Logo

A parede de fogo

WhatsAppFacebookLinkedInX
25.06.2024 - 07:56:36

 

Sam Gamgee (Sean Astin) segura o frasco com a luz de Eärendil em O Senhor dos Anéis 
(Imagem: Warner/Divulgação)
 

No último dia 30, completou-se um ano desta coluna. Foram 52 artigos, uma centena e meia de páginas, quase uma semana, possivelmente, em horas passadas diante do computador. Os formatos vão de crônicas leves e pessoais a quase-ensaios pesados e talvez incompreensíveis sobre ciência e política; os temas, do meio ambiente ao cinema, passando pela psicanálise e pela literatura, sem esquecer um ou dois contos perdidos – ou achados – no meio do caminho

 
Em uma de suas crônicas recentes, Antônio Prata refletiu sobre o que chamou de "totalitarismo utilitarista", nossa obrigação contemporânea de encarar tudo o que fazemos como um meio para algo mais importante. Não vamos a uma exposição de arte ou a um show de música simplesmente pela experiência estética, que se esgota em si, mas para absorver algo que será digerido e transformado "em nutrientes pra segunda de manhã", diz ele. Tudo precisa ser útil.
 
Esta coluna, nesse sentido, começou de fato com uma justificativa utilitarista. Afinal, é importante ter voz e opinião, colocar-se na esfera pública, participar dos debates, a despeito de que haja cada vez menos liberdade de expressão em nosso ambiente polarizado (ou talvez seja importante insistir em falar exatamente por isso). 
 
Escrever também sempre foi, apesar da inevitável angústia diante da página em branco, meu modo de organizar as ideias, conectar fios soltos, buscar algum sentido, ainda que provisório. Como escrever se só tenho dúvidas e quase nenhuma resposta? Mas sempre foi escrevendo que encontrei alguma explicação.
 
Aos poucos, entendi que escrever por meio de perguntas pode ser um estilo – e um estilo que agrega, que convida as pessoas a pensarem junto com você. A postura afirmativa, em sentido diferente, causa imediata simpatia ou repulsa, adesão ou oposição. Expor a dúvida, conversar por indagações, de outro lado, promove aproximação lenta e a possibilidade de diálogo, mesmo na divergência. Interrogações desinflam egos, exclamações e pontos finais os evidenciam.
 
Não é fácil, entretanto, como já falei neste mesmo espaço, assumir a dúvida como postura existencial. Obriga-nos à humildade, a aceitar a precariedade das verdades, a encarar cotidianamente o insondável mistério da existência. Todavia, só a dúvida parece fornecer bases sólidas para uma ética da convivência democrática. Afinal, como afirmava o filósofo francês Bruno Latour, diante de críticas às suas posições, a única opção ao relativismo é o absolutismo.
 
A disciplina da escrita semanal, com compromisso de entrega, reafirmou, para mim, essa convicção na dúvida. Não é preciso saber para escrever. Basta ter dúvidas. Não afirme, pergunte. O que move o conhecimento não é a verdade, é a curiosidade.
 
Nas palavras do famoso entomólogo americano Edward O. Wilson: "O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável depois de um único bocado. Esperamos de coração que nunca venhamos a descobrir tudo".
 
Escrever com frequência tem me deixado mais em paz com a dúvida e a ausência de absolutos, e mais confortável com a escuridão.
 
Entendi, inclusive, que a angústia, que muitas vezes me bloqueava ou me fazia adiar incessantemente o confronto com a página em branco, se enraizava exatamente na obrigação de olhar de frente para a incerteza, para o vazio. Escrever sobre o quê? Para quem? O que vão pensar? 
 
Uma vez atravessada essa ilusória parede de fogo, emergi ileso e sem queimaduras do outro lado. Agora, o que começou como um meio passou a se bastar, convertendo-se em um fim em si mesmo.
 
O facho de luz é débil e a treva espessa. Todavia, seguimos.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]