Logo

Assassinato de petista teve motivação política, mas não é “crime político”

WhatsAppFacebookLinkedInX
18.07.2022 - 09:38:27

São Paulo – O assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda, militante petista, não pode ser enquadrado como "crime político", de acordo com a legislação penal brasileira, afirmam especialistas em Direito Penal ouvidos pelo Estadão, ainda que, na visão deles, a motivação do crime teria sido política. Nesta sexta-feira (15/7) a Polícia Civil do Paraná indiciou o agente penal federal Jorge Guaranho, apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL), por homicídio qualificado por ter matado Arruda, em Foz do Iguaçu (PR), há uma semana, durante a festa de 50 anos da vítima.

O tema da comemoração remetia ao PT e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As autoridades descartaram motivação política e imputaram duas qualificadoras – motivo torpe e causar perigo comum. Com elas, a pena varia de 12 a 30 anos de reclusão. A primeira está ligada à "discussão por motivo vil", enquanto a segunda tem relação com o fato de oito pessoas estarem presentes no local do crime e, assim, poderiam ter sido atingidas pelos disparos efetuados por Guaranho.

Segundo a delegada Camila Cecconello, não há provas suficientes de que Guaranho queria cometer um "crime de ódio contra pessoas de outros partidos". Para ela, o crime não foi motivado por divergências políticas, mas em razão de uma alegada humilhação sofrida por Guaranho por ter sido atingido por terra durante a discussão com Arruda.

Os juristas ouvidos pelos Estadão divergem a respeito dos apontamentos das autoridades. De acordo com especialistas em Direito Penal, no atual texto legal, o crime político ocorre apenas quando coloca em risco a segurança do estado democrático de direito, tipificação criada a partir da revogação da Lei de Segurança Nacional em 2021. Segundo eles, a lei não define a divergência política como hipótese para crime político, ou seja, não é uma espécie de crime à parte.

No caso de um crime de homicídio, a divergência política se torna apenas um objeto para configurar a motivação do crime, o que indica a necessidade de um texto mais claro para crimes desse espectro, apontam os juristas. Para os especialistas ouvidos pelo Estadão, é inegável a motivação política para o assassinato. A discussão permanece aberta apenas na definição da qualificação subjetiva do caso – se enquadrado como "torpe" (relacionado à desqualificação vil da vítima) ou "fútil" – que implica desproporcionalidade.

Para o professor de Criminologia e Direito Penal da USP Mauricio Dieter, não se trata de um crime político, mas houve uma motivação política contemplada na qualificadora motivo torpe. "A motivação é vil, baixa", afirmou. "O motivo torpe é todo motivo que desmerece ontologicamente o sujeito. Se estou fazendo isso, estou dizendo que a opinião política do sujeito autoriza que ele seja eliminado, isso, me parece, é um motivo torpe."

Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e doutor em Direito, Marcelo Mayola corroborou a tese. "Em síntese, e salvo melhor juízo, de fato estamos diante de um homicídio qualificado pelo motivo torpe, sendo este a própria motivação política, qual seja a intolerância própria da extrema direita bolsonarista."

O ex-ministro da Justiça e professor titular sênior da USP Miguel Reale Júnior disse que a motivação política, porém, levaria a uma qualificadora de crime "fútil". "É muito mais um motivo fútil, que, por ter divergência política, ele vai lá e mata a pessoa. Se tira o ato político do adversário, não haveria crime. Se não fosse a festa tendo por mote o Lula, o sujeito não teria ido lá matar o outro. A motivação é essa, a homenagem em torno da figura do Lula", afirma. Para ele, a inserção da motivação política no inquérito é importante "para passar a mensagem".

"A lei penal tem uma função educadora, de mostrar que o motivo pelo qual ele fez esse ato, um motivo fútil, tem de ser recriminado, para passar a mensagem de que não se pode admitir que se destrua o outro por divergência de caráter político", disse. "O que há de problemático, é que ela (delegada) quer tirar o cunho político para estabelecer que o sujeito voltou porque foi humilhado. O que ela quer é atender interesses políticos de tirar o fato da caracterização de motivação política, para dizer que foi por motivo torpe, vingança, por se sentir humilhado", afirmou o jurista.

Na visão da polícia, a intenção de Guaranho era provocar os participantes da festa, não efetuar os disparos quando chegou ao local. Segundo Camila, "parece mais uma coisa que acabou virando pessoal entre duas pessoas que discutiram, claro, por motivações políticas". Professor de Direito Penal na Escola de Direito da PUC-RS, Alexandre Wunderlich disse que a tendência é por uma classificação mais objetiva do crime político.

"Por exemplo, quando se ensina que os crimes políticos podem ser considerados como todos os delitos que atentem contra a ordem política, social ou jurídica interna ou externa do Estado, tem-se um conceito indeterminado", disse. Agora o relatório da Polícia Civil segue para o Ministério Público, que, como titular da ação penal, fica incumbido do oferecimento da denúncia. O órgão pode pedir mais diligências, concordar ou discordar das conclusões da polícia e apresentar outras motivações para o crime. Em nota, o MP afirma que vai analisar o processo e trabalhar na peça de acusação.

Para entender
O crime com motivação política tem por motivação questões, divergências ou antagonismos políticos. Praticar uma agressão contra outra pessoa por divergência ideológicas, por exemplo, não é por si só um crime político – porque pode não ter essa repercussão de risco em relação à democracia – mas pode ter uma "motivação" política, por ter o fundamento, a razão da sua prática, na divergência de natureza política. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. (Agência Estado)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Economia
14.10.2026
Prazo pra bancos devolverem R$ 1,3 bilhão de bets acaba nesta quarta-feira (14/10)

Brasília – Acaba nesta quarta-feira (14) o prazo para os bancos e as instituições financeiras devolverem cerca de R$ 1,325 bilhão que permaneceu nas contas de apostadores após o encerramento das plataformas de apostas on-line, determinado pela Medida Provisória (MP) 1.394/2026, do governo federal. A restituição, que começou na última sexta-feira (9), deve beneficiar aproximadamente 26,5 […]

JUSTIÇA
14.10.2026
Órgão Especial elege Marcus Vinícius Ayres Barreto para desembargador do TJGO

A Redação Goiânia – O juiz Marcus Vinícius Ayres Barreto foi escolhido para assumir o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), pelo critério de antiguidade. O nome do magistrado, que atuava na 2ª Vara Cível da comarca de Catalão, foi referendado pelo Órgão Especial da Corte em sessão extraordinária […]

2º Meeting de Gestão
14.10.2026
OAB-GO abre nova turma da Incubadora, lança Escola de Negócios e sela convênio nacional com o Sebrae

A Redação  Goiânia – A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO) abriu, na manhã desta quarta-feira (14/10), em sua sede, o 2º Meeting de Gestão de Escritórios de Advocacia. Mais que um ciclo de palestras, a abertura do evento marcou um novo capítulo para o empreendedorismo advocatício em Goiás. A programação reuniu […]

levantamento
14.10.2026
Goiás registra 4,9 mil casamentos homoafetivos em dez anos

A Redação Goiânia – A oficialização do casamento entre pessoas do mesmo sexo pode ser feita diretamente em um Cartório de Registro Civil, sem necessidade de autorização judicial. O procedimento segue as etapas previstas para a habilitação do casamento, com apresentação de documentos, participação de testemunhas e análise do registrador. A possibilidade é assegurada nacionalmente […]

Aventura
14.10.2026
Região do Rio Corumbá recebe 1º Rally Raça Forte Ford

A Redação  Goiânia –  A Região de Corumbá de Goiás recebe o “1º Rally Raça Forte Ford” neste sábado (17/10), reunindo proprietários da marca americana em uma experiência de aventura, convivência e contato com as paisagens do Cerrado goiano. A prova de regularidade com a chancela da Federação Goiana de Automobilismo (FGA) permitirá o uso de todos […]

Oportunidade
14.10.2026
Inscrições do Concurso da Educação de Aparecida de Goiânia começam dia 9 de novembro

A Redação Goiânia – Começam no dia 9 de novembro e seguem até 9 de dezembro de 2026 as inscrições para o concurso público da Educação de Aparecida de Goiânia. O certame oferece 2.956 vagas para provimento e 14.780 oportunidades em cadastro de reserva, distribuídas entre quatro áreas da Educação. O edital foi publicado em […]

LUTO
14.10.2026
Antônio Naves de Rezende morre aos 96 anos em Porangatu

Jales Naves Especial para o jornal A Redação Goiânia – Faleceu na cidade de Porangatu, GO, onde residia desde 1955, e seu corpo foi sepultado nesta terça-feira, dia 13, no Cemitério Municipal, o mineiro de Nova Ponte, Antônio Naves de Rezende, 96 anos, motorista de caminhão, aposentado, e que integrava a nona geração da família no […]

Goiânia
14.10.2026
Laudo da Polícia Científica respalda manejo de gameleiras na Praça da Cirrose

A Redação Goiânia – Laudo da Polícia Científica de Goiás reconhece o respaldo técnico das intervenções nas gameleiras da Praça Mestre Maria Henriqueta Peclat, conhecida como Praça da Cirrose, no Setor Oeste. O documento registra que a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) autorizou intervenções nos quatro exemplares avaliados em razão de riscos estruturais, com […]