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A arte-educação, a pedra e a flor

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02.10.2020 - 21:56:59

De 20 de agosto de 2019 a 20 de agosto de 2020, Goiás viveu o Ano Cultural Cora Coralina. Nascida Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a célebre escritora vilaboense adotou o pseudônimo literário de Cora Coralina. Poetisa e contista de reconhecimento temporão, Cora é mencionada por Carlos Drummond de Andrade como sendo o nome mais importantes de Goiás, num cavalheirismo intelectual do poeta mineiro que, nessa expressão, reconhece o grande talento da poetisa goiana.
 
Em sua obra poética publicada em 1976, “Meu Livro de Cordel”, Cora Coralina registrou a poesia intitulada “Das Pedras”, que guarda uma correlação temática e intertextual com o clássico poema drummondiano sob o título de “No Meio do Caminho”. Em seus versos, registro o poeta mineiro: “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/tinha uma pedra/no meio do caminho tinha uma pedra.//Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas tão fatigadas.//Nunca me esquecerei que no meio do caminho/tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/no meio do caminho tinha uma pedra.”
 
Ridicularizado por muitos à época, que viam na transgressão formal de Drummond nesse poema um non sense estético, “No Meio do Caminho” se firmou como um emblemático produto do modernismo e sua ruptura com o passadismo poético da época. O tempo se incumbiu, sob o aporte teórico da exegese artística e literária, de conferir o devido valor aos versos do poeta de Minas Gerais. O mito de Sísifo, por exemplo, assim como o anagrama entre “pedra” e “perda”, dão a dica de como pode ser rica a análise do texto drummondiano.
 
Sísifo, rei grego espertalhão, foi condenado pelos deuses a rolar uma pedra até o alto de uma colina por toda a eternidade, pois quando já se encontrava próximo do topo a pedra rolava de volta, fazendo com que ele reiniciasse o trabalho novamente, de forma interminável. Nos dias atuais, simboliza as agruras do dia a dia, a canseira interminável do trabalho e sua quase nula recompensa; isto numa perspectiva pessimista e segundo a filosofia do absurdo de Albert Camus.
 
A essa rotina sísifica massacrante, pode-se juntar, ainda, o tormento das perdas que são acumuladas com a passagem do tempo como, por exemplo, o vigor da juventude e a perda de entes queridos que o destino vai afastando ou que a morte vai ceifando. O contexto do covid-19 trouxe um reforço agônico a essa abordagem, tanto do mito de Sísifo quanto da perda que, enfim, se revela uma pedra no caminho existencial.
 
O intertexto de Cora
A intertextualidade é definida como sendo a relação e o diálogo entre textos. Citação direta, alusão e imaginário, que ligam um texto ao outro, entram na conceituação do que vem a ser intertexto. O poema “Das Pedras”, de Cora Coralina, vai caracterizar-se como um intertexto do poema drummondiano. Em seus versos, podem ser lidas as seguintes expressões imagéticas e poemáticas: “Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim./Levantei uma escada muito alta e no alto subi./Teci um tapete floreado e no sonho me perdi./Uma estrada,/um leito,/uma casa,/ um companheiro./Tudo de pedra./Entre pedras cresceu a minha poesia./Minha vida…// Quebrando pedras e plantando flores.//Entre pedras que me esmagavam levantei a pedra rude dos meus versos”.
 
Neste poema, Cora Coralina parece repassar todo o seu percurso biográfico. A partir da possível análise do poema drummondiano e sua correspondente referência às agruras existenciais, a poetisa goiana assume o imaginário de que ele se impregna para utilizá-lo como um parâmetro de autorreferencialidade. O trajeto de vida de Cora, que rompeu com arraigados preconceitos de sua época para vivenciar a sua afetividade conjugal distante de Goiás, num período marcado por severas restrições à liberdade feminina, antecipou no tempo e no espaço goianos o ethos do empoderamento feminino. Essa trajetória parece marcar os versos de “Das Pedras”, sinalizando o alto preço emocional que a poetisa teve de pagar à mentalidade obsoleta dos contemporâneos de sua mocidade.
 
Contudo, apesar das dificuldades, e mesmo em função delas, o poema ainda traz um lampejo de otimismo e de alquimia poética do destino nos seguintes versos: “Minha vida…//Quebrando pedras e plantando flores.” O que significa, em outras palavras, que o eu poético transforma as dificuldades em força motriz da conquista de uma melhor condição de vida em todos os níveis. Com a poetisa, as pedras do seu destino se transformaram nas flores do reconhecimento de sua escrita através de premiações e honrarias trazidas pelo tempo. Para seus leitores, fica a lição de vida, de perseverança.
 
O Ideb e o seminário do ciranda da arte
No último mês de setembro foi disponibilizado o resultado nacional do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). O Estado de Goiás alcançou expressivo resultado, com o primeiro lugar no Ensino Médio e ótimos resultados nas demais etapas do ensino básico. Os excelentes índices goianos no IDEB dos últimos anos, que vêm tornando-se uma feliz rotina, representam muito da competência dos professores de Goiás. O educador de nosso Estado tem se esmerado em sua prática docente, buscando de maneira persistente o aprimoramento.
 
Quem puder acompanhar de alguma forma o dia a dia de uma sala de aula das escolas públicas poderá constatar as inúmeras pedras no caminho do bom desempenho escolar global. Os fatores mesológicos que influenciam no processo educacional são tantos, e tão variados, que remetem a uma outra pedra, a do adágio popular: o educador tem de tirar leite de pedra. Neste sentido, todas as iniciativas que tenham como objetivo facilitar o aprimoramento do educador merecem ser incentivadas e referenciadas ao máximo.
 
É o caso do “XI Seminário do Ensino de Arte: desafios e possibilidades contemporâneas – Conexão, cocriação e resiliência, quebrando pedras e plantando flores”, que é promovido pela Secretaria de Estado da Educação e pelo Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte. Realizado entre os dias primeiro e 09 de outubro, o seminário ocorre todo em ambiente virtual por conta da pandemia de covid-19 e dos cuidados administrativos que ela suscita. Isto, no entanto, não impede que uma rica e diversificada programação educativa seja levada a termo.
 
Contemplando as quatro linguagens artísticas, dança, música, teatro, artes visuais, a iniciativa conta com apresentações, mesas-redondas e toda uma programática voltada para a ampliação dos instrumentais teóricos e metodológicos por parte dos arte-educadores goianos, numa iniciativa que em muito tem contribuído e contribuirá ainda mais para o desempenho dos estudantes goianos em futuras edições do IDEB. Embora português e matemáticas sejam as matérias avaliadas no IDEB, estudos vários têm confirmado a intersemiose do conhecimento, em que a epistemologia das artes contribui para a aprendizagem de ambas as disciplinas.
 
O título do seminário traz em seus termos finais e propositivos os versos de Cora Coralina, numa dupla dimensão de homenagem à poetisa goiana e de evocação dos muitos percalços da educação que podem ser superados pela dedicação de educadores comprometidos, que transformem as pedras da educação nas flores do conhecimento.
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO. Doutor em Letras e Linguística pela UFG. Professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.
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por Gismair Martins Teixeira

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