Samuel Straioto
Goiânia – A disputa pela sucessão estadual em Goiás movimenta diferentes bases e grupos políticos desde o início de 2025. A base governista, o PSDB, o Partido Liberal e o campo de esquerda traçam estratégias distintas para viabilizar candidaturas ao Palácio das Esmeraldas nas eleições de outubro de 2026.
Os pré-candidatos Daniel Vilela, Marconi Perillo, Wilder Morais e Edward Madureira consolidam suas posições em meio a articulações que envolvem filiações partidárias, apoio de prefeitos eleitos em 2024 e reorganização de bases municipais.
O cientista político Felipe Andrade explica que 2025 representa um ano estratégico no calendário eleitoral. “É o período em que os pré-candidatos constroem suas bases de apoio, articulam alianças partidárias e estabelecem conexões com lideranças municipais. O que for consolidado neste ano pré-eleitoral determina a força com que cada candidatura chegará à janela partidária de abril de 2026”, analisa.
Segundo Andrade, a janela partidária marca o último momento para trocas de legenda sem perda de mandato, seis meses antes do pleito. “É quando muitas definições importantes acontecem e o tabuleiro político começa a ganhar contornos mais claros. Quem não tiver base estruturada até lá enfrenta dificuldades para construir uma campanha competitiva”, observa.
Movimentações
Daniel Vilela, vice-governador e presidente estadual do MDB, intensificou em 2025 a filiação de novos prefeitos e deputados. O movimento resultou no reforço da base aliada do governador Ronaldo Caiado e em mudanças na composição de outras legendas, como o Partido Liberal.
O MDB registra movimento de filiações de prefeitos e ampliação de apoios de gestores municipais para as eleições de 2026. O vice-governador tem articulado com prefeitos recém-eleitos e reeleitos, mesmo aqueles que permanecem em outras legendas mas sinalizam preferência pelo projeto governista.
Daniel Vilela tem autonomia para construção da base eleitoral do MDB. Desde 2022, esteve à frente do Poder Executivo por nove oportunidades, sendo o vice que mais ocupou o posto na história de Goiás. Com a possível candidatura presidencial do governador Ronaldo Caiado, Daniel deve assumir o governo estadual a partir de abril de 2026.
A agenda política intensificada nos últimos meses incluiu reuniões com diversos gestores municipais. Entre as principais demandas apresentadas pelos prefeitos estão investimentos em infraestrutura e programas de habitação.
Entre os exemplos recentes de filiação está o prefeito de São Miguel do Araguaia, Jerônymo Siqueira, que deixou o PL em setembro e se filiou ao MDB. O deputado estadual Paulo Cezar Martins, com seis mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa, anunciou retorno ao MDB após encontro no Palácio das Esmeraldas, com filiação prevista para a janela partidária.
Felipe Andrade avalia que o fortalecimento do MDB em Goiás passa pela capilaridade municipal. “Daniel Vilela tem conseguido atrair lideranças locais que enxergam no projeto governista a melhor alternativa para viabilizar suas gestões e garantir investimentos estaduais em seus municípios. A estratégia de filiações e apoios demonstra uma construção territorial consistente”, analisa.
Em outra frente, Marconi Perillo oficializou pré-candidatura pelo PSDB em setembro de 2025. O ex-governador, que comandou o estado por quatro mandatos, realizou o anúncio durante evento que marcou seus 30 anos de filiação ao partido. O tucano tem realizado encontros e visitas em diferentes regiões do estado e declarou buscar conversas com partidos e lideranças políticas para formação de alianças.
Pesquisa AtlasIntel divulgada em setembro mostrou o ex-governador com 15,6% das intenções de voto, na terceira colocação. Perillo afirmou buscar parcerias com atores políticos insatisfeitos com a base governista, mas destacou limitações impostas pelo alinhamento nacional do PSDB.
Segundo Felipe Andrade, Marconi Perillo trabalha na reconstrução da presença tucana no estado. “O PSDB atravessa um momento de reorganização em Goiás. Perillo busca resgatar a força do partido através de sua experiência administrativa e conhecimento territorial. O desafio está em formar alianças que permitam construir uma alternativa viável ao cenário atual”, observa o cientista político.
Pelo Partido Liberal, o senador Wilder Morais oficializou recentemente pré-candidatura ao governo de Goiás. O deputado federal Gustavo Gayer foi anunciado como pré-candidato ao Senado. A decisão atendeu a cobranças de correligionários por ações mais efetivas para o pleito de 2026.
A legenda elegeu 26 prefeitos nas eleições municipais de 2024 e atualmente conta com 14 gestores. Prefeitos eleitos pelo partido têm manifestado apoio a outros projetos políticos. Nas bancadas federal e estadual, os deputados Daniel Agrobom e Paulo Cezar Martins declararam apoio à candidatura de Daniel Vilela.
Felipe Andrade aponta que o PL trabalha na estruturação da candidatura, em meio ao conturbado quadro político nacional, com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. “O partido articula a formação das chapas proporcionais e busca manter sua organização interna. A pré-candidatura de Wilder Morais surge como movimento de consolidação diante das movimentações do cenário político estadual”, analisa.
Já o Partido dos Trabalhadores, base do presidente Lula em Goiás, avaliou diferentes possibilidades para a disputa de 2026. Após discussões internas, ganhou força a proposta de lançar candidatura própria ao governo estadual. O nome do vereador goianiense Edward Madureira, ex-reitor da Universidade Federal de Goiás, aparece como opção considerada pela direção da sigla.
Madureira, que se posicionava como pré-candidato a deputado federal, declarou estar disposto a assumir a candidatura ao governo após repercussão positiva da ideia entre filiados e apoiadores. O projeto precisa ser construído com a direção nacional do PT, com definição prevista até o fim de janeiro. A deputada federal Adriana Accorsi representa a principal liderança petista no estado.
Segundo Felipe Andrade, o PT busca consolidar sua presença em Goiás. “O partido trabalha para ampliar sua atuação política no estado e fortalecer a base de apoio do presidente Lula. A recente possibilidade de lançar Edward Madureira como candidato ao governo representa uma mudança de estratégia em relação às discussões iniciais”, observa o cientista político.
Próximos passos
Felipe Andrade avalia que os pré-candidatos enfrentam desafios específicos até a janela partidária de abril de 2026. “Daniel Vilela precisa consolidar a coesão de uma base ampla que pode reunir 16 partidos. O desafio está em manter a unidade em uma coligação extensa. Ele deve assumir o governo em abril se Caiado confirmar candidatura presidencial, o que pode favorecer sua exposição como gestor antes da campanha”, analisa.
Sobre Marconi Perillo, o cientista político observa que o tucano necessita ampliar alianças para construir competitividade. “Perillo tem experiência administrativa e conhecimento territorial, mas precisa atrair lideranças que hoje estão dispersas ou na base governista. O PSDB enfrenta o desafio de se reposicionar em Goiás e oferecer uma alternativa viável ao eleitorado. Os próximos meses serão decisivos para essa construção”, afirma Andrade.
Em relação a Wilder Morais, o cientista político aponta a necessidade de consolidar a organização partidária. “O PL trabalha na estruturação da candidatura e na formação das chapas proporcionais. A manutenção de lideranças locais e a definição de estratégias claras são prioridades para o partido até a janela partidária. As orientações nacionais da legenda também influenciam as decisões em Goiás”, destaca.
Sobre o PT e Edward Madureira, Andrade observa que a legenda tem prazo curto para oficialização. “O partido precisa definir até janeiro se lançará candidatura própria e, em caso positivo, construir alianças que viabilizem uma chapa de esquerda competitiva. O desafio está em consolidar o nome de Madureira como opção reconhecida pelo eleitorado goiano e ampliar a base territorial do partido no estado nos próximos meses”, conclui.
O cientista político resume que a janela partidária de abril de 2026 funcionará como marco importante. “Quem chegar lá com base municipal consolidada, alianças definidas e recursos articulados terá condições de disputar de forma estruturada. Os próximos meses são decisivos para separar candidaturas viáveis de pré-candidaturas que não se sustentarão”, finaliza Andrade.
