Logo

A armadilha das apostas

WhatsAppFacebookLinkedInX
17.10.2024 - 08:19:46

O Brasil enfrenta uma crise crescente com o acesso a jogos de apostas online. Dados recentes da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), revelam que 63% dos apostadores comprometem seu orçamento doméstico com apostas e muitos acabam endividados. Mas por que isso está acontecendo de forma tão rápida e intensa? A resposta pode ser encontrada tanto nos processos cerebrais que moldam nossas decisões, quanto nos mecanismos econômicos.

Nosso cérebro, embora extraordinário, é vulnerável a certos mecanismos de recompensa. Quando apostamos e ganhamos, o sistema de recompensa do cérebro é ativado pela dopamina, um neurotransmissor responsável por sensações de prazer e motivação, que cria uma sensação imediata de euforia, o que nos faz querer repetir o comportamento. Com as apostas online, essa ativação é ainda mais rápida e intensa, pois o retorno é imediato. O problema é que, na maioria das vezes, as pessoas perdem mais do que ganham, mas o cérebro ainda insiste em focar nas vitórias, o que nos leva a continuar apostando.
 
Esse ciclo é reforçado por vieses cognitivos como o otimismo exagerado, que nos faz superestimar as chances de ganhar. O fato de os jogos darem a falsa sensação de controle – como se o jogador tivesse poder sobre o resultado – cria uma armadilha emocional. É a chamada ilusão de controle, muito comum em jogos de azar, onde o jogador acredita que suas escolhas afetam diretamente o resultado, quando, na realidade, tudo é aleatório.
 
Veja essa cena: Luana é uma jovem de 22 anos e estuda administração. Tem dois principais sonhos: ajudar financeiramente a sua família e realizar sua independência. Nas redes sociais, ela vê influenciadores promovendo apostas online com promessas de ganhos fáceis. Tentada pela ideia de complementar sua renda, começa a apostar pequenas quantias em jogos de futebol e cassinos online. Em pouco tempo, o que parecia uma diversão inofensiva se transforma em um vício, levando Luana a gastar tudo o que tinha e, eventualmente, pedir empréstimos para cobrir as dívidas.
 
Assim como a estudante de administração, milhares de brasileiros estão caindo nessa armadilha emocional e financeira. Ainda de acordo com o estudo da SBVC, o gasto com apostas online passou de 0,8% da renda familiar em 2018 para até 2,7% em 2023. Para sustentar o vício, 23% dos participantes disseram deixar de comprar roupas, 19% pararam de fazer compras no supermercado, 14% renunciaram a produtos de higiene e beleza e 11% deixaram de cuidar da saúde e de comprar medicações.
 
Caminhos para fugir dessa armadilha
Diante de um cenário tão desafiador, é possível evitar cair nessa armadilha emocional e financeira? Sim, existem maneiras de se proteger. Abaixo, listo algumas dicas.
 
Educação Financeira: compreender os riscos e as armadilhas do comportamento humano é o primeiro passo. A educação financeira pode ajudar a avaliar melhor as consequências de suas decisões e a estabelecer limites claros para gastos com apostas.
 
Reconhecer os Sinais: identificar que o jogo está saindo de controle é essencial. Caso perceba que as apostas estão tomando espaço nas suas finanças ou no seu bem-estar emocional, é hora de buscar ajuda, seja com familiares, amigos ou profissionais. Vícios em jogos, assim como outros demais tipos, podem ser tratados com apoio psicológico e, em alguns casos, com grupos de apoio especializados.
 
Evitar a Ilusão de Controle: lembrar-se constantemente de que os jogos de azar são puramente aleatórios é importante para não cair na falsa crença de que suas ações podem mudar o resultado.
 
Estabelecer Limites: definir um orçamento para o lazer e nunca ultrapassar esse valor pode prevenir problemas maiores. Se o comportamento se tornar compulsivo, considerar parar totalmente pode ser a melhor solução.
 
O vício em jogos de apostas online no Brasil é um problema que vai além da economia e toca em questões emocionais e cognitivas profundas. Nosso cérebro, em busca de recompensas imediatas, muitas vezes nos leva a decisões impulsivas e arriscadas.

Geralmente, usa atalhos mentais – conhecidos como heurísticas – para tomar decisões rápidas, mas sem muita precisão. Assim como Luana, milhares de brasileiros enfrentam esse dilema diariamente. A solução passa por conscientização, educação e apoio para que possamos, juntos, combater essa epidemia de vício em jogos, a fim de proteger o bem-estar financeiro e emocional das famílias brasileiras.

*Diogo Angioleti é gerente de gente e gestão do Sistema Ailos

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Diogo Angioleti

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
09.10.2026
A voz que desafia o século da barbárie

O anúncio de Navi Pillay como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026 não é apenas o reconhecimento de uma biografia monumental. Em um tempo marcado pela brutalidade em escala universal — guerras que se arrastam sem perspectiva de solução, crises climáticas e sanitárias tratadas como pauta secundária, desigualdade que concentra renda e poder […]

Karina Picon
08.10.2026
Quem cuida de quem cuida?

Olhar para uma tomada cheia de adaptadores e cabos ligados ao mesmo tempo ajuda a entender o que acontece com a gente no dia a dia. Quando o cansaço bate forte, a gente costuma achar que a nossa força simplesmente acabou ou que não estamos dando conta. Mas quase nunca paramos para olhar o principal: […]

Rimene Amaral
08.10.2026
A riqueza não sobrevive à vida

A notícia de uma doença misteriosa que matou uma funcionária do Instituto de Pesquisa sobre a Peste Irkutsk (uma peste pneumônica), na Sibéria, colocou uma pulga atrás de muitas orelhas. A funcionária, de 28 anos, morreu na última semana devido a uma pneumonia, e as autoridades não divulgaram mais informações sobre a morte. O Rospotrebnadzor, […]

José Mário Schreiner
06.10.2026
Agro conectado, economia integrada

Durante muito tempo, era natural que os setores primário, secundário e terciário tivessem seus próprios espaços de discussão, negócios e exposição. Isso porque cada atividade tem suas particularidades, desafios e oportunidades. Mas a realidade mudou. As cadeias produtivas estão cada vez mais conectadas, e as fronteiras entre os setores, menos nítidas. É nesse contexto que […]

Sam Cyrous
06.10.2026
O que faz uma vida (e uma história) significativa?

Recentemente colegas e amigos têm pedido que explique o que o tal do StoryTelling — uma moda dos últimos anos no Brasil, e algo algo com o qual trabalho desde 2007. Pensei muito se escreveria sobre a minha formação com Peseschkian, o autor do clássico “O Mercador e O Papagaio”, a minha participação ativa com […]

Marcos Spadoni
05.10.2026
AVC em jovens: o risco também se constrói nos hábitos do dia a dia

Fast food em excesso, consumo frequente de bebidas alcoólicas, cigarro, sedentarismo, noites mal dormidas, estresse constante e ganho de peso. Hábitos que parecem fazer parte da rotina de muitos adultos jovens podem, ao longo do tempo, criar um terreno perigoso para a saúde vascular. Isso porque favorecem condições como hipertensão, diabetes, obesidade e alterações no […]

Ana Carla Abrão
03.10.2026
O país na segunda-feira

Ana Carla Abrão Há mais de dois mil anos, Aristóteles escreveu que nenhuma comunidade política se sustenta apenas sobre leis e instituições. Para que uma cidade exista de fato, dizia ele, é preciso haver entre seus cidadãos alguma forma de amizade. Não a amizade que nasce do afeto, da intimidade ou da afinidade. Mas aquilo […]