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Imóvel fica no Jardim América, em Goiânia (Foto: divulgação)

Casa onde viveu Bernardo Élis passa por amplo restauro em Goiânia

Obra é executada pela Elysium Sociedade Cultural

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12.02.2026 - 08:02:19

Adriana Marinelli

Goiânia – Um importante capítulo da história literária de Goiás e do Brasil ganha novo fôlego com o restauro da casa onde o escritor Bernardo Élis viveu seus últimos anos, no Jardim América, em Goiânia, mais precisamente na Rua C-237. O imóvel, que atualmente abriga a sede do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (ICEBE), passa por um amplo e criterioso trabalho de recuperação.

Nascido em Corumbá de Goiás, em 1915, Bernardo Élis Fleury de Campos Curado foi advogado, professor, poeta, contista e romancista. Até hoje, permanece como único goiano a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. A residência, construída em 1974 para ele e sua esposa, a escritora e artista plástica Maria Carmelita Fleury Curado, foi o lar do casal até 1997, ano do falecimento do autor, e seguiu como moradia de Maria Carmelita até 2020, quando ela também faleceu. No mesmo ano, foi fundado o ICEBE.

Quase três décadas após a morte de Bernardo Élis, o imóvel entra agora em uma etapa decisiva de intervenção, voltada à preservação da memória e do legado do autor goiano.

Restauro
A obra é executada pela Elysium Sociedade Cultural, instituição reconhecida pela sólida experiência no restauro de edificações históricas, com projetos realizados em todo o Brasil há mais de 35 anos. Em Goiânia, o trabalho é viabilizado por recursos da Lei Goyazes 2025, mecanismo de incentivo à cultura que tem possibilitado a recuperação de patrimônios culturais no Estado. As ações, financiadas pela Equatorial Goiás, tiveram início em dezembro de 2025 e têm conclusão prevista para maio de 2026.

Uma das três maiores produtoras culturais do País, a Elysium está sediada em Goiânia, com ações majoritariamente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Com essa ação, a instituição volta a atuar em Goiás, depois de anos de ausência: “É uma alegria podermos atuar valorizando o patrimônio cultural em Goiás, nossa casa. Havia sete anos que não desenvolvíamos nenhuma ação no Estado”, destaca o diretor-técnico Wolney Unes.

Segundo Nilson Gomes Jaime, sócio-fundador e presidente do ICEBE, que acompanha de perto a execução, a situação do imóvel demandava medidas urgentes. “A Casa-Museu Bernardo Élis encontrava-se em péssimo estado de conservação, com risco de desabamento do telhado, pintura antiga, madeiramento tomado por cupins”, cita. De acordo com ele, a intervenção contempla a restauração integral das partes superior e inferior da residência, com o objetivo de restabelecer a segurança estrutural e preservar as características originais do imóvel que abrigou a produção intelectual do escritor.

À frente do planejamento, da coordenação técnica e do acompanhamento da execução está o engenheiro civil Pedro Carim, gestor da obra e integrante da equipe da Elysium Sociedade Cultural. Ele explica que, embora “restauro” seja o termo mais coerente para definir a intervenção, o trabalho desenvolvido na Casa-Museu Bernardo Élis articula diferentes frentes técnicas. “Uma mescla entre restauro, conservação e reabilitação”, resume.

“O restauro tem como foco a preservação e a recuperação das características originais de um bem, respeitando seus valores históricos, arquitetônicos e simbólicos. A conservação foca na preservação e manutenção, evitando futuras degradações, é uma ação preventiva ou de reparos pontuais para aumentar a vida útil, sem alterar sua estrutura. A reabilitação busca adaptar o bem para novos usos ou para a continuidade de seu uso, ou seja, dar ‘vida nova’ ao imóvel, incorporando melhorias funcionais ao mesmo tempo que recupera estruturas degradadas sem comprometer seus valores essenciais”, destaca Pedro.

Na prática, segundo o engenheiro, as três abordagens se complementam. “Há, portanto, ações de restauro voltadas à preservação dos elementos históricos do imóvel, o restauro da fachada é um exemplo; ações de conservação visando a segurança e melhoria da vida útil do imóvel. As novas instalações elétricas são exemplo disso; por fim, há intervenções de reabilitação para adequar o imóvel às necessidades atuais do ICEBE”, complementa o responsável pela coordenação técnica dos trabalhos.

Financiada por lei de incentivo, a intervenção está submetida a critérios rigorosos de natureza legal e administrativa. De acordo com Pedro, o projeto precisa atender a uma série de exigências específicas, entre elas “a apresentação e aprovação prévia do projeto cultural, o cumprimento do orçamento aprovado, a observância dos prazos estabelecidos e a prestação de contas dos recursos utilizados”. “A Lei Goyazes exige que o projeto tenha finalidade cultural e interesse público, o que, no caso de um imóvel que abriga um instituto reconhecido como utilidade pública municipal, reforça critérios de transparência, responsabilidade na gestão e alinhamento da obra à função social e cultural do espaço”, acrescenta.

Do ponto de vista técnico, a obra segue parâmetros compatíveis com bens de valor histórico e cultural. “Isso inclui a especificação de materiais e o acompanhamento especializado. Quando aplicável, há diálogo com órgãos de preservação do patrimônio, garantindo que as soluções adotadas estejam em conformidade com as boas práticas de conservação e restauro. Mas neste caso específico, a aprovação de um órgão de patrimônio histórico não é uma exigência legal, uma vez que não se trata de bem com proteção legal formal”, destaca Pedro ao citar que entre os principais desafios de um trabalho como o que é realizado na casa que foi de Bernardo Élis está o equilíbrio entre memória e funcionalidade. “Há também desafios técnicos relacionados ao diagnóstico das patologias construtivas, à escolha de materiais compatíveis e à execução cuidadosa das intervenções. A gestão de prazos, recursos e equipes especializadas também exige atenção constante.”

Ao longo de todo o processo, a intervenção mobiliza uma equipe multidisciplinar. “Um grupo qualificado formado por arquitetos, engenheiros, mestres de obra e trabalhadores especializados, além de profissionais da gestão cultural e administrativa. Indiretamente, também mobiliza fornecedores e prestadores de serviço, totalizando aproximadamente 30 pessoas envolvidas.”

Hub cultural e acervo
Mais do que um museu nos moldes tradicionais, a casa onde Bernardo Élis viveu funciona como um hub cultural no sistema de Casa-Museu. O modelo, explica Nilson Jaime, é similar a experiências reconhecidas em outras partes do Brasil e no exterior. “A exemplo da Casa Jorge Amado (BA), Casa Gilberto Freyre (PE) e Casa de Cora Coralina (GO) e, em nível internacional, as casas de Pablo Neruda, no Chile, dentre outras.”

O acervo reunido no imóvel é expressivo e singular. Entre as peças preservadas estão o fardão da Academia Brasileira de Letras, cerca de 200 objetos pessoais do escritor, toda a sua produção autoral e uma biblioteca com aproximadamente seis mil volumes. Soma-se a esse conjunto uma pinacoteca composta por 40 obras em óleo sobre tela, assinadas por artistas como DJ Oliveira, Giuseppe Nazareno Confaloni, Amaury Menezes, Luiz Jardim e Elder Rocha Lima, entre outros.

A casa está organizada em dois pavimentos. Na parte superior, encontram-se a sala de exposição, banheiro e sacada. Na parte inferior funcionam a recepção, a sala da presidência do Instituto, a secretaria, o espaço para palestras, escritório e banheiro. Um anexo abriga a biblioteca, a sala de acervo bibliográfico, a sala de acervo especial, dois banheiros e copa. A área externa, com pátio interno, pátio externo e garagem, completa o conjunto que preserva e dinamiza o legado de Bernardo Élis.

“O imóvel foi doado em testamento ao ICEBE e está em processo de execução testamentária. Desde 2024, o Instituto é reconhecido como de utilidade pública municipal e responde pela gestão e manutenção da Casa-Museu”, acrescenta Nilson Jaime.

Parcerias e o que está por vir
O ICEBE construiu, ao longo de sua trajetória, uma rede consistente de parcerias com universidades e instituições culturais de referência, entre elas UFG, UEG, UniAraguaia, Academia Goianiense de Letras, Academia Goiana de Letras (AGL), Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), Instituto Histórico e Geográfico do Tocantins (IHGT), Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (Aplam), Academia Palmeirense de Letras, Artes, Música e Ciência (Aplamc), Associação Goiana de Imprensa (AGI) e Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag).

Essa articulação amplia o alcance acadêmico e cultural do Instituto, fundado em 21 de janeiro de 2020 por Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, Nilson Gomes Jaime e outros 13 sócios-fundadores, sob a presidência de honra de Maria Carmelita Fleury Curado. A entidade reúne 120 sócios titulares, além de membros eméritos, efetivos, correspondentes e “ad perpetuam rei memoriam”, e dá continuidade ao trabalho da Associação Cultural Bernardo Élis para os Povos do Cerrado, criada em 1998.

Com o restauro, a meta é consolidar a Casa-Museu como um espaço vivo de cultura, educação e produção intelectual, em sintonia com a missão do ICEBE de preservar o acervo e o legado de Bernardo Élis. “Após a conclusão da obra, a Casa-Museu será aberta à comunidade com visitas guiadas gratuitas. O espaço também receberá saraus, palestras, atividades de estudo e pesquisa, além de estágios e residências”, arremata o presidente do Instituto.

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por Adriana Marinelli

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