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Goiânia é a cidade goiana com maior número de pessoas em situação de rua. Foto: Rovena Rosa - Agência Brasil.

Levantamento revela que Goiás registra 4,8 mil pessoas vivendo em situação de rua

Goiânia concentra maior número

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25.01.2026 - 08:00:56

Samuel Straioto

Goiânia – Goiás registra 4.809 pessoas em situação de rua, segundo levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG), com base em dados do Cadastro Único. O número revela uma realidade que vai além das estatísticas e expõe desigualdades profundas que marcam o estado.

Do total, 4.316 são homens e 493 são mulheres, evidenciando que a população masculina representa a esmagadora maioria das pessoas nessa condição. Mas os números ganham contornos ainda mais reveladores quando se observa o recorte racial: a população negra representa 81,2% do total, somando 3.905 pessoas, enquanto a população branca representa 17,8%, com 858 pessoas. Esses dados expõem como raça e vulnerabilidade social estão entrelaçadas no estado.

Perfil por gênero e raça em Goiás

Categoria Quantidade Percentual
Gênero
Homens 4.316 89,7%
Mulheres 493 10,3%
Raça/Cor
População negra 3.905 81,2%
População branca 858 17,8%
Total 4.809 100%

Perfil

A faixa etária da população em situação de rua em Goiás se concentra entre adultos jovens e de meia-idade. Do total estadual, 2.600 pessoas têm entre 18 e 39 anos, representando 42,84% dessa população. Já o grupo de 40 a 59 anos soma 2.346 pessoas, ou 48,78% do total. Juntas, essas duas faixas etárias concentram mais de 90% das pessoas que vivem nas ruas do estado.

Os idosos somam 382 pessoas, enquanto crianças e adolescentes representam a menor parcela, com 21 pessoas nessa situação. Embora seja um número reduzido, a presença de menores de idade nas ruas sinaliza vulnerabilidades extremas que demandam atenção emergencial das políticas de proteção à infância.

Distribuição por faixa etária

Faixa etária Quantidade Percentual
Crianças e adolescentes (0-17 anos) 21 0,44%
Adultos jovens (18-39 anos) 2.600 54,06%
Meia-idade (40-59 anos) 2.346 48,78%
Idosos (60 anos ou mais) 382 7,94%
Total 4.809 ≈100%

Quanto à escolaridade, o cenário é de exclusão educacional. A maioria, 2.393 pessoas, possui ensino fundamental incompleto, o que representa quase metade de toda a população em situação de rua no estado. Apenas 665 pessoas têm ensino superior incompleto ou completo, evidenciando o baixo acesso dessa população a níveis mais avançados de educação. A falta de escolaridade se torna uma barreira adicional para o acesso ao mercado de trabalho e para a saída das ruas.

Nível de escolaridade

Escolaridade Quantidade Percentual
Fundamental incompleto 2.393 49,8%
Superior incompleto ou completo 665 13,8%
Outras faixas de escolaridade 1.751 36,4%
Total 4.809 100%

Outro dado que agrava a vulnerabilidade é a deficiência. Do total de pessoas em situação de rua em Goiás, 1.081 têm algum tipo de deficiência, o que representa aproximadamente 22% dessa população. Esse grupo enfrenta barreiras ainda maiores para acessar serviços, conseguir emprego e conquistar autonomia.

Pessoas com deficiência

Condição Quantidade Percentual
Pessoas com deficiência 1.081 22,5%
Pessoas sem deficiência 3.728 77,5%
Total 4.809 100%

Distribuição

A distribuição territorial da população em situação de rua em Goiás revela forte concentração urbana. Goiânia concentra 38,68% do total estadual, com 1.860 pessoas vivendo nas ruas da capital. Os dez municípios com maior incidência somam 74,77% de toda a população em situação de rua do estado, mostrando que a questão se concentra principalmente nas áreas urbanas de maior porte.

Essa concentração não é casual. As cidades maiores oferecem mais oportunidades de trabalho informal, maior disponibilidade de serviços assistenciais e pontos de apoio como centros de referência, abrigos e programas de distribuição de alimentos. Por outro lado, também concentram os maiores índices de desigualdade e os custos de moradia mais elevados.

Os números variam conforme a fonte e a metodologia. Em 2019, o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Criminalidade e Violência da Universidade Federal de Goiás (Necrivi/UFG) estimava cerca de 1,2 mil pessoas vivendo nas ruas da capital. Atualmente, dados da Superintendência de Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds) indicam que esse número gira em torno de 2,5 mil moradores, representando um aumento de 108% desde o início da pandemia de covid-19.

Contexto

Esse crescimento reflete uma combinação de fatores estruturais. O agravamento da crise econômica, o desemprego, o aumento do custo de vida, especialmente dos preços dos aluguéis, e a falta de uma rede de proteção social eficaz empurraram mais pessoas para as ruas. Para muitos, viver nas ruas tornou-se a única alternativa frente à precariedade econômica.

O sociólogo Augusto Carneiro analisa o fenômeno a partir de uma perspectiva estrutural. “Não se trata de casos isolados ou escolhas individuais. O que vemos é o resultado de um modelo de desenvolvimento urbano excludente, que não consegue garantir condições mínimas de subsistência para uma parcela significativa da população. A situação de rua é a expressão mais visível da desigualdade social brasileira, agravada pela ausência de políticas efetivas de moradia, trabalho e renda”, explica.

Carneiro destaca ainda o papel da pandemia como elemento catalisador dessa crise. “A covid-19 não criou o problema, mas acelerou processos que já estavam em curso. Muitas famílias que viviam em situação de extrema precariedade, mas ainda conseguiam manter uma moradia, foram jogadas nas ruas quando perderam suas fontes de renda. E uma vez nessa situação, o retorno à condição anterior se torna extremamente difícil, criando um ciclo de vulnerabilidade do qual é muito difícil escapar”, afirma.

Homens negros representam maioria nas ruas. Foto: Rovena Rosa – Agência Brasil.

Nacional

No Brasil, o número de pessoas vivendo em situação de rua registradas no Cadastro Único chegou a 365.822 no final de 2025, segundo levantamento do OBPopRua/UFMG divulgado em janeiro de 2026. Em dezembro de 2024 havia 327.925 pessoas nessa condição, representando crescimento contínuo nos últimos anos.

A maioria dessa população se encontra na Região Sudeste do país, somando 222.311 pessoas, o que representa 61% do total nacional. Em seguida aparece a Região Nordeste, com 54.801 pessoas em situação de rua. Só no estado de São Paulo estão concentradas 150.958 pessoas nessa condição, seguido pelos estados do Rio de Janeiro, com 33.656, e Minas Gerais, com 33.139.

Para os pesquisadores do Observatório, quatro situações podem explicar esse aumento: o fortalecimento do Cadastro Único como principal registro da população em situação de rua e de acesso às políticas públicas sociais do país; a ausência ou insuficiência de políticas públicas estruturantes voltadas para essa população, tais como moradia, trabalho e educação; a precarização das condições de vida principalmente após a pandemia; e as emergências climáticas e deslocamentos forçados na América Latina.

Assistência

Em Goiânia, a Prefeitura alega que tem implementado ações para atender essa população. A secretária municipal de Políticas para Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos, Erizânia Freitas, afirma que a gestão municipal trabalha com atendimentos individualizados. “Aqui a gente não trabalha com número, a gente trabalha com CPF. É pessoa por pessoa, entendendo a complexidade de cada caso”, afirmou.

Segundo a secretária, parte dessas pessoas foi reinserida socialmente por meio de políticas públicas, enquanto outra parcela optou por retornar aos municípios de origem. “Quando há retorno, a gente entra em contato com a família ou com a rede de assistência do município de destino, para que essa pessoa continue sendo acompanhada”, disse. “As pessoas em situação de rua, em Goiânia, não são invisíveis para essa gestão”, reforçou.

Em dezembro de 2025, o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) foi transferido para uma nova sede no Setor Aeroporto. Erizânia explicou que a mudança foi necessária porque a antiga sede tinha problemas estruturais. “O Centro Pop estava em um local muito bom, mas numa sede inacessível, com escadas, sem elevador e sem espaço físico suficiente para receber os usuários. Em janeiro, quando cheguei, percebi que muitos precisavam comer na calçada”, afirmou.

A previsão é que até março de 2026 a unidade esteja totalmente reformada. “O investimento é para garantir dignidade no atendimento dessas pessoas”, reforçou.

Desafios

A ausência de dados precisos e atualizados é apontada como obstáculo para o planejamento de políticas públicas. Maylla Rigonato, assistente social responsável pela Associação Tio Cleobaldo, que dá assistência à população de rua, explica que o número de pessoas em situação de rua pode ser maior, consequentemente isso afeta na quantidade de alimentos e cobertores que a associação pode oferecer.

“O Censo é a nossa base, e tivemos o último dado oficial em 2019 e um que não é oficial em 2023. Mas esse número parece não refletir a realidade. Em nossas entregas, vemos filas cada vez maiores e a falta de dados atrapalha nossa preparação. Fazemos 30 mil marmitas por mês e não conseguimos atender a todos que precisam”, afirma.

Pesquisadores avaliam que o problema da população em situação de rua exige políticas estruturais e permanentes. O debate não pode ser reduzido apenas à retirada das pessoas das ruas, mas deve incluir acesso a moradia, trabalho, educação e saúde. Políticas como moradia assistida e fortalecimento dos serviços básicos são fundamentais para romper o ciclo da rua.

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por Samuel Straioto

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