Théo Mariano
Goiânia – Pouco a pouco, o auditório do Teatro Municipal Madre Esperança Garrido, no Setor Central, em Goiânia, se enchia de espectadores. A climatização, naquela noite de quinta-feira (16/9), fazia arrepiar os pelos com o frio, que também estava na barriga dos garotos que iam se apresentar no palco, a alguns metros da multidão. Finalmente chegara o grande dia: o lançamento da Banda IVS e a ampliação do projeto Autismo EnCanto.
Kelly Tobias apresenta o show de encerramento do Festival Livre Leve Live no Teatro Madre Esperança Garrido, em Goiânia. (Foto: Amanda Gentilin)
O brilho nos olhos de Kelly Tobias, a musicoterapeuta responsável pelo evento, que encerrava o Festival Livre Leve Live 2021, traduzia todo o sentimento de uma longa e ousada caminhada até chegar ali em cima do palco, diante de uma grande plateia. “Após tantos desafios, nós vemos que os meninos possuem uma grande conexão com a musicalidade”, conta a musicoterapeuta.
A partir da música, Kelly elaborou projetos que possibilitaram às pessoas no espectro do autismo ter uma maior interação, evoluir seus quadros e descobrir talentos. Assim surge a Banda IVS, siglas de Instituto Vida Sonora, onde a musicoterapeuta atua. São três integrantes: Tiago Filho, 18 anos; Gabriel Coelho, 13 anos; e Miguel Celestino, 12 anos. Além deles, se apresentaram na noite Maurício Garcêz e Renner Filho, que cantaram em cima do palco.
Miguel Celestino treina com seu piano pouco antes das cortinas se abrirem para dar início ao show de encerramento do Festival Livre Leve Live 2021. (Foto: Amanda Gentilin)
Para a mãe de Gabriel Coelho, garoto carismático que foi uma das principais estrelas do evento, o momento era gratificante. Com olhos marejados, Daniela de Oliveira contou a dificuldade que foi para chegar até ali e a gratidão em seu filho se estimular através da arte e se tornar um artista. “Nós descobrimos que ele se desenvolve bastante através da música”, relata. Para Daniela, nada foi em vão: “Eu e ele somos vencedores, porque não é fácil, mas é muito emocionante. Só gratidão a Deus e à Kelly, porque são coisas que o dinheiro não paga.”
O mesmo sentimento é partilhado pelo pai de Renner Filho, Renner Araújo. Para ele, que acompanhou a apresentação de seu filho, que é cantor, a experiência também foi gratificante. “Experiências como essa enchem o nosso coração de alegria”, testemunha o pai do jovem autista. Após a descoberta da ligação do filho com a música, essa atuação sempre foi alimentada pelo pai e, agora, com a musicoterapia. “É uma mistura de surpresa, satisfação, alegria e realização. Ter um filho tão especial é diferente e muito bom”, conta.
Maurício Garcêz (à direita), Renner Filho (centro) e Gabriel Coelho (esquerda) formam trio para cantar no palco de encerramento do Festival Livre Leve Live 2021. (Foto: Amanda Gentilin)
Um transtorno muitas vezes silencioso e de diagnóstico dificultado, o autismo se manifesta em cada pessoa de uma forma. No Brasil, há a estimativa de que pelo menos 2 milhões de brasileiros estão em algum nível do espectro. Ações como a musicoterapia são formas de estimular a evolução dos pacientes, que por vezes apresentam dificuldades motoras e até mesmo na fala.
Para Kelly Tobias, a ambição é muito maior: aumentar cada vez mais o número de artistas para o projeto Autismo EnCanto e outras iniciativas futuras. Com brilho no olhar e determinação nas atitudes, a musicoterapeuta desbrava os caminhos de sua área com muita entrega e criatividade. Autora, inclusive, de músicas, ela deixa sua marca na vida dos pacientes e dos pais, que reforçam a importância do tratamento na vida de seus filhos.