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Armadas ou Amadas

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15.10.2023 - 09:24:40
 Acabo de assistir a série “Cangaço Novo” na Prime Video, ironicamente no feriado de Nossa Senhora Aparecida e dia das crianças (quem assistiu entenderá). Com direção de Fábio Mendonça e Aly Muritiba, a superprodução brasileira está pra lá de Quentin Tarantino ou Glauber Rocha onde o sertão encontra com Hollywood no mesmo nível cinematográfico. Lampião deve tá dançando forró no céu (ou no inferno) com essa homenagem arretada dos diabos. Impecável fotografia e atores de tirar o folego, a química do elenco deu certo, deu certíssimo e feliz ou infelizmente a gente acaba tomando partido de toda sanguinolência, seja na ficção, seja baseada em fatos reais.

É difícil ficar do lado de alguém quando todos os lados estão errados. Imaginem uma criança com uma infância sem oportunidades vivendo num lugar quase que desértico. Daí, um dia ela presencia o assassinato de toda sua família por um grupo político, ou um grupo religioso, ou um grupo de assassinos, cangaceiros ou terroristas. Seja lá o nome que se dê a estas criaturas desumanas, o fato é que uma criança assistiu a tudo isso e para ela isso passou a fazer parte de sua vida, tal como uma criança burguesa assiste ao bullying no seu colégio burguês. Não querendo comparar a gravidade dos fatos, mas a diferença seria a localidade, uma nasceu no sertão, num deserto de dar dó, na pobreza, a outra nasceu na mata atlântica do lado das ondas, na maresia, na riqueza. No entanto, todas as duas são capazes de amar, de matar, de se posicionar. Difícil mesmo é adotar uma postura ética, se filiar à um partido confiável ou ficar de um lado da história, quando tudo parece ser uma grande nuvem de fumaça.

 
O trabalho transgressor do artista inglês Bansky, que mantem identidade desconhecida desde 1990, transita entre o grafite, a crítica social e ativismo político em stencil de grande escala registrado nas paredes e fachadas das maiores metrópoles do mundo. O artista cria contextos de cunho social engajado, sem muito humor, ou com um humor quase sarcástico que leva o espectador a levantar questões éticas e morais a respeito das falhas humanas e procedimentos constitucionais da sociedade. Flower Thower (Atirador de Flor) é uma de suas imagens intrigantes, que ora remete à violência do terrorismo, ora abraça a causa da paz num ato romântico de altruísmo. O conflito da guerra armada, ou amada nas obras de Bansky ultrapassa o pragmatismo da arte contemporânea que se estabelece em galerias de arte, museus ou casas de leilões. A obra do artista é urbana, para todos, uma arte democrática que conversa com o público e levanta questões urgentes sobre o nosso modo de vida.

Leia mais:
Os rapazes do Renka
 
A imagem é imponente e pode ser atribuída a um espaço atemporal. O atirador de flores poderia ser um dos Hamas ou um  cangaceiro, ou um talibã, ou um xiita, sunita ou tutsi ou hútu. 
 
Um ícone do grafite internacional, as intervenções do artista inglês validam a ruptura ao protocolo da contemporaneidade e faz despertar um novo olhar sobre o submundo.
 
"Há soldados armados, amados, ou não. Quase todos perdidos com armas na mão". Geraldo Vandré

*Tatiana Potrich é designer de joias e curadora de eventos culturais.

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por Tatiana Potrich

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