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Quando o serviço vira desserviço

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07.07.2021 - 16:58:34
Sobre o assunto mais comentado da semana, lotes vencidos da vacina AstraZeneca/Oxford administrados no Brasil, quero emitir a minha opinião pessoal. Não posso garantir que seja uma notícia falsa, principalmente se levarmos em consideração o descaso de alguns brasileiros para com a Ciência, durante a pandemia de Covid-19. Apesar disso, acredito fortemente que tal notícia foi veiculada de maneira equivocada. Vamos aos fatos:
 
O profissional que atua na sala de vacinas (técnico de enfermagem) sempre é supervisionado por um enfermeiro especialista em vacinas e ambos são extremamente cautelosos em vigiar a rede frios, o lote e a validade dos imunobiológicos. Ambos fazem anotações diárias destes itens em registros na sala de vacinas. Creio ser impossível tantas doses vencidas em tantas cidades diferentes, talvez algumas doses em um ou outro serviço pontual seja factível deste erro, mas tantas e ao mesmo tempo, não.
 
Além disso, vale ressaltar que o Brasil tem uma das melhores estratégias vacinais do mundo, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), cuja funcionalidade é extremamente bem organizada e estruturada. Se dependesse do PNI, já poderíamos ter finalizado a imunização contra o SARS-CoV-2 no nosso país. Mas ao contrário, fomos – e somos – espectadores de uma sucessão de fatos absurdos: atraso na compra de vacinas, no início da imunização; “fake News” bizarras sobre efeitos colaterais (lembra-se do jacaré) e eficácia das vacinas; movimentos anti-vacinas crescendo na mídia; brigas políticas veladas em torno das vacinas; roubo de vacinas; “fura-filas”; doses falsamente aplicadas (e filmadas!); pessoas querendo escolher qual vacina tomar e outras tantas tentativas de burlar o sistema para garantir uma dose de reforço ou outro tipo de vacina, antes mesmo de várias pessoas terem garantido uma dose sequer.
 
Por fim, observando especificamente o lote, julgado vencido, destinado a Goiânia, a data de validade dele era até meados de abril, mas ele foi utilizado nos goianos em fevereiro, na época contemplando a vacinação de milhares de profissionais de saúde e idosos acima de 90 anos. Obviamente, o lote de fevereiro não durou até abril, visto que, em alguns períodos, a vacinação da primeira dose ficou lenta e até suspensa pela falta do imunizante entre fevereiro e abril.
 
Portanto, acredito que a fonte usada na reportagem realmente foi oficial do Ministério da Saúde (MS), pois já é sabido que as informações digitadas nos municípios chegam atrasadas aos registros da pasta. E não é de hoje que temos observado erros, atrasos e instabilidade nas plataformas do MS, como em notificações de doenças compulsórias, dados de infecções hospitalares e outros. E até uma terceira dose de vacina contra Covid-19 apareceu no registro on-line de vários indivíduos que haviam completado duas doses da Coronavac, em fevereiro, inclusive aconteceu comigo.
 
Enfim, a minha indignação é por reconhecer a importância que a mídia tem nesse processo de luta contra o novo Coronavírus, mas, em especial, um desserviço como esse tipo de notícia só aumenta a descredibilidade no único caminho que nos levará ao controle da pandemia – que é a vacinação em massa o mais rápido possível. Somente assim, conseguiremos reduzir a circulação viral e, consequentemente, o aparecimento de novas variantes. Não tem segredo, pois esse caminho nós, brasileiros, já conhecemos – em razão da experiência que temos com outras doenças, hoje erradicadas ou próximas a isso, como resultado de um programa eficaz de vacinação em massa da população.
 
*Marianna Tassara é infectologista e mestre em Medicina Tropical e Saúde Pública pelo Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP)
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por Marianna Tassara

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