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Uma motosserra chamada Irene

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01.09.2011 - 18:59:07

Já estou quase desistindo, quase me convencendo de que a retirada de árvores em Goiânia é como um vulcão em erupção, um movimento de placas tectônicas, um Irene de passagem. 

Minha mãe me ligou agora há pouco com uma voz horrível:

– Elisa…

Gelei, achei que ia receber a notícia de alguém muito doente ou mesmo morto.

– As sibipirunas!

Por um segundo, cheguei a não ligar, ufa, afinal não tinha morrido ninguém. Mas voltei a mim, pois o fato é que as árvores me são muito queridas.

Em frente a um lote da construtora Merzian, que até já mencionei em um texto passado, serras elétricas incontinentes derrubaram mais um exemplar arbóreo da nossa cidade "verde". E podaram radicalmente outros dois. Todos de grande porte e lindos. 

Havia uma quarta sibipiruna no passado, que o edifício vizinho ao lote fez de tudo e acabou derrubando. Suas folhinhas eram um imenso transtorno, entupiam a piscina (que aposto que nesses mais de 15 anos foi pouquíssimo usada, como acontece com toda piscina de condomínio).

No presente, não há fiação elétrica desse lado da rua João de Abreu (que todo mundo sempre chamará de rua 20), no setor Oeste. Mas é verdade que o tronco da sibipiruna estava bem bichado, talvez já oferecesse risco, e foi isso que a Amma observou para autorizar a derrubada. Segundo o engenheiro da Merzian com quem conversei, sr. Gilberto, as duas sibipirunas que restaram devem ficar ali por enquanto. Embora, com a instalação do barracão da obra que está pra começar, estejam “atrapalhando o passeio” (quem será que está atrapalhando quem, né?).

Todas as nossas mais valiosas árvores são antigas, e invariavelmente são mongubas ou sibipirunas. São elas que fazem alguma diferença quando se trata de sombrear e amenizar o clima de verdade. Se são as mais antigas, estão consequentemente mais sujeitas a doenças. Até porque as árvores que habitam o meio urbano ficam mais fragilizadas do que em seu meio natural, devido a toda a sorte de agressões que sofrem. 

Telefonei pra bióloga Mariana Siqueira, pra perguntar o que, então, pode ser feito. Segundo ela, não é possível à Amma (onde já trabalhou) promover cuidados preventivos a cada uma das árvores da cidade – não há agora e não haveria nunca pessoal o bastante para uma tarefa tão hercúlea. Uma boa ideia seria exigir que, antes de retirar uma árvore, seja plantada uma muda relativamente grande para substituí-la de antemão. O contrário do que vemos na prática: retira-se e depois planta-se mudas minguadas.

Mas, assim como em relação a diversas outras faltas de cuidado com nossa cidade, penso cá com meus botões que inúmeras medidas poderiam ser tomadas. Se não é possível cuidar de cada árvore, é muito possível orientar via meios de comunicação, panfletagem ou sinais de fumaça, sobre os cuidados que todo mundo deve ter com a arborização urbana – como o tamanho do canteiro, comumente diminuto em relação ao caule; a localização do plantio em relação ao passeio público, aos postes e aos fios de alta tensão; o respeito à área permeável ao redor do tronco (tem gente que cimenta tudo!). E advertir quando as regras não estiverem sendo respeitadas. E punir também, por que não?

Imagine, foram três árvores a menos só no meu bairro, em cinco dias. Tirando as que eu não vi, que não tenho dúvidas de que houveram. 

P.S. Mais sobre as sibipirunas no excelente programa da Regina Casé, Um Pé de Quê?

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por Elisa A. França

*Jornalista formada pela UFG, especializada em comunicação ambiental, com passagem pelo Greenpeace e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

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