
A modelo Julia Menezes abriu o desfile da Santa Resistência no SPFW: “Gosto das roupas criadas pela
Mônica e me sinto honrada de participar de um desfile onde me sinto representada.” (Foto: Charles Naseh)

(Foto: Charles Naseh)
Entrevista com Mônica Sampaio
Aos 52 anos, a estilista conta como mudou a rota de sua carreira.
Como aconteceu seu encontro com a moda?
Sou engenheira eletricista e, durante muito tempo, trabalhei na Varig, fui chefe de engenharia, fui também militar. Eu tive muitas conquistas na minha vida, mas chegou um momento em que eu queria qualidade de vida, queria criar mais, então, comecei de forma intuitiva a buscar minhas raízes ancestrais na moda. Tive cuidado para fazer parcerias com pessoas que tivessem o mesmo pensamento que o meu. Sempre busquei essa forma de fazer moda e acredito que estou trilhando o caminho certo, porque estar nesta passarela foi a coroação de uma trajetória difícil.
Por que difícil?
Eu tinha 45 anos quando decidi iniciar uma carreira completamente diferente. Eu saí do Exército, fui corajosa e, hoje, foi muito prazeroso vivenciar essa conquista.
Ouvi dizer que você fazia suas próprias roupas…
Sim, sempre criei, sempre desenhei. As estampas que entraram na passarela eu criei todas, pesquisei histórias. É o amor e a ancestralidade que me movem.
As pessoas se interessavam pelas roupas que você fazia para si?
Sim, sempre me perguntavam sobre elas, começou dessa forma. Eu sempre gostei de uma moda diferente, com um viés mais forte e impactante, mas eu não a encontrava. Acho que a Santa Resistência representa esse conceito.
Quando você decidiu criar a marca?
Eu criava as roupas e vi que isso poderia se transformar em um empreendedorismo. Aos poucos, fui buscando conhecimento no Sebrae e me unindo com marcas e empresas que trouxessem esses saberes e essas trocas para mim.
De onde vem o nome?
Da ancestralidade.
Qual seu recado para as pessoas que não estão felizes em seus trabalhos e querem mudar de profissão?
Nunca é tarde para começar. Renove-se, tenha coragem, porque a felicidade é uma eterna busca. O importante é não se acomodar.
Na sua trajetória, você atribui o sucesso mais ao suor ou à sorte?
Suor e determinação, pois nunca é fácil. A moda no Brasil era um lugar que não nos enxergavam. Eu sou uma mulher negra e o SPFW não nos enxergava. Hoje estamos vendo essa mudança, que já era tão necessária para os criadores. Antes de mim, Isaac Silva, Angela Brito abriram caminhos. Temos uma nova turma também, fazendo coisas diferentes, como os Meninos Rei.
Você trouxe um casting preto para a passarela. Por quê?
A representatividade faz falta no Brasil e, se eu posso fazer que isso aconteça numa semana de moda, farei. Em outros desfiles, você vê duas ou três modelos negras. Por que não transformar isso e trazer todas para cá. Foi o que eu pensei.
Sua moda é para as mulheres pretas?
Não, a moda é universal.
Por que você escolheu a Design Floresta para compor as roupas da Santa Resistência?
Eu me apaixonei pelo design da marca, pelas formas do sapato. Vi os modelos no Stories do Instagram e fiquei impactada. Escrevi para a Fernanda e fizemos essa parceria.

(Foto: Charles Naseh)
Entrevista com Fernanda Toledo
Aos 49 anos, a arquiteta goianiense cria desde 2018 sandálias de linho de diversas cores e modelos.
Por que você resolveu deixar a arquitetura?
Eu não estava satisfeita com a vida de arquiteta. Eu gosto muito de arquitetura, adoro criar, mas era um processo lento e eu ficava muito tempo fora de casa, longe dos meus filhos, e eu queria mudar meu jeito de viver. Além disso, sempre tive vontade de criar um produto que pudesse ser bacana e sustentável. Pensava em produzir em uma escala menor, só para o que realmente fosse consumido. Comecei a buscar alternativas e, como sempre gostei de madeira e de natureza, pensei na marcenaria. Fiz um curso com o designer Morito Ebine, em Santo Antonio do Pinhal, em São Paulo.
Por que você decidiu fundar a Design Floresta?
Eu não conseguia calçar sapato, eles me incomodavam. Eu andava descalça ou usava espadrilles, esse era o único salto que eu conseguia passar o dia. Um dia, meu marido me falou que eu era mulher de um sapato só, fiquei triste. Eu resolvi fazer um curso de sapataria, depois fiz o de marcenaria, mas o negócio de sapatos começou a fluir, passei a vender para amigas, e decidi me concentrar na produção de sandálias.
Você tinha quantos anos quando fez essa mudança?
Eu tinha 46 anos e sempre quis criar algo de design. Dei aula na PUC nessa área e me apaixonei pelo processo do desenvolvimento de um produto.
Você ficou em dúvida se era o momento e a idade de fazer essa mudança?
Não, eu não tive essa dúvida. Quando eu decido mudar, é porque eu já sofri muito. Vejo que quando eu estou reclamando demais de algo, é porque não estou satisfeita. Então, quando a mudança chega, é porque ela já aconteceu internamente.

(Foto: Charles Naseh)
Como você idealizou a empresa?
Eu pesquisei bastante para saber o que estava acontecendo no mundo. Eu já sentia mudanças de comportamento, necessidade de saber como as coisas foram produzidas. Tinha a ideia de fazer um produto que eu pudesse representar um carinho para as pessoas. Você vê pelas redes sociais que as pessoas estão carentes de afeto, querem ser notadas. Pensei como poderia fazer algo que pudesse responder a isso, algo que as pessoas precisassem e pudessem consumir para melhorar a vida delas. Um sapato confortável é como um abraço, um carinho. É ele que vai te carregar o dia todo.
É você que desenha os modelos?
Sim. Fiz minha primeira espadrilles no curso de sapataria e já saí usando. Achei o máximo e as pessoas começaram a me fazer encomendas. Daí encontrei o Fábio, que faz os modelos comigo. Ele também é super perfeccionista. Eu crio, ele faz, eu uso, ele me ajuda a resolver os problemas. Fazemos em equipe e vamos desenvolvendo juntos, com desenho e pesquisa. A inspiração vem dos elementos da natureza, de animais, de folhagens. Quando você começa a criar, você começa a ter outra visão do que há ao seu redor.
Qual a proposta da marca?
Não tenho grandes estoques, eu crio por encomenda e no tamanho exato da cliente e na cor que combina com ela. Isso também é ser sustentável. Para a Santa Resistência, criei sandálias nas cores branco, amarelo-queimado, rosa-claro e orégano. A composição neutra valorizou as roupas sem criar conflito.
Você já consegue viver da empresa?
Sim, tenho uma boa renda pelas vendas da Design Floresta. Vendo os modelos pelo site e pelo Instagram. Além do Brasil, enviamos os pares para todos os continentes, com exceção da Ásia. O crescimento da empresa foi gradativo, mas sempre constante, mesmo durante a pandemia.
Que conselhos você daria para alguém que queira mudar de área assim como você o fez?
Eu acho que a gente tem a obrigação de ir atrás dos nossos sonhos, a vida passa rápido demais e não dá para perder tempo com algo que nos faz infeliz. Vale mais arriscar do que não arriscar. Acho que é muito mais difícil você ser infeliz do que feliz. No começo pode parecer muito complicado, mas, depois que você começa, não tem volta.