Catherine Moraes
O mau cheiro que se tornou comum nas épocas secas do ano, atingindo sobretudo bairros da Região Norte da capital, levou à autuação da empresa Cargill, que lida com processamento de tomates, em R$ 5 milhões. A sanção foi aplicada pela Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), devido a irregularidades constatadas no tratamento dos efluentes da indústria. Além da multa, a secretaria vai firmar com a empresa um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o objetivo de dar fim ao problema que há anos afeta moradores de bairros como o Goiânia 2, Urias Magalhães e adjacências. Caso as modificações não sejam realizadas, a empresa pode ter a licença cassada.
A Cargill passou a atuar na região depois de comprar, em março deste ano, parte da empresa Unilever. Em seu primeiro ano no tratamento de tomates, recebe sua primeira autuação. O problema do mau cheiro, entretanto, não surgiu neste ano. Em 2008, a própria Unilever foi autuada pela Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) no valor de R$ 10 milhões, mas recorreu à Justiça e a multa ainda não foi paga. Hoje, o caso aguarda julgamento no Supremo Tribunal de Justiça (STJ).
Em 2011, atestam os moradores, o odor ficou ainda mais intenso. Um dos motivos apontados é a baixa vasão do Rio Meia Ponte, que diminuiu gradativamente devido à ocupação em suas margens, em condomínios residenciais que se instalam nas regiões Norte e Noroeste da capital. A alta temperatura e baixa umidade, características do inverno goiano, catalisam a concentração de poluentes nas águas e margens do rio.
Desta vez, a denúncia foi feita por moradores à Semarh que mandou representantes ao local para averiguar a situação. Na semana passada, durante 24 horas técnicos usaram um equipamento que mede o volume de gases na atmosfera e descobriram que o mau cheiro tinha a empresa como origem. Após o monitoramento, a secretaria descobriu que existe um desequilíbrio biológico na estação de tratamento de dejetos desta empresa.
De acordo com o gerente de Combate à Degradação Ambiental da Semarh, Luciano Henrique, a empresa já cumpriu a primeira exigência proposta que é o uso de biorremediadores nos lagos, insufladores, duas centrífugas e a redução do volume de tomate no pátio. Inicialmente foi reduzido de 1100 toneladas por dia para 800 toneladas, e agora para 500 toneladas por dia.
Audiência
Na quarta-feira (31/8), foi realizada uma audiência pública na Câmara de Goiânia para tratar do assunto. Entre os presentes, estavam os vereadores Djalma Araújo, que propôs a audiência, Deividson Costa, Denício Trindade, Geovani Antônio, Fábio Tokarski, Santana Gomes, o presidente da Agência Municipal do Meio Ambientes (Amma) Pedro Henrique Gonçalves, representantes da Cargill, e da Semarh.
Nesta sexta-feira (2/9), representantes da Amma e alguns vereadores farão uma visita à empresa. Um dossiê da audiência será feito para que sirva como documento do que foi dito na audiência. Vereadores já estudam a criação de uma Comissão Especial de Inquérito para avaliar os focos de mau cheiro na região.
A superintendente de fiscalização da Semarh, Gabriela Val Borges pontuou todas as ações de monitoramento, o auto de infração, o TAC e a garantia de que a Cargill terá suas ações encerradas caso não cumpra as exigências do termo. “A Cargill está ciente de que pode parar de produzir, caso não siga as orientações do TAC”, afirma Gabriela. Ela disse ainda que a empresa será monitorada semanalmente.
Saneago
A superintendente da Região Metropolitana da Saneago, Rivadavia Matos Azevedo afirmou que a estatal recebe 80% do esgoto de Goiânia e que a ETE do Goiânia 2 não está sobrecarregada e trabalha com a metade da capacidade máxima de tratamento. “Temos capacidade de tratar 2300 litros por segundo, e tratamos apenas 1200 litros por segundo”, defende.
Empresa
Representante da Cargill, Afonso Champi disse que a empresa assumiu o ativo e a produção de derivados de tomate da Unilever. “Não queremos ser vistos como maus vizinhos. Temos ações compromissadas com a Semarh, que nos visita regularmente. Contratamos uma empresa especializada para diagnosticar o que tem causado esses transtornos à comunidade”, pontua. Esta consultoria deve apresentar um primeiro diagnóstico em 60 dias.
A Cargill também afirma que contratou uma empresa de consultoria ambiental, especializada e independente, para fazer um diagnóstico preciso, desenhar um sistema de monitoramento de odores e identificar possíveis aprimoramentos nos processos dentro das instalações da empresa.
Moradores
O vereador Fábio Tokarski, morador da região Norte há 21 anos, disse que a situação estava grave, com o odor causando náuseas e outros problemas de saúde aos moradores. Ele cita também a baixa vazão do Rio Meia Ponte como outras causas do problema. “Não podemos apontar a existência da empresa como única causa do problema. A unidade industrial também é responsável por garantir o sustento de milhares de famílias”, disse.
Professor aposentado da UFG e também morador do Goiânia 2 há mais de duas décadas, Edson Pereira relembra que antes da instalação da Estação de Tratamento de Esgoto, o mau cheiro na área era atribuída à empresa Arisco, devido à produção de geléia de Mocotó. “Mas durava pouco tempo. Agora, começa por volta das 4h30 e fica impregnado a manhã inteira. Acordo cedo e percebo isso”, diz Pereira.
Outros moradores do bairro atestam que a intensidade piorou nos últimos 5 anos. “O que mais chama a atenção é que sempre que reclamamos, quando a imprensa noticia, o mau cheiro que segue intenso dá uma aliviada. Isso significa que trata-se de algo corrigível, que as empresas conseguem controlar mas não fazem”, ressalta o professor.