Logo

Pacientes com câncer de origem em HPV sofrem com atraso no atendimento

WhatsAppFacebookLinkedInX
09.12.2023 - 18:55:00

Brasília- A quarta edição da publicação info.oncollect, chamada O Impacto do HPV em Diferentes Tipos de Câncer no Brasil, da Fundação do Câncer mostra que a maioria das pessoas que chegam ao hospital com o diagnóstico é tratada após mais de 60 dias. Esse tempo vai em sentido oposto ao da Lei 12.732/12, que garante o início do tratamento dentro desse prazo depois da constatação da doença. Segundo os pesquisadores, a demora indica falha no fluxo da rede de atendimento.

 
O estudo analisou cinco tipos de câncer: orofaringe, ânus e canal anal, vagina, vulva e pênis.
 
De acordo com a pesquisa, a maior parte dos pacientes chega às unidades de saúde em estágios avançados da doença – cerca de 6 mil casos de câncer relacionados ao HPV (Human Papilomavirus) poderiam ser evitados, a cada ano, por meio da prevenção primária. Além disso, são estimados por ano 17 mil casos de câncer do colo do útero, o tipo mais frequente associado ao HPV.
 
Para a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda, existem vários fatores que levam à ocorrência de casos com estágios avançados da doença. Segundo a médica, são tipos de cânceres com lugares um pouco mais sensíveis em termos de busca de atendimento médico. “Talvez este seja o primeiro motivo – a pessoa pode notar algum sinal de alerta e não valorizar ou ficar constrangida de buscar um atendimento”, disse Flávia, em entrevista à Agência Brasil.
Outro motivo é a demora na confirmação dos casos após o período de 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento. “Este é um gargalo que existe na rede de assistência. Sabemos que biópsias e histopatológicos para confirmação diagnóstica são o maior entrave", afirmou a consultora, alertando que, quanto mais demorado for o diagnóstico, maior a probabilidade de chegar ao tratamento em estágio avançado.
 
No aspecto econômico, a pesquisa mostra que a prevenção do surgimento desse tipo de câncer poderia reduzir, em grande parte, os gastos com saúde no Brasil. Para o diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni Júnior, a prevenção também favoreceria a aplicação de recursos em outros tratamentos.
 
“Além de evitar 4,5 mil mortes por ano, o que equivale a um expressivo número de 75% de mortalidade, a prevenção reduziria os gastos com diagnóstico, tratamento e internações, inclusive abrindo espaço para pacientes com outros tipos de câncer no sistema de saúde”, disse.
 
“O câncer é uma doença que tem um dos maiores impactos na saúde porque os tratamentos são caros, envolvem cirurgia, quimioterapia, hoje em dia imunoterapia. Todo esse mercado em oncologia cresce a cada ano. Realmente, o câncer é uma doença que tem custo muito preponderante quando a gente analisa gastos em saúde”, completou a médica.
 
Perfil
Flávia Miranda destacou que a maioria dos pacientes com algum desses cânceres, considerando homens e mulheres, é de pessoas com mais de 50 anos de idade (78%), com baixa escolaridade (64%) e é negra (56% e 53%, respectivamente).
 
“É o que a gente vê em todas as doenças, não só no câncer, que tem maior prevalência em pessoas mais velhas e infelizmente em populações mais vulneráveis com baixa condição socioeconômica e baixa escolaridade. A questão de raça e de cor aqui no país é preponderante. São pessoas que têm mais dificuldade de acesso aos serviços de saúde”, acrescentou.
 
Estágios e estadiamento
Em todas as regiões do Brasil, mais de 80% de pacientes, tanto homens (88%) quanto mulheres (84%) com câncer de orofaringe, tumor que se desenvolve em parte da garganta, são diagnosticados em estágios avançados da doença. Segundo o estudo, que 65% dos homens começam o tratamento em até 60 dias, quando encaminhados sem diagnóstico prévio. Nas regiões  Nordeste (44%) e Sudeste (36%), observam-se os maiores tempos de espera entre a constatação da doença e o tratamento.
 
A situação muda quando as pessoas são os encaminhadas com algum diagnóstico. Nesse grupo, apenas 39% têm o tratamento iniciado em até 60 dias. Entre as mulheres, as que chegam com o diagnóstico da doença têm um tempo maior de espera (62%). Nas regiões Centro-Oeste (70%), Sudeste (65%) e Norte (64%), o tempo de espera delas é maior que o tempo médio do país.
 
Comportamentos
Nos cânceres de ânus e canal anal, o estadiamento atinge um percentual significativo de pacientes, que vão à unidade de saúde em estágios avançados da doença. Nos homens, chega a 55% e nas mulheres, a 54%. Entre os pacientes sem diagnóstico prévio que vão às unidades de saúde, 66% começam o tratamento em até 60 dias, mas nos encaminhados com o diagnóstico em mãos somente 40% inicia o tratamento dentro deste prazo. Nas mulheres sem o diagnóstico, 64% conseguem começar o tratamento em até 60 dias. O percentual cai muito entre as que chegam com o diagnóstico em mão (37%) e conseguem começar o tratamento dentro do mesmo tempo.
 
Outro que registra percentual elevado (43%) nos casos diagnosticados em estágios avançados é o câncer de pênis, especialmente nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde estão os maiores índices de câncer em estadiamento avançado (55%). O menor é no Sudeste (34%). A diferença do tempo que ocorre do diagnóstico ao tratamento é bastante grande entre os homens sem diagnóstico prévio iniciando o tratamento em até 60 dias (82%) e aqueles com diagnóstico que começam tratamento no mesmo período (37%).
 
Já entre os casos de câncer de vulva mais da metade (50%) chegam em fase inicial da doença. O maior percentual (60%) de mulheres com neoplasia que chegam com estadiamento inicial da doença é da região Sudeste. O tempo de espera entre o diagnóstico e o tratamento, a pesquisa observou maior período de espera para tratamento das mulheres que chegam ao hospital já com o diagnóstico em mãos, se comparado às que chegam sem o diagnóstico. Somente 26% são atendidas em até 60 dias, em todo o país. O menor percentual brasileiro (16%) de mulheres que chegam ao hospital com diagnóstico e iniciam o tratamento em até 60 dias foi notado na Região Norte.
 
O maior percentual de mulheres com câncer de vagina que chegam às unidades de saúde em estágios iniciais da doença é da Região Centro-Oeste (63%). Entre as que vão às unidades de saúde sem o diagnóstico e sem tratamento, 64% recebem o atendimento em até 60 dias após o diagnóstico. A Região Sudeste tem o maior percentual de mulheres que tiveram tratamento após 60 dias do diagnóstico (42%). O estudo revelou ainda que é alto (66%) o percentual de mulheres com a doença que chegam com diagnóstico na unidade hospitalar e recebem o tratamento após 60 dias.
 
Na avaliação dos pesquisadores, a quarta edição do info.oncollect pode ajudar na formulação de políticas públicas específicas. Além de detecção precoce, o estudo aponta a necessidade de acesso rápido e igualitário aos cuidados de saúde. É preciso levar em consideração também as disparidades regionais, porque, com essas informações, será possível desenvolver intervenções direcionadas e garantir melhores resultados para todos os pacientes.
 
Vacinação
Como medida preventiva, Flávia Miranda ressaltou a importância da vacina no contexto dos cânceres relacionados ao HPV, mas disse que a questão ainda enfrenta resistências, apesar da comprovação da eficácia do imunizante, e que é preciso modificar esse cenário.
 
“É informação, comunicação e educação. Basicamente isso. As vacinas estão disponíveis para meninas e meninos de 9 a 14 anos em todas unidades de saúde. Também podem ser vacinadas as pessoas imunossuprimidas, as que vivem com HIV/aids, transplantados e pacientes oncológicos até os 45 anos, mas existe muita polêmica porque ligam a vacina do HPV a uma infecção sexualmente transmissível, em vez de ligar à prevenção de câncer”, afirmou a médica.
 
A polêmica estende-se ainda a críticos da vacina por entenderem que esta vai promover o início de atividade sexual mais precoce. Está comprovado que isso não acontece, acrescentou a consultora da Fundação Câncer. "Pelo contrário, as crianças e adolescentes que são vacinados contra o HPV iniciam mais tarde a atividade sexual e, quando iniciam, protegem-se e fazem a anticoncepção. Quer dizer, tudo demonstra que quem se vacina já tem um olhar de cuidado com a saúde. É fake news [a associação da vacina à iniciação social precoce].”
 
A médica acrescentou que na prevenção ao HPV é necessário também ir além do câncer do colo do útero. (Agência Brasil)
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Caroline Louise

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
SHOW
02.10.2026
Banda SHOTGUN se apresenta em Goiânia

A Redação  Goiânia  – A Banda SHOTGUN é atração confirmada no De Leon Music Pub. O grupo se apresenta neste sábado (3/10), às 22h, na casa localizada no Setor Sul, em Goiânia. Com um estilo único e ritmo contagiante, a banda relembra grandes nomes do rock como Guns N’ Roses, AC/DC e Led Zeppelin, entre outros […]

Politíca
02.10.2026
Governo do Canadá divulga alerta para cidadãos que pretendem viajar ao Brasil

A Redação Goiânia – O Governo do Canadá atualizou seu alerta de viagens para o Brasil e incluiu orientações específicas para o período eleitoral. Entre as recomendações divulgadas nesta sexta-feira (2/10) está a de que seus cidadãos evitem manifestações e grandes aglomerações antes, durante e depois da votação. O governo canadense também orienta a manutenção […]

Oportunidade
02.10.2026
Programa de formação GovTech Hub Goiás oferece até 500 vagas para inovação no setor público

A Redação  Goiânia – A Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), está com 500 vagas para organizações de todo o Brasil interessadas em desenvolver soluções tecnológicas para o setor público. A formação é gratuita e destinada a startups, empresas de tecnologia e instituições científicas, tecnológicas e de inovação (ICTs) privadas. A iniciativa é […]

Trânsito
02.10.2026
Prefeitura de Goiânia autua construtora e intensifica fiscalização em canteiros de obras

A Redação Goiânia – A Secretaria Municipal de Eficiência (Sefic) realizou na quinta-feira (1/10), uma operação integrada de fiscalização em canteiros de obras e empreendimentos da capital. A ação tem como objetivo verificar o cumprimento da Instrução Normativa Conjunta nº 03/2026, que regulamenta as operações de carga e descarga e o uso adequado do espaço […]

Estado
02.10.2026
TJGO realiza 3ª Semana Nacional da Regularização Tributária

A Redação Goiânia – O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) realizará uma ação de negociação de débitos com o Estado. Ao todo, cerca de 38 mil contribuintes já foram notificados para negociar suas dívidas. A mobilização acontece entre os dias 5 e 9 de outubro, e mesmo quem não tiver recebido o aviso […]

Negociação
02.10.2026
Prefeitura de Aparecida abre prazo para adesão ao Refis na segunda-feira (5/10)

A Redação Goiânia – A Prefeitura de Aparecida de Goiânia inicia na segunda-feira (5/10) o período de adesão ao Programa de Recuperação Fiscal (REFIS), que oferece condições especiais para contribuintes regularizarem débitos com o município. O prazo segue até 6 de novembro e contempla pessoas físicas e jurídicas, com descontos de até 90% em juros […]

Doação
02.10.2026
Novas regras para doação de sangue entram em vigor e ampliam público apto em Goiás

A Redação Goiânia – A Rede Estadual de Serviços Hemoterápicos (Rede Hemo) divulga os novos critérios para doação de sangue, estabelecidos pela Portaria GM/MS nº 11.685 do Ministério da Saúde. As mudanças reduzem prazos de inaptidão e ampliam o número de pessoas que podem ser consideradas aptas a doar, sem comprometer a segurança transfusional. A […]

Eletricidade
02.10.2026
Três principais vilões da energia em Goiás: veja o que mais impacta o fornecimento

A Redação Goiânia – Mais da metade das interrupções de energia em Goiás tem origem em eventos climáticos, como vendavais e raios, fatores externos e imprevisíveis que lideram as ocorrências no estado, segundo levantamento da Equatorial Goiás. Diante desse cenário, a atuação sobre a rede elétrica passa a exigir monitoramento contínuo, capacidade de resposta rápida […]