de confiança. Após essa aproximação inicial, é comum que os abusadores migrem a comunicação para aplicativos de mensagens privadas, como WhatsApp, Telegram ou Discord. Portanto, embora o abuso não ocorra necessariamente dentro da plataforma de jogos, ela serve como porta de entrada para esses criminosos”, explica.
Vale ressaltar que a própria plataforma possui ferramentas de controle parental, como a restrição do chat, que os pais podem utilizar para limitar a exposição dos filhos a certas situações de risco. Segundo a delegada, a prevenção é a melhor forma de proteção: os pais devem supervisionar o uso da internet e acompanhar de perto as atividades on-line dos filhos, conhecendo os jogos e aplicativos que utilizam, estabelecendo regras claras de horários e limites para o uso de dispositivos eletrônicos.

“Os pais devem utilizar controles parentais, configurando ferramentas que restrinjam o acesso a conteúdos inadequados e monitorem as atividades on-line. Além disso, devem promover o diálogo e conversar regularmente sobre os riscos da internet, ensinando a importância de não compartilhar informações pessoais e de não interagir com desconhecidos”, orienta a delegada.
É importante que as crianças e adolescentes também sejam orientados sobre os perigos, como se estivessem brincando na rua: “é essencial manter a privacidade, evitar divulgar dados pessoais, como endereço, escola ou telefone; desconfiar de estranhos, não aceitando convites ou presentes de pessoas desconhecidas na internet; reportar situações suspeitas, informando imediatamente aos pais ou responsáveis sobre qualquer interação estranha”, explica a delegada.
A psicóloga Letícia Tavares afirma que há riscos inerentes ao ambiente digital e, por isso, os pais devem sempre acompanhar os filhos e manter um canal de conversação aberto. Para ela, uma das melhores formas de proteger as crianças é que os pais se inteirem sobre esses jogos e, de preferência, joguem juntos, para estarem sempre cientes sobre o que ocorre nessas plataformas. “Os pais, a partir de uma supervisão ativa, precisam saber de fato o que acontece no jogo. [Mesmo se não jogarem], eles podem procurar no Google, no YouTube, informações sobre como é o jogo, como ele funciona, quais ferramentas de controle parental estão disponíveis. Isso precisa ser feito de forma ativa, porque a criança não tem maturidade para compreender os riscos”, orienta.
A personal trainer Carla Abrão tem dois filhos que jogam Roblox e outros jogos há muito tempo. Hoje, os dois têm 11 e 8 anos. Ela relata que toma todas essas medidas. “Eles não conseguem conversar com quem a gente não permite, não aceitam se a gente não permitir, não podem adicionar ninguém se a gente não autorizar. Antes, eles jogavam no nosso celular; agora, eles usam o tablet deles, que também, para acessar, precisa pedir autorização para mim. Tentamos fazer esse controle o máximo possível”, conta.

Além disso, mesmo que Carla não seja sendo muito ligada a jogos, seu marido, Cláudio, é, e, sempre que possível, joga junto com os filhos, conforme a orientação da psicóloga. “Às vezes eu acho que não é o suficiente, mas a gente tenta o máximo possível”, completa. Da mesma forma, ela entende que tentar proibir, por exemplo, seria uma reação exagerada e contraproducente. “Não é pra tanto, mas a gente fica assustado: criança é criança, eles tentam o tempo inteiro testar os limites, mas buscamos estar sempre atentos”, explica.
Além disso, ela destaca a importância de manter o diálogo aberto: “falo pra eles, de acordo com a idade deles, que tem gente on-line que é má, que não quer o bem deles e que se finge de criança para enganá-los ou convencê-los a fazer algo que não devem fazer”, pontua. “Deixamos claro que estamos abertos o tempo todo a escutá-los e a tirar as dúvidas deles. Por exemplo, ‘papai, conversei com esse Fulano de Tal’, quem é ele? Felizmente, nada nunca aconteceu. Tentamos estar sempre de olho”, completa.
O impacto psicológico
E as crianças não buscam os videogames à toa: jogos como o Roblox são plataformas poderosas de entretenimento, criatividade e sociabilidade, com um repertório muito rico em recursos. Mas, assim como tudo o que é consumido em excesso, também pode fazer mal. “A criança vai ter a liberdade de criar o próprio mundo, criar o próprio personagem como quiser. Mas, também por ser um ambiente virtual, não dá para saber quem está por trás dos outros personagens. Há uma linha tênue entre a diversão e o perigo”, destaca a psicóloga Letícia Tavares.

A psicóloga explica por que os jogos são tão atraentes para esse público e por que os pais devem estar próximos e conscientes dessa exposição. “Os videogames têm um impacto cognitivo e emocional nas crianças. Estamos falando de neurotransmissores como a dopamina, ligada ao prazer, então é natural que os humanos busquem ferramentas que sejam prazerosas. O Roblox possui várias ferramentas, com milhares de atividades, além de incentivar a interação social. Isso facilita que as crianças tenham acesso a recursos dopaminérgicos, isto é, acesso a um prazer instantâneo”, resume.
Por isso, o Roblox e outros jogos digitais podem funcionar como uma “bomba” de dopamina, pois não há tempo de espera para a recompensa. Além disso, quando esse acesso à dopamina é restrito, o cortisol, o hormônio do estresse, sobe. “Há pesquisas sobre o Roblox que mostram que crianças que têm um acesso muito intenso ao jogo ficam mais agressivas e impacientes quando ficam longe, com baixa tolerância à frustração”, pontua a psicóloga.
Como reagir em caso de crime
A delegada Marcella Orçai orienta que é fundamental que os pais mantenham um diálogo aberto e acolhedor com seus filhos, incentivando-os a relatar qualquer situação desconfortável ou suspeita. Caso a criança relate uma situação criminosa, os pais devem:
Manter a calma: evitar reações punitivas que possam inibir futuras confidências;
Preservar evidências: guardar capturas de tela, mensagens e quaisquer informações relevantes;
Buscar apoio especializado: procurar a delegacia especializada em crimes contra crianças e adolescentes para registrar a ocorrência e receber orientações adequadas.
“Além disso, é importante que os pais estejam atentos a mudanças de comportamento nos filhos, como isolamento, alterações de humor ou queda no desempenho escolar, que podem indicar que algo está errado”, finaliza Orçai.
