Catherine Moraes
Há pouco mais de seis meses, cinco crianças foram deixadas pela mãe, que saiu para o trabalho e não retornou. Entre os filhos, uma adolescente de 14 anos que já é mãe de uma menina de um ano de idade. A menina cuida não só da filha, mas também dos quatro irmãos. O abandono mobilizou a comunidade. Fiéis de uma igreja próxima ajudam com os custos de aluguel, água e energia. A alimentação fica por conta de moradores e vizinhos que, tristes com a situção, acionoram o Ministério Público e o Conselho Tutelar. Agora, um novo medo ronda a família, a separação dos irmãos em abrigos diferentes.
Os menores, que já moraram em Goianira e Abadia de Goiás, vieram para Goiânia em fevereiro, quando a mãe alugou uma casa na região sudoeste da Capital. Desde então, as crianças não frequentam escola e vivem de ajuda. Vez ou outra a mulher manda dinheiro por um moto táxi, mas raramente atende aos telefonemas dos filhos. A garota conta que a mãe é usuária de drogas e que há seis meses saiu para trabalhar e não retornou. Da família, eles têm apenas uma prima que mora em Abadia de Goiás e também não atende às ligações.
Tímida, a adolescente conta que foi violentada sexualmente por um amigo da mãe e engravidou da filha que hoje tem um ano de idade. O homem foi detido posteriormente pelo crime de furto, mas já está em liberdade. O crime de estupro parece nunca ter sido registrado. Triste, ela se diz preocupada com os irmãos. O menor deles, que tem seis anos, foi vítima de abuso por um vizinho e o outro de 11 anos estaria servindo de aviãozinho para um traficante da região. Ainda assim, ela afirma que não que ir para um abrigo. Quer apenas a mãe de volta. Os outros irmão têm sete e 15 anos de idade.
Enquanto a reportagem do jornal A Redação estava na casa dos menores, a adolescente conseguiu falar com a mãe por telefone. Com os olhos verdes encharcados de lágrimas, a menina de 14 anos pede para que a mãe volte. A resposta, entretanto, é negativa. “Não é fácil fazer o papel de mãe, enquanto eu durmo os meninos saem e eu não consigo controlar tudo.”
Denúncia
Uma vizinha das crianças denunciou a situação ao Conselho Tutelar. O órgão, segundo a mulher, negou ajuda alegando falta de viaturas. Sem resposta, ela denunciou a situção ao Ministério Público. O promotor de Justiça da Infância e Juventude Alexandre Vieira recebeu o caso e deu ao Conselho Tutelar 48 horas para que um relatório seja elaborado e enviado ao MP.
O conselheiro tutelar Juarez Mariano de Almeida, do Conselho de Campinas, responsável pela região, informou que já conseguiu contato com a mãe dos menores. Ela afirmou estar no interior do Estado. Entretanto, não quis informar em qual cidade. A mulher se comprometeu a vir a Goiânia na próxima segunda-feira (29/8) resolver a situação dos filhos. "Achei prudente dar esse tempo de espera. Com a presença da mãe a situação já pode se encaminhar melhor. Abandonadas como estão, aquelas crianças estão muito vulneráveis", afirmou o conselheiro.
Solidariedade
Uma das vizinhas, Elaine Quinta Soares, levou nesta quinta-feira (25/8) o café da manhã na casa dos menores. Ela diz não conseguir se concentrar no trabalho ou até mesmo nos estudos pensando das crianças. “É muito triste a situação em que eles estão vivendo. Não sei como uma mãe consegue abandonar os filhos assim”, lamenta.
Elaine conta ainda que a mulher que realizou as denúncias está arrasada porque descobriu que os meninos podem ser separados em abrigos diferentes. “A gente pensou que eles iriam todos para o mesmo lugar, mas a situação atual também é péssima”, diz. A vizinha pede ajuda aos menores.