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Por que o preço da pamonha ficou tão salgado?

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26.09.2021 - 08:35:48
Augusto Diniz
 
Goiânia – Se você gosta de frequentar uma pamonharia ou pedir quando chega em casa à noite aquela pamonha de sal, doce ou a moda, já deve ter reparado que o preço do produto típico da culinária do goiano subiu nos últimos meses. Em geral, ficou difícil no mês de setembro comprar uma pamonha, seja na feira ou em uma pamonharia, por menos de R$ 10.
 
Qualquer consulta no cardápio de uma pamonharia, na loja, em um aplicativo de venda de comida ou na banca da feira, mostrará que o valor pago por uma pamonha tem variado em Goiânia de R$ 12 a R$ 14. O que ocorreu no mercado, do plantio do milho à produção do item tão querido da culinária goiana, para deixar a pamonha tão salgada no bolso no segundo semestre de 2021?
 
Em entrevista ao jornal A Redação, a gerente de atendimento da Pamonharia Frutos da Terra, Sarah Lima, uma das lojas mais antigas de Goiânia, explica que a tentativa de não repassar a alta do custo de produção da pamonha tem se tornado algo complicado. 
 
“Existem meses no ano em que a dificuldade de achar milho no mercado goiano é mais acentuada. Do final de julho, quando começa a temporada da seca, até o final de outubro, normalmente sempre foi assim. São os meses em que o milho é mais escasso porque é caro de ser produzido porque precisa ser um milho irrigado.”
 
A gerente da Frutos da Terra lembra que o preço do milho nessa época do ano já apresentava uma tendência de dobrar de valor. “Além de ser mais caro por precisar irrigar o milho, muitos produtores deixam de plantar. Só que desde o ano passado, por conta da pandemia, diminuiu o número de pessoas que plantavam. Pela alta, por exemplo, do adubo, muita gente deixou de plantar milho e optou pela soja.” 
 
Crise iniciada em 2020
De acordo com Sarah, a crise mais intensa no mercado do milho no Estado passou a ser notada a partir de 2020. “Uma crise que já ocorria se intensificou. Só que este ano foi algo como a gente nunca viu. Goiás ficou realmente sem milho por cerca de 40 dias e tivemos que trazer milho de fora. Em 35 anos de história [da pamonharia], o milho nunca tinha chegado a um preço tão alto. Bateu R$ 85 a mão. E o reajuste é diário – chega na sexta-feira a R$ 75, no sábado já está R$ 85. Amanhã pode ser R$ 90. O milho nunca esteve tão caro”, explica a gerente de atendimento.
 
Outro fator que afetou o preço do milho foi o aumento da presença de pragas nas plantações. E um dos motivos seria a má preparação do solo. “Quando plantam a soja e não estão fazendo a limpeza da terra de uma forma correta, a cigarrinha se intensifica bastante.” 
 
Além da perda de parte da safra, a corrida pelo valor mais atrativo da soja fez com que produtores deixassem de plantar milho. “A alta do adubo faz como que pequenos produtores fiquem impossibilitados de produzir. E eles são importantes, principalmente para esse ramo das pamonharias, porque os pequenos produtores abastecem o mercado.” Esses fatores somados fizeram com que a alta do valor do milho fosse “estrondosa” em 2021 e inviabilizasse “pelo menos 50% do negócio das pamonharias em Goiânia”.
 
Sarah explica que, como as vendas de pamonha tendem a ser mais baixas nesse período mais quente do ano, a pamonharia preferiu não repassar o reajuste ao consumidor. “Mas vai chegar a hora [de aumentar o preço da pamonha] porque está difícil de segurar o preço. Trabalhar no vermelho não é fácil para ninguém”, confessa a gerente. 
 

A baixa oferta de milho no mercado não foi o único fator
que impactou a alta no preço da pamonha (Foto: Arquivo Faeg)

 
Impacto de outros itens
O encarecimento no valor do milho não é a única preocupação das pamonharias. “Temos de levar em consideração o gás, o óleo, que está altíssimo. A inflação, de forma geral, está muito alta. Realmente vamos precisar chegar em uma hora de repassar o aumento do custo para o consumidor. A gente permanece no mesmo preço da pamonha desde janeiro.”
 
Sarah observa que o goiano muitas vezes não aceita pagar mais caro na pamonha porque sempre foi um produto mais barato. “É difícil aceitar na nossa cultura pagar um preço tão alto por um produto que, apesar de ser uma refeição completa, seja um almoço, lanche ou jantar, está se tornando muito caro. Não só caro, como raro, porque muitas pamonharias pequenas ficaram fechadas esse ano por falta de milho”, destaca.
 
Segundo a gerente de atendimento, se um dia a pamonha foi muito barata, fica difícil de acreditar que ela voltará a ser vendida com um preço mais baixo, até mesmo nas feiras. “A pamonha hoje é cara. Não sei como seria a aceitação pelo público goiano de valorização desse produto goiano que pode, sim, esgotar.” Como em 2021 há dificuldade em conseguir milho para produzir pamonha, Sarah questiona se no ano que vem a situação não será ainda mais complicada.
 
Pamonha como opção
Mesmo com a alta no preço da pamonha em Goiânia, a gerente de atendimento avalia que o produto se tornou uma opção de almoço no período de crise econômica. “Hoje, na verdade, registramos aumento na hora do almoço porque tem se tornado uma opção de alimentação barata, tendo em vista que o preço da marmitex gira em torno de R$ 17. Mesmo que o preço da pamonha subisse para R$ 13 ou R$ 14, ela ainda ficaria mais barata do que uma marmitex. A pamonha é uma refeição com bom custo benefício.”
 
Não são só as pamonharias que sentiram a menor oferta de milho no mercado. O gerente da divisão técnica das Centrais de Abastecimento de Goiás (Ceasa-GO), Josué Lopes Siqueira, confirma que os atacadistas têm sofrido com uma escassez “muito grande” de milho. “Nesse período, todo ano é um Deus nos acuda. Só milho irrigado.” 
 
De acordo com o gerente da divisão técnica da Ceasa, o milho vendido hoje às pamonharias vem, em sua maioria, do interior de Minas Gerais, São Paulo e Bahia, o que fez o preço subir. “Houve momentos em que faltou um pouco o produto. Mas os atacadistas encontram soluções para que não haja desabastecimento. Só que é um milho que nem sempre chega com a mesma qualidade”, afirma.
 
Siqueira explica que o preço considerado normal da mão seria R$ 25 para o milho. Uma mão é o equivalente a 60 espigas. “Hoje a mão tem sido vendida a R$ 60, até R$ 70. O valor foi impactado por doenças no milho causadas por pragas. E o atacadista não tem outra opção a não ser repassar o preço reajustado para o comprador.”
 
O gerente da divisão técnica da Ceasa diz acreditar que o preço do milho deve cair e se normalizar a partir de novembro ou dezembro. “Vamos ter que conviver com mais dois meses de preços bem salgados da pamonha”, aponta Siqueira. Vale lembrar que nem todo milho comercializado nas centrais de abastecimento vai para a produção do produto.
 
Queda na safrinha
O produtor de milho começa a plantar em fevereiro e faz a colheita entre julho e agosto a cada ano, a chamada safrinha. “Atingimos em 2021 uma colheita em Goiás 6,8 milhões de toneladas de milho em grão. A previsão era de que chegaríamos a 10 milhões de toneladas.” De acordo com o coordenador institucional do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Leonardo Machado, áreas que poderiam ser usadas para plantar o milho verde, aquele usado para produzir pamonha e conserva, acabaram destinadas para outras atividades.
 
“Houve uma redução da área plantada, tanto para o milho em grão quanto para o milho verde. Isso puxa a alta do preço do milho, que sofre redução na oferta”, diz Machado. 
 
O coordenador institucional do Ifag, entidade fundada pelo Serviço de Aprendizagem Rural Administração Regional de Goiás (Senar/AR-GO), Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) e Associação dos Produtores de Soja, Milho e Outros Grãos Agrícolas do Estado de Goiás (Aprosoja), afirma que não chegou a haver desabastecimento de milho no mercado.
 
Machado explica que a safrinha do milho foi impactada por uma estiagem muito grande, com geada em algumas regiões do Estado e o ataque de pragas. “Só teremos uma nova safra quando começar a chover”, pontua o coordenador do instituto. Com isso, o preço da mão do milho deve continuar alto, já que não há previsão a curto prazo de estabilizar a oferta do produto no mercado goiano. O que faz com que o preço da pamonha continue salgado.
 

“Atingimos em 2021 uma colheita em Goiás 6,8 milhões de toneladas de milho
em grão. A previsão era de que chegaríamos a 10 milhões de toneladas”, diz
o coordenador do Ifag, Leonardo Machado (Foto: CNA/Wenderson Araújo/Trilux)
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por Augusto Diniz

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