Jales Naves
Especial para o AR
Goiânia – Um dançarino nato, que nasceu para dançar, gosta do que faz, fala com entusiasmo dessa arte e a ela se dedicou intensamente, o tempo todo. Assim tem sido a vida do carioca José Antônio da Silva Cruz, mais conhecido como ‘Russo’, que, com diversas damas, encantou a todos por onde passou, não se negando a repetir seus números de dança, em especial de tango.
Exímio dançarino, que já se apresentou em salões das Américas e da Europa, foi professor em academias e universidades, e exerceu seu lado social na vizinha cidade de Gameleira. Ali, deu sua contribuição, ajudando a tirar da marginalidade jovens de sete a 16 anos, orientando-os em três áreas: dança, etiqueta e para serem modelos profissionais, além de teoria musical.
Há dois anos essa rotina mudou, e drasticamente.
Aos 71 anos de idade e mais de 50 dedicando-se à dança e a ensinar a dançar, acolhido no Lar do Ancião O Caminho, ao lado da churrascaria Recanto do Lago, em Anápolis, ele se retirou dos palcos, temporariamente, e já pensa em voltar. Está cuidando de sua saúde física e cumpre um ritual mais leve e mais adequado ao seu novo momento. Teve problemas nos rins, que o obrigam a fazer hemodiálise três vezes por semana, e nos olhos, uma hemorragia, com coágulo de sangue, foi operado de catarata no olho direito, na semana passada, pelo médico Vinícius Stival, do Hospital Oftalmológico de Anápolis (HOA), e passa bem. Segue rigorosamente as prescrições médicas, quanto aos medicamentos, aos cuidados pós-operatórios e à vida mais regrada.
Em novembro de 2020, a convite da professora Solange Dantas, que tem uma Escola de Dança de Salão e Tango em Niterói, RJ, ele, como um dos remanescentes daqueles agitados anos 1960 e 1970 no Rio de Janeiro, gravou uma live sobre dança. Era para ter a duração de 1h30 e se estendeu por quase três horas, com mais de 2.600 acessos, inclusive da escritora e autora de telenovelas da TV Globo, Glória Perez, e do ator Raul Gazolla. Foi muito emotiva, com todos se recordando daqueles tempos, e muitos chorando com as lembranças.

Ele tem uma deferência especial pela advogada Lia Correia, dona de uma Academia e que levou a dança de salão para a zona sul do Rio de Janeiro. Quando Russo namorou a filha dela, Sheila, ela o orientou em suas exibições em bailes, desfiles e shows de dança, corrigindo o seu português e o incentivando a estudar, a ler e a falar corretamente.
Presença em Goiás
Pioneiro na dança em Goiás, ele ensinou a praticamente todos os atuais instrutores goianos e não mais deixou de vir a Goiânia, desde 1983, quando esteve na cidade pela primeira vez, a convite das empresárias Célia Câmara e Nize de Freitas. Essa paixão por Goiás fez com que se mudasse, há 20 anos, para a Capital goiana, e se instalou, em definitivo, em Anápolis, a partir de onde fazia contatos com o mundo, para apresentações de dança e para atender aos numerosos convites para aulas particulares.
Ele considera a dança um exercício completo, servindo como terapia, lazer, um paliativo como ginástica e que propicia integração social. Com formação clássica, em ‘Dança Folclórica’, pela Escola ‘Marília Helou’, do Rio de Janeiro, e em ‘Teoria Musical’, pela Escola Nacional de Música, também do Rio, é mestre pela Escola Nacional de Dança Saint Étienne, de Paris, onde estudou e se apresentou. Já fez temporadas no ‘Canecão’, RJ, atuou em novelas e filmes e fez apresentações especiais no ‘Moulin Rouge’ – com a cantora negra brasileira ‘Watusi’ – e no Cassino ‘Champs Elysee’, ambos na Capital francesa.
Trajetória
Natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em fevereiro de 1950, e uma filha, ‘Russo’ começou a dançar ainda criança, aos sete anos; aos 16 já atuava profissionalmente, e não mais parou. Foi presença marcante em novelas da TV Globo, como “Rainha da Sucata”, “Vereda Tropical”, “Espigão”, “Barriga de aluguel” e “Explode coração”, ao lado de atrizes como Lucélia Santos, Geórgia Gomide, Henriqueta Brieba e Daniella Perez; e em filmes nacionais e estrangeiros, como “Luar sobre Parador”, com Richard Dreyfuss, Raul Julia e Sonia Braga; “Orquídea Selvagem”, com Mickey Rourke e Jacqueline Bisset; “Bonitinha, Mas Ordinária”, baseado na peça de Nelson Rodrigues, com Jece Valadão e Odete Lara; e “O Bandido da Luz Vermelha”, do cineasta Rogério Sganzerla, com o ator Paulo Villaça.
Ele vê com entusiasmo que a dança está ocupando espaços importantes, em especial na televisão, com quadros como ‘Dança dos famosos’, do Faustão, estimulando a procura por academias. Lembrou, a propósito, que o jornalista Roberto Marinho fazia uma exigência aos diretores, logo após a morte da atriz Daniella Perez, de sempre incluir números da dança em todas as novelas da emissora.
Aos 16 anos de idade, já se destacando como dançarino, ‘Russo’ quebrou um tabu, ao concorrer e conquistar a função de Mestre Sala de uma Escola de Samba, até então só ocupada por negros, e foi, até agora, o primeiro e único Mestre Sala de cor branca. Ele atuou nas Escolas de Samba Unidos de Luca, Mocidade Independente de Padre Miguel, União da Ilha e Império da Tijuca, tendo sido, por 10 anos, Mestre Sala da Portela, atuando com o ator e carnavalesco Miguel Falabella.
Em meados da década de 2000 ele começou um trabalho, como instrutor, na Secretaria de Esporte e Lazer da Prefeitura de Gameleira, GO, que, na opinião dele, executava o melhor projeto social do País, criado no Governo de Fernando Henrique Cardoso – o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), para tirar crianças e adolescentes da rua, dos bares e das drogas e lhes dar uma oportunidade de trabalho.