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A Mulher que preferia encontrar um urso

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18.11.2025 - 08:00:00

 

Meu assento era o do corredor, e os dois outros — meio e janela — já estavam ocupados. Dei um "bom dia" e recebi de volta um "hello" do sujeito ao lado. Enquanto organizava minhas coisas, ele se virou para a mulher na poltrona da janela:

— So, what do you do? (E o que você faz?)

— I'm a sailor (Sou navegadora).

"Não é possível", pensei comigo, já esticando o pescoço para confirmar o que a profissão e a voz já tornavam certo: era Tamara Klink, a velejadora de 28 anos que passou oito meses sozinha no inverno da Groenlândia, voluntariamente presa no gelo, e que, mais recentemente, também em solitário, completou a Passagem Noroeste, velejando entre a Groenlândia e o Alasca.

Tive que me apresentar e dizer o quanto a admirava.

Se você ainda não a conhece, os feitos náuticos de Tamara são o que menos importa — o que mais impressiona é a pessoa. A mulher é uma força da natureza.

Sem transparecer qualquer vaidade, ela faz suas aventuras parecerem passeios — porque fala com consciência dos riscos e também de seus medos e fraquezas, mas o faz propondo sempre um outro olhar, que aponta para a ilusória segurança de nossas vidas protegidas.

Tamara tem uma leveza e curiosidade constantes que são a marca de sua atitude no mundo. Tem também essa lucidez rara, sobretudo para seus 28 anos, dos riscos que enfrenta: sejam os relacionados à imprevisibilidade e inclemência da natureza, sejam aqueles relacionados ao fato de ser uma mulher que viaja sozinha. Não se sente corajosa, e costuma dizer que uma das grandes dificuldades para conseguir realizar suas aventuras foram pessoas — homens, sobretudo, mas não só — que diziam que não estava à altura: por ser mulher, por ser fraca, por ser jovem, etc. Tamara duvidou, se questionou, sentiu medo e quis desistir muitas vezes, mas seguiu em frente e se tornou a mais jovem mulher a atravessar o Atlântico sozinha e a primeira a invernar no Ártico.
 

À medida que ela relatava suas viagens para o companheiro do assento do meio, eu me dava conta, pelas reações dele, do quanto sua história é realmente inusitada. Como acompanho sua trajetória e também sei que o gosto pela aventura está em seu sangue, por ser filha de Amyr Klink, eu naturalizava seus feitos e já os achava, de certa forma, normais ou fatos da vida.

Yaron Ziv é professor de Ecologia na Universidade Ben Gurion, em Israel, e também vinha para a COP 30, em Belém. A cada novo detalhe das histórias de Tamara, ele se virava para mim, atônito, e perguntava:

— Você sabia disso?

Ele não conseguia acreditar que aquela mulher, um pouco com cara de menina, pudesse ter atravessado o oceano num barco meio precário e, à época, com muito pouca experiência de vela — o pai não a ajudou em nada para ingressar no mundo náutico. Nem que pudesse ter passado um inverno sozinha na Groenlândia e cruzado a Passagem Noroeste pelo Oceano Ártico.

Eu só confirmava e ria.

E me lembrava de uma de falas mais iluminadoras de Tamara, quando conta que, depois de meses do rigoroso inverno ártico, a primavera começou a chegar e, com ela, em ondas sucessivas, espécies animais que tinham migrado para latitudes mais amenas: patos, gansos e, logo, raposas. Até que um dia, com seu barco ainda preso ao gelo, ela viu uma silhueta distante se aproximando na brancura do fiorde. Poderia ser um urso polar ou poderia ser um homem. Por dentro, ela, claro, torceu para que fosse um urso — até porque tinha se preparado para a ocasião, inclusive com um rifle, se fosse necessário.

No fim, era um homem, apenas preocupado com quem quer que fosse a pessoa no bote. Mas ela entendeu que o inverno tinha chegado ao fim e que, em breve, seria hora de partir.

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