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A exopoética e a ascensão do livro digital

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19.05.2021 - 10:51:10

A chegada do homem à lua em 1969 é um dos feitos mais notáveis do engenho humano em toda a história, caracterizando-se como um marco da Idade Contemporânea. Trata-se, de fato, de um divisor de águas. Essa magna realização científica foi antecipada, no tempo, pela poética, aqui compreendida extensivamente como a técnica de produção artística, literária e semiótica e todas as suas capilaridades. De Francis Bacon a Júlio Verne, a literatura imaginativa já antecipava há muito o “pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”, de Neil Armstrong.

Diante das preocupações e dos projetos atuais que têm em mira a conquista do espaço, a alunissagem humana parece ter significado apenas um momento em que a humanidade firmou os pés no satélite natural para tomada de impulso rumo a outras paragens siderais. A grande meta de presença humana atual é Marte. Estados Unidos, China e Arábia Saudita já enviaram artefatos de pesquisas científicas para o planeta vermelho. Os investimentos são bilionários e certamente têm objetivos diversificados. Nessa conjuntura, a nação norte-americana é a que mais tem se empenhado em projetos relacionados a Marte.

No âmbito do cinema e da literatura, a intersemiose que os une através da roteirização já produziu um sem número de obras literárias e cinematográficas com foco na conquista humana do espaço fora da Terra. A quantidade de material é tão extensa que já permite a criação de terminologias no campo teórico dos estudos artísticos e literários para definir o segmento da arte imaginativa que trata da conquista espacial. Assim, pois, como os cientistas buscam vida extraterrestre de qualquer natureza, de uma bactéria a formas inteligentes, no campo de pesquisa denominado “exobiologia”, de forma semelhante já se pode registrar a forma “exopoético” como adjetivação do substantivo “gênero”, no campo da poética, cunhando-se o termo gênero exopoético para toda e qualquer produção artística que tenha como leitmotiv a interação de vidas fora do ambiente planetário terrestre.

Um dos produtos artísticos mais icônicos que exprime a perfeita confluência entre obra literária e roteiro cinematográfico é a obra “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de autoria de Arthur C. Clark. Produzido simultaneamente à escrita roteirística do filme homônimo, dirigido e também escrito por Stanley Kubrick, a narrativa clarkiana serviu como referência e intertexto a muitas outras obras, tanto literárias quanto cinematográficas, que lhe sucederam. Lançado em 1968, um ano antes da chegada humana à lua, “2001…” apresenta, a certa altura de sua narrativa, o personagem Dr. Heywood Floyd servindo-se de um avançado meio de transporte para o satélite natural da Terra. A tecnologia disponível se apresenta bastante avançada, suplantando em muito a sua congênere da realidade do período em que a obra foi lançada.

A nave espacial a sua disposição levaria 55 minutos para chegar à lua. Durante a viagem, Floyd aproveita o tempo para a leitura do noticiário terrestre. Ele toma de um aparelho eletrônico que conecta a uma tomada, acessando com ele todo o noticiário da Terra. Narra Clark que através da conexão, o Dr. Floyd entraria “em contato com cada um dos principais jornais eletrônicos. Sabia de cor o prefixo dos mais importantes e nem precisava consultar a lista fornecida para esse fim. Ligando a unidade de memória do aparelho, veria a primeira página do jornal escolhido e anotaria os tópicos que lhe interessassem. (…) Quando terminasse a leitura, faria voltar à tela a página completa e selecionaria outro assunto para exame mais detalhado”.

Ou seja, o Dr. Heywood Floyd tem diante de si um sofisticado smartfone, ou mesmo um tablet, com um eficiente acesso à internet, já que se encontrava a meio caminho da lua. Poucas vezes uma tecnologia foi literariamente descrita com tanta precisão bem antes de seu surgimento. Ao observar o engenhoso aparelho, Floyd medita nos significativos avanços que ainda esperavam as comunicações. Ele reflete que o sucedâneo de smartfone de que dispunha sequer poderia ser imaginado quando Gutenberg fez sua impressão da Bíblia, especulando que o futuro distante talvez revelasse surpresas maiores ainda.
 
Do livro de papel ao digital
O trabalho de Stanley Kubrick e Arthur Clark com “2001 – Uma Odisseia no Espaço” foi direto para o cinema. De forma praticamente simultânea, uma série aparecia nas tevês norte-americanas com uma instigante correlação com o filme de Kubrick, uma vez que apresentava um cenário imaginativo em torno do futuro da humanidade após haver conquistado o espaço definitivamente. Traduzida no Brasil como “Jornada nas Estrelas”, a série “Star Trek” se passa no século 24, numa dinâmica tecnológica em que já se tornou possível a viagem espacial acima da velocidade da luz.

Na obra “Jornada nas Estrelas: O Guia da Saga”, Salvador Nogueira e Silvana Alexandria informam que o gerente de uma das grandes fabricantes de celulares mundiais afirmou, ao rememorar a primeira vez que assistiu a um episódio da saga na década de 60 do século passado: “De repente, ali estava o capitão Kirk falando em seu comunicador, sem precisar discar! Para mim, aquilo não era fantasia, mas um objetivo”. “Star Trek” se tornou uma franquia de sucesso mundial e de uma vitalidade inesgotável, segmentando-se em aventuras vivenciadas por diversas tripulações a bordo de naves que cruzam a galáxia em aventuras extraterrestres que embalam a imaginação do público geek desde seu surgimento.

A terceira geração de aventureiros interestelares é “Star Trek – Voyager”, que apresenta a saga de uma tripulação que acidentalmente é arremessada por uma fenda espacial para o outro lado da galáxia, tendo de fazer o caminho de volta pelas vias convencionais para o seu tempo, o que resultará numa viagem de 70 anos de retorno para a Terra. Comandados pela capitã Kathryn Janeway, o que causou revolta em alas machistas mundo afora à época de seu lançamento, os personagens desfilam pela nave em seus instantes de lazer com livros digitais em suportes que remetem aos atuais leitores digitais, ou e-readers, sintetizando quase instantaneamente exemplares de papel caso tenham vontade de realizar uma leitura à moda antiga.

Com a tecnologia de viagem acima da velocidade da luz, a dobra espacial, volta e meia as personagens se veem lançadas em viagens não só no espaço, mas também no tempo. Em um ou outro episódio, no entanto, a viagem no tempo ocorre com as únicas tecnologias de que atualmente se dispõe: a memória e a imaginação. É o caso do episódio da sexta temporada de “Star Trek – Voyager” intitulado “11:59”. Nesse capítulo, a capitã pesquisa sobre a vida de uma antiga ancestral, que viveu num período de tempo que abarcou a virada para o século 21 e o início do terceiro milênio.

Sua ancestral rodava os Estados Unidos vivenciando uma espécie de saga exploradora pessoal. Em pequena cidade interiorana conhece e se apaixona por um livreiro local, dono da única livraria da cidade, que luta contra uma grande corporação para manter seu negócio e sua cidadezinha intocada pelas inovações da chegada do milênio. Em meio a várias salas e prateleiras repletas de livros, o episódio apresenta imageticamente, no vaivém entre a ancestral e a capitão do século 24, significativo contraste entre o livro de papel e o livro digital e seus suportes físicos, atualmente presentes e acessíveis a quem cultiva o hábito da leitura.
Dentre outras simbologias possíveis, o episódio “11:59” é o símbolo imagético perfeito da transição do livro de papel para o livro digital e da possível convivência entre ambos, ícones de eras distintas mas complementares.
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO. Doutor em Letras pela UFG; professor do Ciranda da Arte/Seduc-GO.
 
*Myriam Martins Lima é graduanda em Biblioteconomia pela Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás.

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por Gismair Martins Teixeira E Myriam Martin

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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