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A Colonização do Agora

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20.01.2026 - 08:56:01

Em um artigo recente na Folha de S. Paulo, Luiz Felipe Pondé resgata o pensamento do filósofo e montanhista norueguês Peter Wessel Zapffe. Para Zapffe, a consciência humana seria uma espécie de erro no processo de evolução das espécies. Teríamos desenvolvido uma clareza excessiva sobre nossa própria condição e limitações — um superfaturamento biológico que se tornou nossa maior fonte de sofrimento.

Ainda que eu não tenha lido Zapffe diretamente, a tese faz todo sentido. Sabermo-nos mortais, frágeis e contraditórios gera uma angústia que parece de fato embutida no DNA. É o poder explicativo de Darwin aplicado à nossa melancolia: somos o animal que enxerga o próprio fim e, por isso, treme.

Mas penso se essa tristeza não seria, na verdade, subproduto de uma autoimagem própria de nosso tempo. Vivemos sob a ficção de que somos indivíduos autônomos, desconectados da rede que nos sustenta. Muitas sociedades indígenas, por outro lado, não operam nessa cisão radical entre eu e mundo. Para elas, a consciência não é uma tragédia solitária, mas um fio de uma trama coletiva. Contudo, como meu pai costumava dizer, “não temos competência para ser índios”. Somos herdeiros dessa modernidade fragmentada, e o que nos resta é administrar a consciência da melhor forma possível.

Para essa manutenção, recorro à meditação. Mas o processo é, frequentemente, uma verdadeira fonte de humilhação — ou de humildade, a depender do humor do dia.

Há uma ironia inescapável aqui: uso o smartphone, esse ápice da nossa autonomia técnica e da dispersão digital, para tentar recuperar a presença. Abro o Waking Up, aplicativo do neurocientista Sam Harris. “Feche os olhos e se concentre na respiração”, dita a voz suave. “Deixe os pensamentos passarem como nuvens”.

O problema é que, para uma mente ansiosa, os pensamentos não são nuvens flutuando em um céu de brigadeiro. São tempestades, prazos, medos, novelos de preocupações. O foco na respiração dura dez segundos, no máximo, antes da primeira invasão:

“E se o gato morder meu pé agora?” Abro um olho para checar o território. O gato dorme, indiferente à minha busca pela iluminação. Fecho os olhos. Respiro.

“Será que dá tempo de terminar o texto da coluna hoje? Tenho também o artigo da tese, a reunião às 14h, preciso comprar ração pro gato… E será que o Flamengo vai mesmo trazer o Lucas Paquetá?”

Nesses momentos, percebo que minha mente é uma espécie de monocultura do futuro. O amanhã atua como uma força de ocupação que coloniza o agora, impedindo que eu habite minha própria vida. Por que o futuro é tão mais atraente — ou assustador — que o presente? Talvez porque seja um mecanismo de controle. No planejamento, eu governo; o presente é incontrolável.

Tentar meditar sendo ansioso é como tentar fazer a manutenção de uma estrada enquanto o tráfego não para de crescer. É um trabalho de infraestrutura invisível e exaustivo. É tentar segurar a água com as mãos: quanto mais tento agarrar o momento, mais ele escapa pelas frestas das projeções do que vem a seguir.

Mas eu insisto. Insisto porque o próprio paradoxo de fracassar na presença é um chamado à humildade. Se a consciência é o erro de que falava Zapffe, a meditação é o gesto de fazer as pazes com esse defeito de fabricação. Não vou me iluminar — as notícias sobre o Flamengo e as listas de compras continuarão ali. Mas conseguir perceber que me distraí e retornar ao eixo, ainda que por apenas três respirações, é uma vitória monumental.

A meditação não é uma cura para a condição humana, mas um lembrete. Aceitar que nossa atenção é curta e que a presença é um exercício de retornar, infinitas vezes, para o chão onde os pés estão — e aceitar, com um sorriso de canto, que se estava distraído de novo.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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