José Abrão
Goiânia – Você provavelmente nunca ouviu falar na Praia das Curimãs: uma pequena vila de pescadores no litoral do Ceará, quase na divisa com o Piauí, a mais de 400 quilômetros de distância da capital Fortaleza. O povoado vive até hoje da pesca e surgiu a partir de uma ocupação na década de 1930. Este assentamento recluso em terras da União permaneceu assim, fora do radar, até a última década. O município do qual a vila faz parte, Barroquinha, fica a 35 quilômetros de distância.
As coisas começaram a mudar, primeiro, com a construção de uma estrada de terra, dando acesso ao lugarejo. Já o segundo fator foi a inclusão das Curimãs na Rota das Emoções: um roteiro turístico da costa brasileira promovido pelo Ministério do Turismo.
E não é para menos: cercado pelo Oceano Atlântico por um lado e por dunas e piscinas naturais do outro, as Curimãs são mais um ponto exuberante e paradisíaco do Ceará, praticamente intocado pela urbanização e pelos males da modernidade. Só que agora, conforme a vila começa a atrair olhares de forasteiros e de estrangeiros, os moradores e ambientalistas começam a se preocupar com os impactos sociais e ambientais que a especulação imobiliária e o turismo predatório podem ter sobre as 118 famílias e menos de 500 pessoas que moram na praia.

(Foto: Ludmila Moreira)
Foi com isso em mente que o grupo de artistas voluntários CumbuCOR realizou uma intervenção artística no vilarejo com a participação dos moradores no intuito de chamar atenção para os desafios que começam a se impor sobre as Curimãs.
A ponte da intervenção artística foi feita por goianos: a fotógrafa Ludmila Moreira chegou à Curimãs por acaso e está lá há três meses atuando como voluntária. Através da Bicicleta Sem Freio, ela entrou em contato com os artistas do CumbuCOR.
“A intervenção aqui é uma forma de chamar atenção, através da arte, para o local que está passando por diversas questões políticas e ambientais preocupantes. É uma forma de ocupar espaço na mídia para colocar alguma pressão sobre o poder público, que não tem nenhum plano ou projeto para cá”, explica a voluntária Ludmila Moreira.

(Foto: Ludmila Moreira)
A voluntária argumenta que o desenvolvimento do turismo nas Curimãs é inevitável, mas que é possível explorá-lo ao mesmo tempo em que “traga mais estrutura para o local. Hoje os Curimãs são totalmente vulneráveis: os forasteiros chegam e fazem o seu”.
O líder da Associação de Moradores das Curimãs, Jorge da Silva Gomes, destaca que há duas grandes forças de pressão envolvendo a especulação imobiliária sobre a praia no momento. Por um lado, a especulação do setor energético para a instalação de turbinas eólicas, tanto por mar quanto por terra. Do outro, há o potencial turístico do local, onde já chegaram um francês, um italiano e um grupo empresarial paulista.
“Pretendemos conseguir ajuda de qualquer maneira, com as ONGs ou empresários, para conquistarmos o direito da área de Curimãs, para ser do povo de Curimãs”, propõe Jorge. “Se conseguirmos ter nossa área delimitada, pra dizer que é nossa, onde vivemos há gerações, seria excelente, mas é difícil conseguir apoio nessa empreitada.”

(Foto: Ludmila Moreira)
Os moradores iniciaram um processo junto ao Ministério Público para demarcar o território como comunidade tradicional, mas é uma trajetória muito longa. O maior medo de Jorge e dos voluntários é que a praia se torne uma nova Jericoaquara: um grande polo de turismo, mas também de exclusão social que expulsou os moradores da praia e que permanece até hoje sem infraestrutura básica.
A estrada, por exemplo, inunda durante as chuvas ou é invadida pelas dunas. Na própria vila, a eletricidade chegou, mas não há água ou esgoto, calçamento nem sinal de telefone. A única escola, também recente, só tem até a quarta série do Ensino Fundamental.
Segundo Jorge, devido à falta de interesse do poder público, os moradores se sentem tentados a entregar suas terras à especulação. “Precisamos educar os moradores a não se desfazerem de suas propriedades. Tem muita gente vendendo suas terras, especialmnete pra gringos, que têm a intenção de fazer pousadas, hotéis, restaurantes. E isso só vai crescer. E se eles estão vendo Curimãs com esse potencial empreendedor, a chance de desenvolverem Curimãs só pra eles mesmos é grande”, avalia.

(Foto: Ludmila Moreira)
Foram até a praia a produtora Sara Beneduce e os artistas Jr Zapata, Erica Cigana e Bárbara Freitas. A intervenção foi feita em uma represa de concreto na vila, chamada de “bica” pelos moradores, assim como em três casas de pescadores.
“Achei o lugar incrível porque ele ainda não foi afetado pelo turismo predatório. É uma praia linda, um lugar lindo, o meio ambiente favorece tudo lá. Espero voltar lá em breve para ficar um tempo maior”, disse Jr Zapata. “É um lugar simples com pessoas simples que vivem 100% da pesca. Têm pouco acesso à cultura, à educação. Conseguimos levar um tipo de trabalho que não conheciam. Acredito que conseguimos plantar lá uma sementinha e espero que isso abra portas para que cheguem mais coisas para eles em breve”, completa.
O CumbuCOR é sediado na cidade de Caucaia (CE) na praia do Cumbuco que é um paraíso do kite surfing. “Tem um turismo muito forte, mas também é uma vila de pescadores, embora hoje poucas pessoas ainda trabalham com a pesca. Em 2018 criamos o Cumbucor para trabalhar não apenas com intervenção urbana, mas também para dar acesso à cultura”, explica Zapata. “Promovemos eventos com teatro, dança e música. Fazemos intervenções em formato de festival e começamos a viajar para outros lugares levando essa proposta”, adiciona.

(Foto: Ludmila Moreira)
Na obra, foi representada a sereia Iara, que supostamente habita a lagoa da bica, assim como o peixe que para eles é o troféu mais valioso: o gigante camurupim.
Para Jorge, transformar a área de Curimãs em área de preservação é complicado por isso. Há o potencial empresarial energético e turístico. “Porém, delimitando nosso território, podemos criar nossas próprias áreas de preservação. Os moradores precisam ver a importância dessa terra e preservá-la para as futuras gerações de modo que essa terra cresça sem ser devastada”, pondera.