Samuel Straioto
Goiânia – Goiás registra 206 municípios com baixa ou inicial capacidade de resposta a desastres naturais, o que representa 83,73% das cidades do Estado. O dado coloca o território goiano entre os mais afetados pelo problema no país e revela uma fragilidade estrutural preocupante na preparação para enfrentar deslizamentos, enxurradas e inundações. O diagnóstico consta no Indicador de Capacidade Municipal (ICM) divulgado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDIR), com dados referentes a 2024.
O levantamento nacional mostra que 3.255 municípios brasileiros (58,49% do total) estão em estágios iniciais ou embrionários de gestão de riscos. Goiás aparece entre os estados com maior proporção de cidades nessas situações, evidenciando um desafio estrutural significativo que deixa a população vulnerável durante períodos de chuvas intensas.
O Indicador de Capacidade Municipal
O Indicador de Capacidade Municipal é uma ferramenta criada pelo governo federal para monitorar o preparo das cidades brasileiras para enfrentar desastres naturais. A avaliação considera 20 variáveis divididas em três dimensões: instrumentos de planejamento e gestão, coordenação intersetorial e capacidades, e políticas, programas e ações.
Entre os critérios analisados estão a existência de plano diretor aprovado por lei municipal incluindo proteção e defesa civil, plano municipal de redução de riscos, dotação orçamentária específica para a área e sistema de monitoramento e alerta antecipado.
A partir da análise dessas variáveis, os municípios são classificados em quatro faixas. A faixa A indica alta capacidade de gestão, com estrutura sólida para prevenir e responder a desastres. A faixa B representa estágio intermediário avançado, com ações consolidadas mas ainda passíveis de melhorias. A faixa C corresponde ao estágio intermediário inicial, com ações de gestão de riscos ainda incipientes. A faixa D representa o estágio embrionário, ou seja, municípios que praticamente não possuem estrutura de defesa civil.
Das 246 cidades goianas, 206 estão nas faixas C ou D. Isso significa que a grande maioria dos municípios do estado não possui estrutura adequada para prevenir, monitorar e responder a desastres como deslizamentos, enxurradas e inundações. Na prática, isso se traduz em ausência ou insuficiência de planos de contingência, equipes capacitadas, sistemas de alerta e recursos orçamentários destinados à defesa civil.

Por que a situação preocupa?
A alta proporção de municípios goianos com baixa capacidade de resposta torna o estado particularmente vulnerável durante o período de chuvas intensas. Sem estrutura adequada de defesa civil, as cidades têm dificuldade para identificar áreas de risco, monitorar situações críticas, emitir alertas à população e coordenar ações de emergência.
O percentual de 83,73% coloca Goiás acima da média nacional de 58,49%, revelando que o estado enfrenta um desafio proporcionalmente maior que o restante do país. Enquanto no Brasil pouco mais da metade dos municípios apresenta fragilidades na gestão de riscos, em Goiás essa realidade atinge mais de oito em cada dez cidades.
Municípios goianos nas faixas C e D
Entre os 206 municípios goianos com baixa capacidade de resposta estão Alvorada do Norte, Jesúpolis, Águas Lindas de Goiás, Araçu, Novo Gama, Paraúna, Três Ranchos, Trindade, Vila Propício, Montes Claros de Goiás, São João da Aliança, Simolândia e Valparaíso de Goiás.
Também figuram na lista Amorinópolis, Aragoiânia, Baliza, Cachoeira Alta, Caldas Novas, Campinaçu, Campinorte, Campo Alegre de Goiás, Campos Belos, Cocalzinho de Goiás, Formoso, Goianápolis, Itaguaru, Joviânia, Mambaí, Mara Rosa, Niquelândia, Nova América, Piracanjuba, Pontalina, São Domingos, São Patrício e Varjão.
O levantamento ainda aponta Água Fria de Goiás, Aporé, Aurilândia, Barro Alto, Buritinópolis, Caiapônia, Colinas do Sul, Corumbaíba, Cromínia, Goianésia, Iaciara, Inaciolândia, Indiara, Israelândia, Itajá, Itapuranga, Itauçu, Jussara, Mimoso de Goiás, Mozarlândia, Palminópolis, Paranaiguara, Santa Cruz de Goiás, Santa Fé de Goiás, Santo Antônio de Goiás, São João da Paraúna, São Simão e Uruana.
Completam a relação municípios como Americano do Brasil, Aloândia, Arenópolis, Bom Jardim de Goiás, Britânia, Buriti Alegre, Castelândia, Cristianópolis, Cumari, Damolândia, Diorama, Goianira, Guapó, Guarani de Goiás, Hidrolândia, Itaguari, Itarumã, Jaupaci, Moiporá, Mundo Novo, Nazaré, Palmelo, Petrolina de Goiás, Porteirão, Portelândia, Santa Bárbara de Goiás, Vila Boa, Araguapaz, Buriti de Goiás, Mutunópolis, Santa Rosa de Goiás, Santa Tereza de Goiás, Santo Antônio da Barra e São Francisco de Goiás.
Desafios estruturais
Carlos Eduardo Santos é pesquisador da área de geografia urbana. Ele contextualiza o cenário goiano dentro do problema nacional.
“O que observamos é uma fragilidade estrutural que não se resolve da noite para o dia. Municípios menores, especialmente, enfrentam limitações orçamentárias, falta de quadros técnicos especializados e ausência de cultura institucional voltada para a gestão de riscos. Isso os deixa extremamente vulneráveis quando eventos extremos acontecem”, explica.
Santos destaca que a situação se agrava com as mudanças climáticas. “As chuvas que antes ocorriam uma vez por década agora podem acontecer várias vezes em poucos anos. Isso exige que os municípios se preparem melhor, revejam seus planos de ocupação e invistam em infraestrutura de prevenção”, afirma.
Planejamento e infraestrutura
Paulo Henrique Martins é urbanista com foco em drenagem e ocupação do solo. Ele explica que a baixa capacidade de resposta tem relação direta com problemas de planejamento urbano.
“Quando substituímos vegetação e solo natural por asfalto e concreto, eliminamos a capacidade natural do terreno de absorver água. Toda a chuva que cai precisa escoar pela superfície, sobrecarregando sistemas de drenagem que, em muitos casos, já são insuficientes ou mal dimensionados”, detalha.
O especialista acrescenta que a manutenção inadequada contribui para as ocorrências. “Bocas de lobo entupidas, galerias pluviais subdimensionadas, córregos canalizados sem capacidade suficiente – tudo isso transforma chuvas fortes em problemas urbanos. A prevenção passa por planejamento, investimento em infraestrutura e manutenção constante”, avalia.
Martins ressalta que a gestão de riscos precisa estar no centro das políticas públicas municipais. “Os gestores precisam colocar a questão climática e a gestão de riscos no centro da administração pública. Isso significa investir em mapeamento detalhado, sistemas de alerta, planos de contingência, obras preventivas e, fundamentalmente, ordenamento territorial que impeça a ocupação de áreas inadequadas”, afirma.
Recursos federais disponíveis
O mapeamento dos municípios com baixa capacidade de resposta serve como base para a alocação de recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prevê investimentos em infraestrutura urbana em todo o país.
Entre as ações prioritárias estão obras de contenção de encostas, sistemas de macrodrenagem, barragens de regularização de vazões e controle de cheias, e intervenções em cursos d’água. A seleção dos municípios para receber investimentos considera critérios como histórico de desastres, número de habitantes em áreas de risco e vulnerabilidade socioeconômica.
Carlos Eduardo Santos ressalta a necessidade de transformar o diagnóstico em ação. “Não basta mapear o risco, é preciso agir. Isso envolve desde remoção de famílias de áreas de altíssimo risco até investimentos pesados em infraestrutura. Também passa por fiscalização rigorosa para impedir novas ocupações irregulares e por programas habitacionais que ofereçam alternativas dignas para a população vulnerável”, afirma.
Paulo Henrique Martins reconhece que os recursos municipais são limitados, mas defende o aproveitamento de oportunidades. “Por isso é tão importante que os municípios estejam preparados para captar recursos federais e estaduais. Ter planos atualizados, projetos bem elaborados e capacidade técnica para executar obras faz toda a diferença”, complementa.
Monitoramento e atualização
O Indicador de Capacidade Municipal segue um ciclo de atualização. A previsão é de que o próximo ocorra entre abril e junho de 2026, com resultados disponibilizados na segunda quinzena de julho.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) monitora atualmente 1.133 municípios brasileiros, o que corresponde a 20% das cidades do país e cerca de 60% da população. Em 2024, o Cemaden emitiu 3.620 alertas de desastres, o maior número desde o início das atividades de monitoramento em 2011.
O trabalho do órgão consiste em cruzar informações sobre mapeamentos de áreas de risco, previsões meteorológicas e dados históricos de ocorrências para emitir alertas às defesas civis municipais e estaduais.
Para os 206 municípios goianos nas faixas C e D, o levantamento representa uma oportunidade de identificar fragilidades e buscar melhorias na estrutura de prevenção e resposta a desastres.
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