Samuel Straioto
Goiânia – A rua já não é mais a mesma. Falta algo nas esquinas, nas praças, em frente às padarias. Um vazio na paisagem urbana que poucos param para notar, mas que marca o fim de uma era: os orelhões estão desaparecendo. Em Goiás, aquelas cabines em formato de concha que testemunharam namoros por telefone, notícias urgentes e tantas conversas apressadas restam em apenas 179 pontos do Estado, sendo a maioria em pequenos povoados e comunidades rurais. 102 deles ainda resistem e estão em funcionamento. Em Goiânia, embora algumas estruturas ainda estejam de pé, nenhum orelhão funciona mais.
Quando a ficha finalmente caiu – literal e metaforicamente –, percebemos que uma parte importante da nossa história estava sendo apagada. Aquele “plim” característico que marcava o consumo dos créditos do cartão telefônico, o barulho metálico da ficha caindo no aparelho, as filas nos horários de pico: tudo virou memória.
“A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia pra dar um recado telefônico. Na própria calçada, uma vez comprada a ficha no jornaleiro, comunicam-se. Tão simples.” As palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade, escritas na crônica “Amenidades da rua” publicada no Jornal do Brasil, capturavam o encantamento daquele tempo. Hoje, elas soam como epitáfio de uma época em que a comunicação exigia sair de casa, procurar uma cabine laranja ou azul e torcer para que o orelhão estivesse funcionando.

Memórias que não se apagam
Celiana Medeiros guarda com carinho as lembranças da adolescência no interior do Maranhão, quando os orelhões eram parte indispensável do cotidiano. Naquela época bucólica, onde o ritmo da vida ainda seguia o compasso das chuvas e das colheitas, o telefone público representava a ponte com o mundo além das fronteiras da pequena cidade.
“Durante minha adolescência, dos 14 aos 17 anos, utilizei bastante os telefones públicos. Tínhamos família na capital e os usávamos para fazer ligações, inclusive para conversar com o namorado”, relembra.
Era uma época em que ter telefone em casa não era garantido. Muitas famílias esperavam anos por uma linha. O orelhão era, então, a solução – e ponto de encontro, confessionário improvisado, salvação em emergências.
Da ficha ao cartão: quando caiu a ficha
As fichas metálicas, compradas em bancas de jornal, padarias e farmácias, eram a moeda da comunicação. Vinham embaladas em cartelas de papel, com valores que mudavam constantemente acompanhando a hiperinflação dos anos 1980 e início dos 1990.
Ter um estoque de fichas no bolso ou na bolsa era essencial – e muitas vezes elas serviam como moeda de troca real. “Você tem uma ficha?” era uma pergunta comum, um pedido de ajuda, quase uma senha de solidariedade urbana.
Era impossível fazer o orelhão funcionar com moedas comuns, como acontecia em outros países, justamente por causa da inflação galopante. O valor mudava de um dia para o outro. Por isso, o sistema de fichas – uma espécie de moeda paralela específica para telefonia – fazia sentido econômico.

Mas as fichas tinham um problema: eram alvos fáceis de fraudes. Falsificações eram comuns, e o sistema começou a se tornar inviável para as operadoras de telefonia. A solução veio em 1992, em meio à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (Eco-92): os cartões telefônicos pré-pagos chegaram ao Brasil trazendo uma revolução tecnológica e cultural.
Os cartões eram mais práticos que as fichas, não se perdiam tão facilmente, eram mais seguros contra fraudes e, principalmente, viraram febre nacional de colecionismo. Com designs variados – times de futebol, artistas, paisagens, eventos culturais – os cartões se tornaram verdadeiros itens de desejo.
Havia álbuns específicos para organizá-los, feiras de trocas, colecionadores dedicados. Alguns cartões raros alcançavam valores altos. Era comum presentear alguém com um cartão de time do coração ou de artista favorito. Crianças e adolescentes colecionavam como quem hoje coleciona cards ou figurinhas digitais.
Celiana viveu intensamente essa febre. Conta que seu irmão colecionava cartões telefônicos, hábito que se espalhou pelo país nos anos 1990 e 2000, transformando os cartões em verdadeiros itens de colecionador.
“Notei que algumas pessoas começaram a confeccionar bolsas artesanais com cartões usados. Então, eu juntava aqueles cartões que exibiam imagens interessantes, como cartões postais com fotos de lugares bonitos. Reunir esses cartões era o meu objetivo para fazer as bolsas”, conta.
O ritual de usar o cartão tinha seu próprio encanto: inserir na entrada, esperar o aparelho ler, ver na pequena tela os créditos disponíveis, ouvir o “plim” a cada unidade consumida, tentar calcular quanto tempo de conversa ainda restava. Quando o crédito estava acabando, vinha a pressa, a tentativa de resumir o que faltava dizer, às vezes a frustração de a ligação cair no meio de algo importante.

Havia até técnicas secretas para otimizar o uso dos créditos. “Você comprava um cartão com um determinado valor, que correspondia a um período de conversação. Ao fazer a ligação, inseríamos o cartão e podíamos falar com a pessoa por um tempo, mesmo retirando o cartão do aparelho”, revela Celiana, compartilhando um truque conhecido por muitos usuários da época. “Lembro que o telefone público tinha a função de rediscar.”
Outro detalhe que ela não esquece: o orelhão instalado no final da rua onde morava. “Sempre que tocava, quem morava mais perto corria para atender, pois geralmente era algum familiar ligando para se comunicar com alguém da vizinhança.” Os orelhões comunitários, inaugurados pela Telesp em 1982 na favela da Vila Prudente, em São Paulo, popularizaram essa prática: era possível receber chamadas, transformando a cabine pública em extensão da casa de quem não tinha telefone.
O orelhão como salvação
Para Geovanna Madureira, hoje com 28 anos, o telefone público representou independência e autonomia em um momento difícil da infância. Estudante na Escola Municipal Marechal Ribas Júnior, na Vila Redenção, em Goiânia, ela tinha cerca de 10 anos de idade quando a escola passou a funcionar em período integral.
“Eu tinha muita dificuldade de me adaptar com aquela mudança. E aí eu era muito tímida na época, tinha pouquíssimos amigos, mas eu fiz amizade com uma única pessoa lá. Um belo dia eu cheguei na escola e eu não a encontrei, porque ela havia mudado de escola, os pais dela haviam mudado de escola e eu não fui avisada com antecedência. Aí eu me senti muito sozinha o dia todo”, relata Geovanna.
A solidão de uma criança de 10 anos em uma escola de período integral, sem a única amiga que tinha, encontrou resposta naquele aparelho junto à cantina. A solução veio através do orelhão que ficava próximo ao refeitório. “Eu comprei um cartão de crédito (telefônico)com um dinheirinho que tinha ganhado do meu pai, e aí todos os dias eu ligava pra minha mãe me buscar no orelhão. Eu ligava e falava: mãe, por favor, vem me buscar. E ali eu descobri aquela independência de poder colocar o cartão no orelhão e fazer uma ligação. Foi um período complicado, e assim eu me sentia muito independente, sabe?”
É um retrato perfeito daquele tempo: uma criança de 10 anos, sozinha, descobrindo que com um cartão telefônico e alguns passos até a cantina poderia resolver seu problema. Hoje, essa cena seria impensável – qualquer criança pegaria o celular do bolso.
Geovanna também coleciona outras memórias daquele tempo. “Eu lembro que na avenida próxima à rua que eu morava tinha vários orelhões. Sempre quando eu queria saber o telefone de um lugar, eu ligava no 102 e falava: oi, gostaria de saber qual que é o telefone da área ali, e a gente tinha informações acerca de um número de telefone. Eu achava aquilo incrível.”
O serviço 102 – as telefonistas que forneciam números – era outra instituição daquele tempo. Não havia Google, não havia listas de contatos salvas na nuvem. Havia a voz de uma telefonista do outro lado da linha, consultando catálogos físicos.
Como grande parte da sua geração, ela também colecionou cartões telefônicos. “Eu lembro que eu tinha uma pasta e adorava colecionar aqueles cartões. Foi uma época muito boa da minha infância marcada pelo orelhão.”

A geração que nunca usou
Letícia Bernardes, 22 anos, nasceu em um mundo onde o celular já era realidade. Para ela, a ideia de procurar um telefone na rua para fazer uma ligação soa quase como ficção científica. “Quando minha mãe me contou que tinha que comprar fichas e cartões para usar o telefone público, eu achei muito estranho. Tipo, você tinha que planejar com antecedência se ia precisar ligar para alguém”, diz.
A estudante universitária nunca precisou usar um orelhão. “Meu primeiro celular eu ganhei com 11 anos. Antes disso, se eu precisava ligar para alguém, usava o telefone fixo de casa ou pedia emprestado o celular dos meus pais”, explica. “É difícil imaginar ter que sair de casa procurando um telefone público, esperando que ele estivesse funcionando e que você tivesse crédito.”
Para Letícia, conceitos básicos daquela época soam estranhos. A ideia de que o telefone era fixo em um lugar, de que era preciso ir até ele (e não o contrário), de que havia limite de tempo para falar, de que era preciso comprar crédito antecipadamente. “E se você estivesse no meio de uma conversa importante e o crédito acabasse?”, pergunta, genuinamente curiosa.
O contraste entre as gerações é marcante. Onde antes se perguntava “você tem uma ficha?”, hoje a questão é “você tem bateria?”. Onde antes havia filas e espera, hoje há chamadas instantâneas. Onde antes existia a ansiedade de saber se o orelhão estaria funcionando, hoje existe a certeza de que o celular está sempre no bolso.
A tecnologia que mudou tudo
A partir dos anos 1990, a telefonia fixa começou a se expandir. Mais famílias conseguiam linhas residenciais. Mas a grande mudança veio com os celulares. Inicialmente restritos a executivos e pessoas de alto poder aquisitivo nos anos 1990, os telefones móveis começaram a se popularizar nos anos 2000. Os custos caíram, os aparelhos ficaram menores e mais acessíveis, as operadoras multiplicaram as ofertas.
Nos anos 2000, ainda era possível ver pessoas usando orelhões, mas o movimento já era decrescente. Com a chegada dos smartphones e da internet móvel, o golpe foi definitivo. Além de ligações, as pessoas agora podiam enviar mensagens de texto, usar aplicativos como WhatsApp, fazer chamadas de vídeo, acessar redes sociais – tudo instantaneamente, de qualquer lugar.
A necessidade de procurar um telefone público praticamente desapareceu. E com ela, desapareceu a produção de cartões telefônicos, os pontos de venda de fichas, a manutenção dos equipamentos. Muitos orelhões passaram a ser alvo de vandalismo, ficaram sem conserto, foram depredados. Viraram cascos vazios nas ruas. Em 2016, quando completaram 45 anos, os orelhões já eram relíquias anacrônicas.
O fim oficial
Em janeiro de 2026, a Anatel iniciou formalmente a operação de remoção dos cerca de 30 mil orelhões que ainda estavam instalados nas ruas brasileiras. A medida oficializa o que já era realidade: o serviço tornou-se obsoleto. A mudança nas regras de concessão do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC) desobrigou as operadoras de manterem os equipamentos em funcionamento.
Hoje, permanecem ativos pouco mais de 2 mil aparelhos em todo o país, mantidos apenas em regiões remotas onde ainda não há cobertura adequada de telefonia móvel. São as últimas testemunhas de uma época que não volta mais.
Os orelhões foram, durante décadas, democratizadores da comunicação. Em uma época em que ter telefone em casa era privilégio de poucos, eles permitiam que qualquer pessoa, com uma simples ficha ou cartão, pudesse se comunicar. Eram usados para avisar atrasos, chamar táxis, pedir ajuda em emergências, matar a saudade de parentes distantes, combinar encontros, dar notícias urgentes.
Drummond tinha razão: a rua ficou sendo outra coisa com os orelhões. E agora, com seu desaparecimento, a rua voltou a ser diferente – mas de um jeito que o poeta talvez não imaginasse. Não é mais preciso procurar a cabine laranja, comprar a ficha no jornaleiro, fazer fila. A comunicação está no bolso, a qualquer momento, instantânea.
Mas algo se perdeu nessa transição. Os orelhões eram públicos, visíveis, compartilhados. Você via as pessoas usando, via as filas, via o desespero de quem estava sem ficha, via a solidariedade de quem emprestava. Hoje, cada um olha para a própria tela, em um isolamento coletivo que aquelas cabines de fibra de vidro nunca permitiram.
Mas para quem viveu a era dos orelhões, nenhuma ressignificação apaga as memórias. O cheiro da cabine no sol quente. O barulho metálico da ficha. O “plim” do crédito acabando. A pressa de desligar para economizar o cartão. A alegria de conseguir completar a ligação. A frustração de encontrar o aparelho quebrado. A intimidade impossível de uma conversa em voz alta na rua. Os segredos sussurrados com a mão cobrindo o bocal. Os “eu te amo” ditos às pressas antes do crédito acabar.
Foi uma época em que bastava uma ficha, um cartão e alguns minutos para resolver tudo. Ou quase tudo. Porque o que os orelhões realmente faziam era conectar pessoas – não apenas através de linhas telefônicas, mas através de uma experiência compartilhada, de um ritual coletivo, de uma forma de estar na cidade que hoje parece distante como os anos 1970, mas que, para muitos, foi ontem.
A ficha caiu. Os orelhões se foram. E com eles, um pedaço da nossa história que agora existe apenas na memória de quem viveu.
A EXTINÇÃO DOS ORELHÕES EM GOIÁS
A queda no número de telefones públicos em Goiás espelha uma transformação tecnológica irreversível. Dados oficiais da Anatel revelam a velocidade com que esses equipamentos desapareceram do estado.
EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS ORELHÕES EM GOIÁS:
| Período | Total de TUPs (Telefones de Uso Público) | Variação |
| Jan/2020 | 7.678 | – |
| Dez/2020 | 7.458 | -220 (-2,9%) |
| Dez/2021 | 5.996 | -1.462 (-19,6%) |
| Dez/2022 | 5.763 | -233 (-3,9%) |
| Dez/2023 | 3.931 | -1.832 (-31,8%) |
| Dez/2024 | 3.510 | -421 (-10,7%) |
| Jan/2025 | 346 | -3.164 (-90,1%) |
| Dez/2025 | 179 | -167 (-48,3%) |
O dado mais impressionante está na transição de 2024 para 2025: em apenas um mês, entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, Goiás perdeu 3.164 orelhões – uma redução de 90,1% no total de equipamentos. Esse movimento marca a implementação da decisão da Anatel de retirada massiva dos telefones públicos em todo o país.
- 2020-2023: declínio gradual mas constante (de 7.678 para 3.931)
- 2024: aceleração da queda (para 3.510)
- Janeiro/2025: colapso abrupto (para 346) – a maior queda registrada
- Dezembro/2025: estabilização no piso (179)
SITUAÇÃO ATUAL (JANEIRO DE 2026):
Do total de 179 telefones públicos que ainda constam nos registros em Goiás:
- 102 estão ativos (57%)
- 61 estão em manutenção (34,1%)
- 16 com situação indefinida (8,9%)
A taxa de equipamentos “em manutenção” é reveladora: muitos deles estão há meses ou até anos sem funcionar. Alguns registram última leitura em 2022 ou 2023, indicando abandono de fato.
DISTRIBUIÇÃO POR OPERADORA EM GOIÁS:
| Operadora | Quantidade de TUPs | Percentual |
| Oi | 123 | 68,7% |
| ALGAR | 21 | 11,7% |
| CLARO | 19 | 10,6% |
| Outras | 16 | 8,9% |
Oi: Mantém a maior parte dos equipamentos remanescentes, concentrados em pequenas localidades e povoados rurais do interior goiano, como comunidades em Nova Roma (Amendoim, Cormari, Povoado Água Doce, Povoado Brejo, Povoado Salobro), distritos de Niquelândia (Rio Vermelho, Buriti Alto, Indaianópolis), entre outros.
ALGAR: Concentra seus equipamentos na região sul do estado, principalmente em municípios como Itumbiara, São Simão, Cachoeira Dourada e Paranaiguara, todos com DDD 64.
CLARO: Mantém presença principalmente em áreas rurais, projetos de assentamento e comunidades afastadas, como o Assentamento Taquaral em Araguapaz, comunidades em Cristalina e o Projeto de Assentamento Vale do Macacão em São João d’Aliança.
Os dados mostram que os poucos orelhões que ainda permanecem funcionando estão concentrados em: Localidades rurais e distritos, pequenos povoados e comunidades; Projetos de assentamento; Municípios de pequeno porte do interior e áreas onde a cobertura de telefonia móvel ainda é limitada.

Goiânia e o fim dos orelhões
A capital goiana não possui mais nenhum telefone público em funcionamento, segundo os dados mais recentes da Anatel. Importante destacar: algumas estruturas físicas de orelhões ainda podem ser encontradas na cidade – cabines vazias, pichadas, algumas sem o aparelho telefônico – mas nenhuma delas opera mais.
Orelhão desativado no Centro Cultural Octo Marques (Foto: Anna Stella/jornal A Redação)
A cidade que já concentrou centenas de orelhões em pontos estratégicos como a Rodoviária, Praça Cívica, Praça do Trabalhador, terminais de ônibus, avenidas Goiás e Anhanguera, agora depende exclusivamente da telefonia móvel e da internet para comunicação. Hoje, os poucos que ainda não foram retirados, são fantasmas urbanos, testemunhas silenciosas de um tempo que não volta mais.
O auge dos orelhões na capital aconteceu no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Era comum ver filas nos horários de pico, especialmente em locais como terminais de ônibus e próximo a escolas.
Muitos orelhões ficavam instalados em estabelecimentos comerciais – farmácias, padarias, bares – e funcionavam quase como pontos de encontro. Era comum combinar de ligar de determinado orelhão em determinado horário, ou mesmo anotar o número do telefone público para receber ligações. “Vou estar no orelhão da esquina às 15h” era uma frase que fazia todo sentido.
Com a massificação dos celulares e o avanço da internet móvel a partir dos anos 2000, o uso dos telefones públicos entrou em queda livre. A falta de manutenção e o vandalismo aceleraram o processo.
DO AUGE À EXTINÇÃO: UMA LINHA DO TEMPO
Anos 1970-1980: Implantação e expansão
- Implantação e expansão para interior do estado
- Fichas metálicas como forma de pagamento
- Orelhões viram símbolo de modernização
Anos 1990-2000: Auge e início do declínio
- 1992: Chegada dos cartões telefônicos
- Febre do colecionismo
- Pico de uso e quantidade de equipamentos
- Primeiros celulares começam a aparecer
Anos 2000-2010: Declínio acelerado
- Popularização da telefonia móvel
- Redução gradual de uso
- Início da desativação de equipamentos
- Vandalismo e falta de manutenção
2020-2024: Queda vertiginosa
- 2020: 7.678 orelhões em Goiás
- 2024: 3.510 orelhões (redução de 54,3%)
- Fim da produção de cartões telefônicos
- Poucos pontos de venda de fichas
2025-2026: Extinção oficial
- Janeiro/2025: Anatel inicia remoção massiva
- Goiás fica com apenas 346 orelhões
- Dezembro/2025: Restam 179 equipamentos
- Goiânia: zero orelhões em funcionamento
POR QUE OS ORELHÕES DESAPARECERAM?
- Revolução tecnológica
- Massificação dos smartphones e internet móvel
- Aplicativos de mensagem e chamada (WhatsApp, Telegram)
- Comunicação instantânea e gratuita
- Chamadas de vídeo
- Acesso permanente à internet
- Inviabilidade econômica
- Uso despencou para níveis ínfimos
- Custo de manutenção não se justificava mais
- Vandalismo constante
- Dificuldade de encontrar peças de reposição
- Mudança regulatória
- Anatel alterou regras de concessão do STFC
- Operadoras desobrigadas de manter quantidade anterior
- Autorização para remoção dos equipamentos
- Foco em universalização via telefonia móvel
- Fim do ecossistema
- Produção de cartões telefônicos encerrada
- Pontos de venda de fichas desapareceram
- Usuários migraram completamente para celulares
- Perda da função social dos orelhões
- Fatores operacionais
- Vandalismo generalizado
- Falta de manutenção
- Equipamentos obsoletos
- Impossibilidade de modernização
O Brasil chegou a ter mais de 1 milhão de orelhões no auge, entre o fim dos anos 1990 e início dos 2000. Com a operação de retirada iniciada pela Anatel em janeiro de 2026, restam hoje cerca de 2 mil aparelhos em funcionamento, preservados apenas em áreas remotas sem cobertura adequada de telefonia móvel.
O icônico orelhão brasileiro foi criado em 1971 pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, formada pelo Mackenzie e funcionária da Companhia Telefônica Brasileira. O desafio era desenvolver um telefone público resistente, barato, funcional, simples e esteticamente adequado ao espaço urbano. A solução foi o design em formato de concha ovóide, inspirado em um ovo, que garantia proteção acústica entre 70 e 90 decibéis e alta durabilidade, graças ao uso de fibra de vidro.
A primeira versão, para ambientes fechados, ficou conhecida como “orelhinha” (Chu I). Já o modelo externo, resistente ao sol e à chuva, foi o Chu II, o famoso “orelhão”, também apelidado de tulipa ou capacete de astronauta. Os primeiros aparelhos foram instalados no Rio de Janeiro e em São Paulo, em janeiro de 1972, e rapidamente se espalharam pelo país.
O sucesso do projeto levou à apresentação dos orelhões na Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 1973, e à exportação do modelo para outros países. Em 1975, surgiram os orelhões azuis, destinados a chamadas interurbanas, diferenciados dos laranjas usados para ligações locais. Durante décadas, os orelhões foram fundamentais para a comunicação no Brasil, em um contexto em que ter telefone em casa era caro, demorado e restrito a poucos, tornando o telefone público um símbolo de acesso coletivo à comunicação.
