Théo Mariano
Goiânia – “Mulher da Vida, minha Irmã/ Pisadas, espezinhadas, ameaçadas./ Desprotegidas e exploradas./ Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito./ Necessárias fisiologicamente./ Indestrutíveis./ Sobreviventes”, derrama Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, sob pseudônimo de Cora Coralina, com versos certeiros em “Mulher da Vida”. O retrato se assemelha ao quadro caótico pintado no Brasil e no mundo após a chegada da pandemia do novo coronavírus, momento no qual viver uma vida de normalidades se tornou desafio para sobreviventes indestrutíveis, mulheres que perderam parte significativa de suas rendas neste período.
Não são poucas as pesquisas que apontam a queda nos rendimentos da mão-de-obra feminina. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua mostra que, no primeiro trimestre de 2021, 54,5% das pessoas desocupadas, entre 14,8 milhões nesta situação no Brasil, eram mulheres. O dado condiz com o relatório “O Vírus da Fome”, publicado pela ONG Oxfam International, que estima aumento de 100 milhões de pessoas em extrema pobreza até o final de 2021 em todo o planeta. Com o acréscimo esperado, cerca de 745 milhões de habitantes devem chegar nesta situação ainda neste ano.
De acordo com o relatório, “os grupos marginalizados, principalmente mulheres, pessoas deslocadas e trabalhadores informais, foram os mais atingidos”. Cerca de 2,7 bilhões de habitantes não receberam qualquer apoio financeiro público para enfrentar a crise causada pela pandemia do novo coronavírus. Ao mesmo passo, viu-se crescer em 540 bilhões de dólares a fortuna dos dez mais ricos — dos quais nove são homens — ao redor do planeta desde o início da pandemia até dezembro de 2020.
Na nota metodológica do relatório “O Vírus da Desigualdade”, é calculado que o aumento acumulado na fortuna dessa parcela mínima de mais ricos seria suficiente para evitar que qualquer pessoa na Terra caísse na pobreza devido ao vírus e ainda pagar por uma vacina contra a covid-19 para todos. O mesmo documento mostra também que 740 milhões de mulheres ao redor do mundo, que trabalhavam informalmente, sofreram perda de 396 bilhões de dólares em suas rendas durante a pandemia.
O Sebrae Goiás exibe, em levantamento realizado durante a pandemia, que as mulheres empreendedoras foram as mais afetadas (52% paralisaram “temporariamente ou de vez”) com o fechamento dos pequenos negócios. Ainda assim, o relatório aponta que elas são as principais criadoras de soluções no ambiente digital. Segundo os dados, as mulheres (32%) caminharam mais que os homens (25%) no rumo das vendas on-line.
Os números traduzem as dificuldades de um cotidiano machista, que impacta diretamente na vida de bilhões de mulheres. O empreendedorismo, no entanto, surge como opção, ao menos a uma parcela deste grupo – 63% das entrevistadas pela pesquisa do Sebrae são microempreendedoras individuais (MEI). A história geral se assemelha à de Chrystal Biz, comunicóloga multiartista formada em publicidade e design de interiores, que aos 30 anos adotou a mentoria como forma de sustentar-se financeiramente e fomentar o empreendedorismo, além de atuar remotamente, com reuniões sobretudo pelo Zoom — plataforma que multiplicou em 30 vezes, entre 2019 e 2021, o número de usuários, chegando a 300 milhões de conectados em abril deste ano.
Chrystal Biz, comunicóloga multiartista. (Foto: Rilbert Andrade)
Os projetos inovadores que Chrystal desenha hoje, no entanto, ainda são fruto de programas que participou no Sebrae Goiás: em 2017, esteve na Pré-Aceleração de Startups e, em 2018, no programa Mulheres Empreendedoras. “Essa experiência com o Sebrae mudou a minha vida, porque ali eu tive contato com grandes profissionais que nunca, em minha situação financeira, eu conseguiria ter pagado e isso me trouxe um conhecimento absurdo para ter meu negócio no mundo em que vivemos hoje”, relata em entrevista ao jornal A Redação.
Chrystal Biz: “Empreender, ainda que com sucesso, é solitário, principalmente para as mulheres"
Apesar de colher o resultado de sementes plantadas no passado, a empreendedora goiana revela dores que por vezes passam despercebidas por muitos. “Empreender, ainda que com sucesso, é solitário, principalmente para as mulheres. Os homens geralmente contam com apoio de suas esposas, mas isso não acontece quando se pensa o contrário. Eu sei que, se no passado eu tivesse ajuda dos parceiros que estavam ao meu lado, poderia estar em um nível ainda maior.”
Conforme esclarece a analista do Sebrae Goiás, Vera de Oliveira, o foco dos projetos com as mulheres empreendedoras gira sobretudo em torno das chamadas soft skills – habilidades socioemocionais, para solução de conflitos e outras adversidades, muitas vezes frutos do machismo estrutural. “Hoje, nós estamos conectados com mulheres nas mais diversas localidades do Estado. Com isso, tentamos dar o maior amparo possível para que o aprendizado chegue a todas, pois entendemos os desafios, principalmente em cidades do interior, para o acesso à internet”, explica ao AR.
Vera de Oliveira, analista do Sebrae Goiás / (Foto: Arquivo pessoal)
Ainda assim, a comunicóloga avalia que, após oito anos de pelejas no empreendedorismo digital, as mudanças de hábitos criadas pela pandemia possibilitaram que vivesse “um sonho profissional audacioso” em meio ao caos. “O home office é uma realidade na minha vida há alguns anos, quando passei a trabalhar exclusivamente assim. Mas nunca antes eu pude executar 100% do meu trabalho em casa, pois era dependente de algumas reuniões com os clientes. Hoje, posso fazer tudo por um computador e ainda ter aceitação das outras pessoas, o que antes era muito difícil porque projetos digitais sempre eram tachados de juvenis e não contavam com muita adesão no mundo dos negócios.”
O perfil da empreendedora
O Sebrae Goiás traçou o perfil da mulher empreendedora no Estado e concluiu que a maioria delas está entre a faixa dos 30 aos 39 anos. Segundo Vera de Oliveira, apesar das jovens adultas desenvolverem mais iniciativas no sentido da inovação, as mulheres com idades mais avançadas são as responsáveis pela efetivação e formalização de negócios. “É uma questão de modelo de atuação: as mais jovens começam com vendas de roupas para desapegar, semijoias e afins, e posteriormente sente se aquilo pode ser melhorado ou não. Ela [a empreendedora jovem] não tem um modelo de negócio estruturado ainda, mas há um crescimento na busca por oportunidades – e não só pela necessidade”, avalia.

Outro fator que também leva as mulheres ao empreendedorismo é a maternidade. Conforme mostra o levantamento do Sebrae, 63% das entrevistadas pela pesquisa são mães. Segundo a analista da entidade, as dificuldades do mundo celetista quando se tem crianças em casa se somam à vontade de estar por perto da prole. Isso cria o fenômeno do empreendedorismo materno, conforme explica. “A mulher começa a empreender porque se torna mãe”, resume Vera. Segundo ela, a legislação trabalhista dificulta para que as mães trabalhem com carteira assinada.
Embarcadas no desafio de criar um negócio, as empreendedoras se apoiam sobretudo em seus próprios recursos financeiros. A pesquisa mostra que 77% das entrevistadas disseram ter desembolsado a verba necessária para tirar o projeto da ideia e tornar realidade. O caminho em Goiás é parte de uma busca pela autorrealização, segundo 97% das entrevistadas que elencaram este fator como “importante” ou “muito importante”. Ela ainda citam a ânsia pelo complemento da renda familiar (95%) e desejo de alcançar independência (94%).
Delas
Todos os recursos profissionais e financeiros para que as mulheres assumam o protagonismo em suas vidas são trabalhados pelo programa Sebrae Delas, iniciativa desenvolvida pela entidade como forma de apoiar as empreendedoras do País. A ação, realizada também em Goiás desde 2018, é baseada em três pilares, como explica Vera: o “Eu”, que olha para a mulher as nuances do universo feminino; o “Meu”, que aborda os efeitos do empreendimento sobre a mulher; e o “Nós”, que trabalha o impacto criado pela mulher empreendedora na sociedade.
Com atendimento on-line, conteúdos ao vivo e gravados, a entidade busca maneiras de não deixar as empreendedoras abandonadas. “Tentamos dar amparo para que os mais variados meios sejam acessíveis, assim também trabalhamos a inclusão digital”, diz. Atentas, as representantes do serviço ainda avaliam os cenários, com levantamento iguais à pesquisa citada, para entender como dar o apoio necessário às mulheres donas de seus negócios.