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Ousadia de Bernardo Élis estimulou a AGI a criar o Projeto ‘Goianidade’

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05.11.2020 - 14:27:27

 A lembrança do aniversário natalício do escritor Bernardo Élis, no dia 15 deste mês de novembro, quando faria 105 anos, é oportuna para recordar os exemplos desse grande autor goiano.

O mais significativo deles diz respeito ao seu atrevimento e ousadia de se candidatar à fechada Academia Brasileira de Letras (ABL), então reduto dos intelectuais dos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, sendo de um Estado periférico, sem maior expressão na área literária. E conquistou a Cadeira nº 1 da ABL, por um voto, concorrendo com uma pessoa que todos nós, brasileiros, admiramos e respeitamos, pelo grande legado que deixou à nação – o ex-presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Grande romancista e contista, Bernardo Élis sempre foi unanimidade em Goiás, pelo seu belo texto, pela sua simpatia e simplicidade, e pela alegria na convivência, sempre sorridente e contando histórias. Como fez ao longo de sua vida, de seus bem vividos 82 anos, quando produziu romances e contos que nos encantaram, pela sua linguagem universal, mesmo tratando, com maestria, de questões regionais, as disputas políticas, e valorizando nossa cultura, nossa gente, nosso mundo.

Observador compulsivo das cenas comuns e domésticas, como escreveu o professor doutor Eguimar Felício Chaveiro, da Universidade Federal de Goiás, fez da escrita o seu instrumento para se posicionar diante das mazelas do mundo.

Meio tímido e com certa dificuldade para se expressar verbalmente, Bernardo Élis Fleury de Campos Curado nasceu em Corumbá de Goiás. Aos 12 anos escreveu seu primeiro conto, inspirado em “Assombramento”, de Afonso Arinos. Aos 21 anos era escrivão da Delegacia de Polícia de Anápolis e do Cartório do Crime de sua cidade natal. Aos 24 anos foi nomeado Secretário da Prefeitura de Goiânia, quando ocupou interinamente o cargo de Prefeito, por duas vezes.

Em 1944, seu livro de contos “Ermos e Gerais”, publicado pela Bolsa de Publicações de Goiânia, recebeu elogios da crítica. Nesse ano casou-se com Violeta Metran. Em 1945 trabalhou como professor da Escola Técnica Federal de Goiás, em Goiânia, e do ensino público estadual e municipal. Em 1955, publicou o livro de poemas “Primeira Chuva”. Lecionou literatura na Universidade Católica de Goiás.

A obra mais importante, o romance “O tronco”, publicado em 1956, narra a violenta disputa pelo poder no início do século XX entre o Governo e os coronéis do então norte de Goiás. Seu texto foi adaptado para o cinema em 1999, pelo diretor João Batista de Andrade.

Entre 1970 a 1978 Bernardo Élis foi assessor cultural no Escritório de Representação do Estado de Goiás no Rio de Janeiro, quando decidiu levar adiante seu corajoso, valente e bem-sucedido projeto de ingressar na distante, para os mortais comuns, ABL. Começou anunciando sua decisão, partiu para a luta, inscrevendo-se, mostrando sua produção, colocando-se à disposição para o debate de suas ideias e projeto, e seguiu em frente, conversando com seus pares e defendendo essa postulação.

Ao decidir conquistar espaço na Academia Brasileira de Letras, um pleito difícil, em especial para quem não fazia parte dos seletos grupos de escritores desses grandes centros urbanos e era pouco divulgado nacionalmente, Bernardo buscou apoio. Quem primeiro abraçou sua causa foi o então vice-governador de Goiás e na época presidente da Academia Goiana de Letras, Ursulino Tavares Leão, que realizou em Goiânia um grande encontro de academias estaduais. Trouxe uns 10 acadêmicos da ABL e praticamente todos os presidentes de entidades dos estados, quando se conversou bastante e foram assegurados apoios importantes. O governador Leonino Caiado referendou todas as iniciativas de seu colega de gestão.  

As articulações deram certo.

O atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), Geraldo Coelho Vaz, esteve presente no jantar para os convidados, e aproveitou para distribuir aos acadêmicos, com autógrafos, o seu novo livro de poesias “Mensagem livre”. A repercussão foi positiva, pois recebeu, posteriormente, muitos cumprimentos pela obra, da parte dos visitantes, agradecendo e comentando a publicação.

Bernardo Élis assumiu sua Cadeira nº 1 da ABL em 1975.

Depois, foi diretor do Instituto Nacional do Livro, em Brasília, de 1978 a 1985; em 1986 ingressou no Conselho Federal de Cultura, ao qual pertenceu até a extinção do órgão, em 1989; e no Governo Maguito Vilela tornou-se, por dois anos, Secretário da Cultura do Estado de Goiás.

Recebeu os prêmios ‘José Lins do Rego’ (1965) e ‘Jabuti’ (1966), da Câmara Brasileira do Livro, pelo livro de contos “Veranico de Janeiro”; ‘Afonso Arinos’ (1965), da ABL, pelo livro “Caminhos e Descaminhos”; ‘Sesquicentenário da Independência’, pelo estudo “Marechal Xavier Curado, Criador do Exército Nacional” (1972); e da Fundação Cultural de Brasília (1987), pelo conjunto de obras, além de medalha do Instituto de Artes e Cultura de Brasília.

Essa audácia estimulou a Associação Goiana de Imprensa (AGI), na gestão de 1988/1991, a criar um projeto, que denominou de “Goianidade”, com esse mesmo propósito: de união dos goianos, de todos os níveis, e todas as instituições e entidades, para a defesa de causas comuns pelo Estado de Goiás. Como foi o pleito dele, que juntou a todos os goianos e ainda chamou a atenção para a produção literária de nossos autores, então pouco divulgados, deu projeção à nossa cultura e abriu as portas de Goiás.

A lição que nos deixou, de dar as mãos e trabalhar em conjunto, mostra que decisões difíceis como essa tem que ser assumida com o peito aberto. É fundamental deixar de lado a timidez de Goiás e retomar o Projeto ‘Goianidade’, para torná-lo permanente diante de nossos pleitos, de nossas demandas e da necessidade de destacar que, quando estamos juntos, somos fortes e vamos atingir nossos objetivos, como o nosso maior escritor nos ensinou, com sua iniciativa e determinação.

Com esta recordação, os cumprimentos ao Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis dos Povos do Cerrado (Icebe) pela iniciativa de lembrar as datas do nosso grande autor, o que engrandece Goiás.
 
Jales Naves é jornalista e escritor, presidiu a Associação Goiana de Imprensa (AGI) em dois mandatos consecutivos (1985/88-1988/91), e é o titular da Cadeira nº 30 da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas.

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por Jales Naves

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