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Morre Manoel Carlos, autor de novelas, aos 92 anos de idade. (Foto: Reprodução)

Morre Manoel Carlos, autor de novelas, aos 92 anos de idade

Relembre trajetória de um dos pioneiros da televisão brasileira

11.01.2026 - 11:43:32
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São Paulo – Manoel Carlos, um dos mais conhecidos autores de novela do Brasil, morreu neste sábado (10/1), aos 92 anos de idade, depois de um ano de luta contra a doença de Parkinson. A informação foi confirmada pela produtora da família, a Boa Palavra. “O velório será fechado e restrito à família e amigos íntimos. A família agradece as manifestações de carinho e solicita respeito e privacidade neste momento delicado”, consta em comunicado.

Quem foi Manoel Carlos

Um dos pioneiros da televisão brasileira, Manoel Carlos iniciou sua carreira como ator na década de 1950, quando fez parte no Grande Teatro Tupi, na extinta TV Tupi, onde atuou com grandes nomes, entre eles, Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Sérgio Britto, Fernando Torres, e Flávio Rangel. Além de atuar, Maneco, como era chamado pela família e amigos, adaptava peças de teatro para a televisão, os chamados teleteatros.

Certa vez, em entrevista a Jô Soares, Maneco afirmou que não era um ator “brilhante”, mas que também não chegava a ser “péssimo”. “Como eu que adaptava (as obras), sempre escrevia um papel para mim”, disse.

Nos anos 1960, foi contratado pela TV Excelsior onde criou o programa Bibi 60, conduzido pela atriz Bibi Ferreira, onde ficou até 1963.

Em seguida, na TV Record, formou, ao lado de Nilton Travesso, Tuta de Carvalho e Raul Duarte, a Equipe A. Eles eram responsáveis por produzir e dirigir programas que entraram para história da televisão brasileira, como o humorístico A Família Trapo, a competição musical Esta Noite se Improvisa e musical O Fino da Bossa, com Elis Regina e Jair Rodrigues no comando. Trabalhou ainda com Jô Soares, Hebe Camargo e Ronnie Von.

Com o declínio da TV Record e o esvaziamento dos festivais de música brasileira, Maneco se transferiu para a TV Globo e a participou da criação do semanal Fantástico, ao lado de profissionais como Nilton Travesso, Armando Nogueira, Daniel Filho e Alice-Maria.

Em 1978, Manoel Carlos deu início ao ofício que o consagraria. Passou a ser autor de telenovelas diárias. A estreia foi com Maria, Maria, baseada no romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha. Com ares de superprodução, a trama fez sucesso no horário das seis da tarde.

Quatro meses após o término de Maria, Maria, outra adaptação de Maneco entrou no ar, também no horário das seis. A Sucessora, uma adaptação do romance homônimo de Carolina Nabuco. A protagonista foi a atriz Susana Vieira, que interpretou Marina, uma moça simples que se casa com o milionário Roberto Steen, personagem de Rubens de Falco.

No fim dos anos 1970, Maneco fez parte da equipe de roteiristas do seriado Malu Mulher, um marco na teledramaturgia brasileira ao abordar questões como feminismo, divórcio, aborto, violência doméstica, orgasmo, entre outros. A série foi estrelada pela atriz Regina Duarte, que, posteriormente, protagonizou três novelas do autor, História de Amor (1995), Por Amor (1997) e Páginas da Vida (2006).

A primeira Helena de Manoel Carlos

Depois de colaborar com Gilberto Braga em Água Viva (1980), Maneco estreou, no ano seguinte, Baila Comigo, novela na qual começa sua saga com as protagonistas de nome Helena. Foi a primeira novela solo do autor no cobiçado horário das oito.

Segundo o autor, a preferência pelo nome Helena não era por causa de nenhuma mulher em especial, mas sim pela admiração que ele tinha pela história mitológica de Helena de Troia, pela força e independência da personagem.

A primeira Helena coube à atriz Lilian Lemmertz. Uma mulher comum e batalhadora, que vivia presa em uma mentira que sustentou por anos a fio. O ponto alto da novela foi quando os gêmeos Quinzinho e João Vitor, filhos de Helena, interpretados por Tony Ramos, mas criados separados, finalmente se encontram.

Outros dois pontos importantes de Baila Comigo: a estreia da atriz Fernanda Montenegro na TV Globo e o casal interracial interpretado por Milton Gonçalves e Beatriz Lyra. Ao personagem de Milton, o artesão Otto, Maneco dedicou a principal cena do último capítulo da novela.

Os anos de Manoel Carlos longe da Globo

Em 1982, Maneco criou Sol de Verão, novela que prometia, como o título indica, ser mais solar. No entanto, o protagonista da trama, o ator Jardel Filho, para quem o autor havia criado a novela, morreu vítima de um infarto fulminante, quatro meses após a estreia. Abalado, Maneco deixou a novela, que foi finalizada por Lauro César Muniz.

A saída, porém, não foi de comum acordo. Em entrevista ao Estadão em 1986, ele revelou o descontentamento com a emissora: “Propus à Globo acabar a novela em uma semana. Eles argumentaram que não seria possível. Aumentei para duas semanas. Eles reargumentaram que teria de estendê-la, pelo menos, por mais três [semanas]. Eu disse ‘não’.”

“Não acredito quando falam que ‘o show deve continuar’. Não. Ele tem de ser interrompido quando a dor é muito forte. Tem de se respeitar a dor alheia. Não há nenhuma alegria em ver o circo pegar fogo. Temos, pelo contrário, de ajudar a apagar o incêndio”, prosseguia.

O período longe da Globo, porém, não significou o afastamento das novelas. Escreveu Novo Amor, Viver a Vida e Joana para a TV Manchete, e O Cometa para a Bandeirantes, além de El Magnate, para o público de origem mexicana dos Estados Unidos. Manoel Carlos reatou com a Globo somente cerca de oito anos depois, em 1991, quando escreveu Felicidade.

‘Laços de Família’ e ‘Mulheres Apaixonadas’

As décadas de 1990 e 2000 foram especiais para Manoel Carlos. São pelas produções que foram ao ar nesse período que o autor é lembrado. Laços de Família (2000), como Vera Fischer no papel de Helena, e Mulheres Apaixonadas (2003), com Christiane Torloni como protagonista.

Em Laços de Família, Maneco abordou o namoro de uma mulher mais velha, Helena, com um rapaz mais jovem – estreia de Reynaldo Gianecchini em novelas -, que havia sido namorado de sua filha, Camila, personagem de Carolina Dieckmmann.

A cena em que Camila, que sofria de leucemia, raspa a cabeça, foi uma das mais marcantes da história da telenovela brasileira e a maior audiência da Globo nos anos 2000. O assunto levantado pelo autor levou ao aumento das doações de medula óssea no País.

Em Mulheres Apaixonadas, Maneco abordou assuntos como adoção, alcoolismo, violência doméstica, etarismo e homofobia. Cronista, ele incluiu uma cena em que a personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) é atingida por uma bala durante um tiroteio no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, um dos metros quadrados mais caros do País. A cena causou protestos por parte do setor de turismo do Rio, em tempos nos quais a violência urbana começou a assustar a cidade.

Apesar do sucesso e dos temas sociais que sempre abordou em suas tramas, Maneco foi acusado de elitista por sempre retratar a zona sul carioca. A falta do protagonismo preto também foi alvo de reclamação por parte do público.

A Helena de Taís Araújo

Em Viver a Vida, de 2009, Taís Araújo foi escalada para ser a modelo de sucesso Helena, que abandona a profissão ao se casar com o empresário Marcos, papel de José Mayer, outro ator que fez parte da lista de preferidos de Maneco. A personagem é considerada como a primeira protagonista negra de uma novela das 8 da Globo.

A novela não foi bem de audiência. Helena, competiu com a jovem Luciana, personagem de Alinne Moraes, filha de Marcos, que fica tetraplégica após um acidente. Em 2024, quando a novela foi reprisada no canal Viva, Taís se manifestou nas redes sociais e disse ter ressignificado a personagem, para a qual ela havia feito críticas no passado. “Não tinha nada de errado comigo. Eu, inclusive, estava atuando muito bem”, escreveu.

A última novela de Manoel Carlos

A última novela escrita por Manoel Carlos, Em Família, foi ao ar em 2014. Coube à atriz Júlia Lemmertz, filha de Lilian Lemmertz, a primeira atriz a interpretar uma Helena do Maneco, dar vida a Helena.

Maneco também escreveu novelas e seriados para outros países, entre eles, Estados Unidos, México, Chile, Argentina, Venezuela, Peru, Colômbia e Equador.

Em entrevista a Jô Soares, Maneco afirmou que os homens sabiam escrever melhor sobre mulheres. “Eles têm uma visão até mais generosa do que elas mesmas”, disse. Citou como exemplo personagens femininas criadas por autores como Gustave Flaubert, Balzac e Proust.

Nascido em São Paulo, no bairro do Pari, Maneco viveu no Rio de Janeiro por mais de 50 anos. Foi casado com a atriz e apresentadora Cidinha Campos. Desde 1981 era casado com Elisabety Gonçalves de Almeida. Era pai da escritora e roteirista Maria Carolina e da atriz Júlia Almeida. Maneco perdeu outros três filhos: Ricardo, em 1987, vítima de complicações causadas pelo vírus da Aids; Manoel Carlos Júnior, que em 2012 sofreu um ataque cardíaco; e Pedro Almeida, que morreu de mal súbito em 2014. (Agência Estado)

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por Agência Estado

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