José Abrão
Goiânia – Com o avanço das mudanças climáticas e a ocorrência mais frequente de situações extremas, como secas e enchentes, um novo tema entra na pauta global do meio ambiente: o racismo ambiental. A relação entre catástrofes ambientais e racismo ambiental está enraizada nas disparidades sociais e econômicas que afetam diferentes comunidades. Quando são registradas catástrofes ambientais, as comunidades mais vulneráveis sofrem, muitas vezes, de maneira desproporcional. Nesse cenário, é considerado racismo por se tratar de populações majoritariamente pertencentes a minorias étnicas como indígenas, ribeirinhos, quilombos, negros e outros povos tradicionais.
Esse racismo ambiental não se manifesta apenas durante catástrofes, mas de outras formas, como a falta de saneamento básico; lenta ou difícil resposta em caso de crise por parte do poder público; pouco acesso à informação e baixa implementação de medidas preventivas de infraestrutura.
A professora Juliana Ramalho Barros, geógrafa do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG), afirma que esta é uma questão presente em todo o mundo, inclusive em Goiás e no Cerrado e também nos centros urbanos. “Em casos de inundações aqui em Goiás mesmo, percebemos que quem está ocupando as áreas de maior risco é uma população que tem um perfil socioeconômico mais baixo, um grau de escolaridade menor e é uma população predominantemente negra”, resume.

Na zona rural, a pressão sobre essas populações muitas vezes pode vir do agro, que pode levar a um deslocamento forçado de uma comunidade ribeirinha ou quilombola, por exemplo. “Comunidades tradicionais estão mais vulneráveis às pressões causadas pelo avanço das cidades e pelo avanço do agronegócio, pelo uso dos agrotóxicos, por contaminação da água e baixa dos lençóis freáticos e mananciais”, aponta.
“Causas naturais”
Frente a todos estes problemas, a professora salienta que chamar as mudanças climáticas de “causas naturais” não é a definição correta. Isso porque, conforme pontua Juliana Barros, trata-se de impactos gerados pela ação humana direta no meio ambiente. Para a docente, é uma matemática muito simples. “É muito calor e depois muita enchente. No calor, a árvore faz sombra e absorve calor, na chuva, as folhas e a terra ajudam a absorver a água. Quando se retira a árvore, não tem sombra, só calor. Quando chove, a água desliza sobre o asfalto”.
A tendência, inclusive para Goiânia, é de agravamento: com redução das áreas verdes e aumento das construções, maior a enxurrada na capital, que já possui uma estrutura de drenagem defasada. O cenário é igual em várias partes do Estado. “Aqui [em Goiás] a gente enfrenta muita resistência, porque a gente tem um setor agrícola muito forte, e que a maior parte dos produtores não entende que essa mudança vai bater na porta deles uma hora. Quem tem dinheiro vai passar por isso de uma maneira bem mais confortável”, explica Barros. “E a gente também tem um setor imobiliário muito resistente e que avança cada dia mais, com um aumento das construções, então não existe uma iniciativa efetiva para mitigar esses impactos”, conclui.
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Contingências
O governo federal possui o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais como principais frentes para lidar com esses assuntos. Ainda assim, acaba que cabe à sociedade civil organizada buscar mecanismos de pressão e de conscientização para tentar mudar a situação.
“O que a gente tem feito é tentar criar uma mudança de mentalidade para que a população brasileira saiba que a crise climática é real e que precisamos de políticas públicas de enfrentamento”, diz o coordenador de justiça climática da Organização Não-Governamental (ONG) Greenpeace Brasil, Igor Travassos. “A gente precisa que essas ações estejam ligadas aos direitos constitucionais de acesso ao saneamento, à moradia, à alimentação”, diz.

Igor Travassos (Foto: divulgação)
A ONG tem atuado junto ao governo para que o PNA seja revisto: criado originalmente em 2016, ele caducou em 2020 e não avançou desde então. “Estamos trabalhando para que ele seja reconstruído considerando, sobretudo, a participação das pessoas mais impactadas. Estamos focados para que ele saia logo no papel para que sirva de base para planos estaduais e municipais”, explica Travassos.
Outro aspecto importante no sentido de aprovar o plano, segundo o representante da ONG, é que ele também trará diretrizes para questões de saúde, econômicas e de mobilidade urbana, por exemplo. Segundo Travassos, cerca de 85 organizações civis compõem hoje uma rede com o objetivo comum de conquistar essas diretrizes em nível federal, atuando, inclusive, junto a deputados federais em prol dessas pautas ambientais.
Com essas ações, Travassos espera obter o que os ambientalistas chamam de justiça climática. “Que a crise climática não aprofunde desigualdades, não atinja desproporcionalmente certos grupos sociais. Queremos que os territórios estejam preparados para garantir o direito à vida porque estamos falando de pessoas que estão morrendo e ficando empobrecidas pela falta de caminhos e ações que precisamos tomar enquanto sociedade para garantir direitos”, conclui.