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Joel Edgerton em 'Sonhos de Trem' (Foto: divulgação)
Joel Edgerton em 'Sonhos de Trem' (Foto: divulgação)

Filme ‘Sonhos de Trem’ tenta oferecer contemplação sem ousadia

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10.12.2025 - 11:30:58

Estreou na Netflix o filme Sonhos de Trem, nova produção de Clint Bentley estrelada por Joel Edgerton e baseado no conto de Denis Johnson. O filme acompanha a vida ordinária de um homem comum: Robert Grainier, um lenhador que nunca conheceu o mar nem viajou mais do que algumas dezenas de quilômetros para longe de onde nasceu.

Embora ainda se encaixe inteiramente na estética e no formato de filmes produzidos pelo algoritmo, há sinais de rebeldia que elevam a qualidade do longa para interessante, uma produção que ao menos se esforça contra as amarras apertadas da plataforma de streaming. Porém, não consegue rompê-las: como no título do filme, a locomotiva cinematográfica segue firme e forte nos trilhos.

Por exemplo, a descrição que dei acima é tudo o que ocorre ao longo da história: não há uma trama, apenas a vida comum de um homem normal, com suas pequenas vitórias e derrotas. Ele não é especial, ele não é talentoso, não é bom nem ruim. Ainda assim, Sonhos está longe de ser ousado: chega nem perto de ser um filme antinarrativo, mas para quem está acostumado com o padrão frenético de hoje em dia, a sua “falta” de narrativa e o ritmo lento que ele impõe já devem ser o suficiente para tirar boa parte da audiência da sua zona de conforto.

O longa de fato está mirando para algo contemplativo. O sucesso de Dias Perfeitos vem à mente, mas o filme de Wim Wenders é várias camadas superior a este, em todas as frentes: se ele é uma locomotiva, Sonhos de Trem é um vagão de carga. Ele luta contra as amarras da Netflix, mas ainda está amarrado: sua montagem não foge dos cortes rápidos e planos curtos, e de outras escolhas genéricas e convencionais em detrimento do próprio filme.

Sua fotografia é forte, trazendo os altos pinheiros e a névoa contemplativa do Noroeste Pacífico, fortalecida por boas atuações de Edgerton, que precisa carregar o filme nas costas quase que em silêncio, obrigado a atuar sozinho e fisicamente quase o tempo todo, e com a pequena, porém estelar, participação de William H. Macy como uma figura de mentor.

Alguns fatores determinantes, porém, impedem que esse filme evolua de interessante para verdadeiramente bom e imperdível. A câmera amarrada, cheia de cortes, age contra o filme: o uso de uma linguagem mais solta, livre, teria muito para contribuir com toda a vibe do longa, convidando a audiência a mergulhar no seu mundo. Como está, o filme parece se esforçar para nos lembrar o tempo todo que ele é um filme.

Outro fator que te puxa pelos cabelos para fora do filme o tempo todo é a narração constante e intrusiva de Will Patton, preocupadíssimo que a audiência não seja capaz de entender e interpretar tudo o que está acontecendo bem em frente aos nossos olhos. Seria ótimo se ele simplesmente calasse a boca e nos deixasse ver o filme. Esse medo de que a audiência seja idiota demais ou hiperativa demais para acompanhar a pacata vida de Robert é tremendamente ofensivo.

Há uma reviravolta no meio do filme que quase me chutou inteiramente para fora dele. Não é possível que, em pleno 2025, ainda estejamos usando twists tão preguiçosos de roteiro para amadurecer nossos personagens e manter nossa audiência engajada, ainda mais em um filme que se esforça tanto para ter um compromisso com o banal, com o tédio, com o comum, ao mesmo tempo em que morre de medo de deixar a audiência mergulhar em qualquer um desses sentimentos.

É algo que atrapalha toda a parte boa do filme: o que o torna envolvente é a peculiar identificação com esse homem que cada vez se torna mais apático, mais antissocial, mais distante do mundo que está avançando, se transformando rápido demais para ele acompanhar. Então me deixe sentir este incômodo! Me deixe apalpar essa incerteza, esse terror existencial, essa apatia entediante e terrível que borbulha sob o silêncio de Robert!

Enfim, Sonhos de Trem traz um sabor diferente e nutritivo para as produções copia e cola da Netflix, mas o caldo acaba mais insosso do que poderia ser, sufocando todo o potencial cinematográfico que essa história comum tinha para se tornar extraordinária. Melhor assistir Dias Perfeitos.  

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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